Entrevista! Glória Menezes revela histórias de amor e talento que marcaram os seus (quase) 81 anos de vida

* Fotos: Diego Vara e Banco de Dados ZH

Na hora marcada para a entrevista, surge no salão do hotel uma pequena senhora loira, vestida com uma blusa de lã branca, que se aproxima com passinhos miúdos, apoiados pelo braço seguro da filha – uma outra senhora loira, mais alta e jovem, que exibe no rosto a evidente influência da genética. Simpática e muito sorridente, a pequena senhora fica sabendo que será capa de Donna logo depois de cumprimentar quem estava por ali.

— Mas como assim, capa?

— Sim, capa. Você será fotografada para a capa da revista.

— Ah, mas então eu preciso me arrumar. Tenho que voltar ao meu quarto para me maquiar. Vocês me aguardam um instantinho?

Corta para o palco do Theatro São Pedro, apenas algumas horas depois deste episódio, quando a pequena senhora toma de assalto o espaço cênico. A fragilidade e a delicadeza evidentes no corpo desaparecem quando ela dá voz a uma octogenária muito doida que vive a liberdade em sua essência, no espetáculo Ensina-me a Viver, que fica em cartaz em Porto Alegre até este domingo, dia 11. É uma singela gigante quem desliza pelo palco com destreza de menina e arranca suspiros e efusivos aplausos de uma plateia entregue e absolutamente devota ao seu talento.

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Nas duas situações, a protagonista é a atriz Glória Menezes. Na vida real, alguém com humildade suficiente para surpreender-se com o fato de ser capa de revista, que pede educadamente que a aguardem enquanto ela própria, sem um séquito de assessores, faz a maquiagem para a produção. Por outro lado, no exercício da profissão que escolheu há mais de meio século, é uma referência, uma pioneira, especialista em transformar-se em quem quer que seja.

Qualquer um que tenha assistido a televisão desde que ela foi inventada no Brasil está familiarizado com o rosto de olhos levemente puxados e boca carnuda. Desde que deixou de ser Nilcedes – seu nome verdadeiro, resultado da junção do nome dos pais, José Nilo (Nil) e Mercedes (cedes) -, nunca deixou de brilhar. Mas engana-se quem pensa que o nome foi escolhido prevendo grande fama e consagração. “Nilcedes não é nome, né, é uma coisa. Escolhi Glória porque acho bonito e Menezes pelas minhas origens portuguesas. E tudo fechava 13 letras, para dar sorte”, declarou a atriz em muitas entrevistas. As origens portuguesas estão em Pelotas, terra natal de Nilcedes e de sua mãe, onde viveu somente até os seis anos de idade.

Em meados dos anos 1950, já morando em São Paulo, Glória ingressou na celebrada Escola de Arte Dramática da USP, mas nunca concluiu o curso. O trabalho a chamou antes disso. Em 1959, após ter ganho prêmio de atriz revelação em um festival de teatro promovido pelo diretor Antunes Filho, estreou na TV, na novela Um Lugar ao Sol, pela qual também foi premiada. O mesmo diretor a convidou, em seguida, para encenar a peça As Feiticeiras de Salem, que lhe rendeu mais um prêmio. Impressionado com sua atuação no teatro, o diretor de cinema Anselmo Duarte a convidou para participar do filme O Pagador de Promessas, que começaria a ser rodado em 1960. Em 1962, o filme estreou no Festival de Cinema de Cannes e ganhou a Palma de Ouro, tornando o cinema brasileiro mundialmente conhecido. Foi a consagração também para Glória, logo no início da sua carreira.

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No ano seguinte, ao lado de Tarcísio Meira, protagonizou a primeira novela ao vivo da televisão brasileira, 25499 Ocupado, transmitida pela TV Excelsior. Foi durante esta novela que os dois atores engataram um dos romances mais longevos e felizes de que se tem notícia no meio artístico. Desde então, Glória nunca mais parou. Foram quase 40 novelas com personagens inesquecíveis, como Lara, Diana e Márcia, de Irmãos Coragem; Laurinha Figueroa, de Rainha da Sucata; e a Baronesa de Bonsucesso, de Senhora do Destino. E essa conta ainda não está fechada.

— Dia 14 me apresento para a Globo, para fazer a novela Totalmente Demais. Mas não sei nada sobre minha personagem, agora estou totalmente dedicada à peça — revela Glória, que viverá a ricaça Estelinha, de volta ao Brasil depois de morar em Paris.

A lista de filmes e peças de teatro também é extensa – e está igualmente incompleta. Mesmo prestes a completar 81 anos (que serão comemorados no próximo dia 19), Glória sente-se disposta e cheia de energia para o teatro. O espetáculo Ensina-me a Viver, texto de Coling Higgins que ela protagoniza ao lado de Arlindo Lopes, é um exemplo desta vitalidade. Em cartaz há oito anos, é sucesso de público e crítica. A temporada atual será encerrada neste final de semana no palco do Theatro São Pedro, mas ela não descarta novas excursões pelo país.

— O público pede, enche o teatro, por que parar? Você pararia? Claro que não! Agora faço uma novela que é um estouro absoluto de sucesso na Globo e depois, volto com Ensina-me. Não é assim?

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O sucesso e o reconhecimento vieram como resultado de um talento singular, mas também de um temperamento generoso e disposto a entregar-se ao trabalho e suas vicissitudes. Nunca teve pudores ou restrições para viver um personagem – já raspou cabelo sem pestanejar – e, principalmente, sempre esteve disposta a encarar o que viesse. Por causa deste temperamento gentil e amoroso, Glória coleciona bem mais do que prêmios e personagens. Ajunta amigos.

— Ela é uma pessoa especial, que gosta de gente de verdade. Nós somos amigas desde os tempos em que nossos maridos tiveram contato profissional, aqui em Porto Alegre. Saíamos para passear de carro nos verões, nos anos 1960, era muito divertido. Éramos muito felizes, nós quatro. Ainda hoje somos amigas, tenho muito carinho por ela — revelou a jornalista Célia Ribeiro, amiga de décadas que revê Glória sempre que possível.

O último reencontro das duas foi emocionado, após uma das sessões do espetáculo que Glória apresenta no Theatro São Pedro.

Um amor de novela

— Teve uma atriz muito importante na época da TV Excelsior, não vou dizer o nome, que estava do outro lado da rua e gritou para mim: “Glória Menezes!”. Eu respondi: “Oi!”. E ela disse: “Faz sucesso na carreira e é casada com o homem mais lindo do Brasil!”. Virou as costas e foi embora. E eu falei: “É verdade!”.

A anedota, contada às gargalhadas, revela não apenas o sucesso que sempre acompanhou a atriz, desde os seus começos na profissão, como outro detalhe que faz da sua vida pessoal quase um roteiro da novelista Janete Clair: o casamento de 52 anos com o ator Tarcísio Meira, seu par em muitas novelas que se torna ainda mais perfeito quando protagoniza a vida real. Os dois se conheceram no teatro, enquanto ensaiavam peças diferentes. Ele estava começando na vida artística, e ela já havia ganho prêmios por sua atuação nos palcos. Os dois costumam contar que ele a viu por entre as coxias e caiu de amores pela beleza daquela mulher loira e exuberante. Pouco tempo depois estavam juntos.

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Glória já havia sido casada antes de conhecer Tarcísio. A união foi arranjada pela família com um primo e ocorreu quando a menina tinha apenas 18 anos. Deste casamento resultaram dois filhos, João Paulo e Maria Amélia – a loira que acompanha Glória durante sua temporada em Porto Alegre. Esta união, no entanto, foi efêmera e já estava desfeita quando ela e Tarcísio se conheceram.

Desde então, a parceria foi tornando-se mais intensa e afinada. Pouco depois do casamento, em meio a trabalhos sucessivos na televisão, o casal encomendou o único rebento, o também ator Tarcísio Filho.

— Não planejamos ter um filho só, mas as coisas foram acontecendo. Nossa vida era muito corrida, precisei deixar Tarcisinho muitas vezes com mamãe, enquanto a gente gravava novela — comenta.

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Há dois anos, Tarcísio e Glória celebraram bodas de ouro junto com a família e amigos – destaque para os netos e bisnetos, que Glória adora contar que tem -, revelando a fina sintonia que ainda persiste.

— Conviver com eles é impressionante. Estão sempre trocando pequenos carinhos, gentilezas, se elogiando e se cuidando. Se ficam algumas horas separados, já se ligam, trocam mensagens, como namorados. São duas figuras — revela a produtora Maria Siman, que produz o espetáculo Ensina-me a Viver e é amiga pessoal do casal.

Relembre outras novelas em que o casal fez par romântico

 

Fôlego e entrega no palco 

Os mais de 55 anos de carreira não mudaram algumas características que marcam a personalidade de Glória Menezes: ela ainda fica nervosa antes de uma entrevista ou sessão de fotos, decora minuciosamente os textos e não os altera jamais, cumpre rituais de concentração antes de entrar em cena, o que inclui fazer a própria maquiagem, e ensina todo e qualquer elenco a repetir o Responso de Santo Antônio antes do início de qualquer espetáculo. Talvez por isso seja tão grande a sua vitalidade.

Na temporada que se encerra neste domingo, Glória vai viver Maude pela última vez. Aos 80 anos (quase 81), ela vive uma personagem de 79, que se envolve com um adolescente depressivo de 19 anos. Ela, livre e com um olhar bem-humorado e descompromissado para com a vida, mostra ao jovem Harold que a existência deve ser mais leve e feliz.

— Ele é um jovem que frequenta enterros de pessoas que não conhece, que em algum momento se entrega à pureza e à jovialidade daquela senhora. E a Glória vive com perfeição esta personagem tão incrível — comenta o ator Arlindo Lopes, que faz par romântico com Glória.

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No fim de semana passado, após o espetáculo, Glória recebeu a Medalha Simões Lopes Neto das mãos do governador José Ivo Sartori, no Memorial do Theatro São Pedro. Visivelmente emocionada, ela ressaltou o orgulho que sente por ter nascido no Rio Grande do Sul e a felicidade de receber reconhecimentos como este.

Durante a entrevista que concedeu à reportagem de Donna, Glória enfatizou a importância do trabalho em sua vida e declarou-se apaixonada por Maude, apesar de se considerar diferente dela em muitos aspectos. Com sua voz grave e seus gestos delicados, a atriz fala abertamente de qualquer assunto, desde casamento, beleza, envelhecimento até as lembranças que guarda da infância, em Pelotas.

Donna – De onde vem tanta vitalidade?
Glória Menezes – Não me pergunte, porque eu não sei (risos). O dia em que eu a perder, vou saber que a perdi. Mas, agora, não me pergunte de onde vem porque eu não sei. Mas tenho 80 anos apenas no papel. Sei que tenho vitalidade, graças a Deus. Minha mãe era assim, acho que isso é um privilégio das mulheres gaúchas. Os homens saíam para as guerras e deixavam as mulheres tomando conta de tudo. Elas tinham de aprender e botar muita energia em tudo o que faziam, para tomar conta sozinhas de tudo. Acho que isso influencia.

Donna – Como são os cuidados com a saúde?
Glória – Olha, eu fazia academia todos os dias. Fazia musculação para ter força, fazia ginástica, puxava aqueles aparelhos. Agora faço menos porque tive um problema. Estava me maquiando no camarim e havia uma cadeira atrás de mim, que foi para trás sem que eu percebesse. Sentei-me no ar, caí no chão com tudo e fraturei o sacro. Mas levantei dali e fui fazer o espetáculo, não parei, não. Aliás, não parei até hoje, o sacro foi colando sozinho. Então, hoje eu tenho mais cuidado com a atividade física. Mas foi a primeira vez na vida que quebrei alguma coisa. Em função disso, faço menos exercício, mas não deixo de fazer. E como muito pouco. Sempre fui um passarinho para comer, a vida inteira. Dizem que as pessoas que comem pouco vivem mais, né, acho que estou no caminho. Também adoro vinho, tomo uma taça de vinho tinto quase todas as noites, antes de jantar.

Donna – Nem pensa em aposentadoria?
Glória – Não! Imagina! Só vou parar no dia em que não puder subir mais no palco. Enquanto eu puder e enquanto tiver papel pra mim, enquanto houver convites, estou lá. Tarcísio tem a mesma disposição, está fazendo uma peça de grande sucesso em São Paulo. Depois de 20 anos voltou ao teatro, e eu achei ótimo. Fiquei orgulhosa dele.

Donna – Deve ser uma pergunta corriqueira, mas é impossível não fazê-la. Qual a receita para ter um casamento feliz de 52 anos?
Glória – Não tem receita. Ou melhor, a receita é muito simples, é uma palavrinha desse tamanhinho: amor. Onde existe o amor existe a compreensão, a tolerância, o prazer de estar junto, tudo isso. Às vezes a gente entra no elevador, um olhando para o outro, e ele fala: “Glória, você está tão bonitinha hoje”. E eu falo: “E você está tão lindão!”. E a gente se dá uns beijinhos, esqueço que tem câmera (risos). Afinal ele é o homem mais bonito do país, não é? E ele envelheceu muito bem, não perdeu cabelo, tem um porte lindo, não é? Isso é um privilégio, pois eu estou casada com o grande amor da minha vida. Isso é muito raro. Eu fecho o olho e vejo o Tarcísio jovem, correndo, andando a cavalo, aquelas pernas compridas dando passos largos. A gente nem vê o tempo passar para quem a gente ama.

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Donna – Mas o tempo tem sido generoso com você também.
Glória – Você acha? Ah, eu também acho (risos). Eu nunca escondi idade, faz parte do meu temperamento e do modo como encaro a vida. Acho até bom dizer que tenho 80, porque normalmente as pessoas se espantam, acham que eu tenho menos.

Donna – Um dos grandes apelos da sua carreira, além do talento, é claro, foi a beleza.
Glória – Tu achas? Nunca me achei bonita. Sei que tenho um temperamento bom, sou comunicativa, se ia a uma festa os rapazes todos iam conversar comigo, me entrosava rapidamente, mas nunca pensei em beleza para o meu lado. Quando fui fazer o teste para a peça As Feiticeiras de Salem, em 1959, Tarcísio estava ensaiando uma outra peça. Ele me viu, mas eu não o vi. E aí ele falou: “Olha, que bonitinha!”.

Donna – A sua vivência em Pelotas ainda influencia de alguma forma?
Glória – Não. Eu fui menina para São Paulo, apesar de ainda ter família aqui no Sul. O que eu guardo de Pelotas são lembranças incríveis. Eu morava em uma casa de esquina e tinha um bondinho que vinha fazendo aquele barulho, tén-tén-tén-tén, e parava na nossa esquina. Eu ficava olhando na janela… Isso é uma recordação muito forte que tenho da infância. Mas sempre voltei para o Rio Grande, e acho que não perdi essa essência. Mãe gaúcha e vó gaúcha é fogo, minha filha! (risos) Mamãe era uma grande contadora de histórias, vovó também. Eu dormia com a minha avó no mesmo quarto, e essa essência foi penetrando. A mamãe fazia uns doces de que nunca esqueço. Rei Alberto! Tu sabes o que é Rei Alberto? É um doce que eu adorava, aquela coisa colorida num copo… Nunca mais comi Rei Alberto. Olha o nome do doce, só podia ser de Pelotas!

Donna – Trouxe receitas da infância?
Glória – Não, não sou de cozinhar. Sou de decorar. Tudo o que tem na minha casa, quadro, poltrona, tapetes, fui eu que escolhi. Mas não me põe na cozinha. Esse foi um talento que eu não herdei. Mamãe cozinhava muito bem. Sabe quem cozinha bem? Tarcisinho, meu filho. E faz coisas bem gostosas.

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Donna – A decisão de ser atriz foi tomada na infância, certo?
Glória – É, mais ou menos. Nós íamos de navio, de Rio Grande ao Rio de Janeiro, para encontrar meus avós. Na época eram 10, 12 dias de viagem. (O pai de Glória era maranhense, assim como os avós. Como a família estava espalhada pelo Brasil, eles organizavam encontros de todos no Rio de Janeiro, onde moravam alguns tios.) Eu tinha cinco anos de idade e mamãe me botava para dormir depois do almoço. Mal sabia ela que, quando ela saía, o pessoal de uma trupe de argentinos que também viajava me buscava para ensaiar uma peça que seria apresentada a bordo. Me fizeram uma roupa de papel crepom, um vestido com umas florzinhas. Na noite da apresentação, quando apareci no palco, mamãe ficou fula da vida e me tirou do palco. Foi quando uma das atrizes disse a ela: “A senhora não vai poder tirar a sua filha do palco. Ela vai viver no palco”. A mamãe sempre me contava isso.

Donna – Qual sua personagem preferida?
Glória – Na minha carreira, a preferida é a que estou fazendo agora. É o desafio do momento. Não tenho preferência. No momento em que eu li a Maude e comecei a fazer (a peça), ela passou a ser a minha personagem preferida. Tenho público de crianças até idosos. Quer coisa melhor do que isso? Eu acredito que não existe. Fazemos essa peça há oito anos, muito antes de eu completar 80. E posso ficar mais um tempo fazendo a Maude. Ela é tão querida, sou tão feliz fazendo ela. Estou com 80, sei lá quanto tempo vou durar, deixa eu aproveitar.

Donna – A senhora teve experiência nos CEUs (Centro Educacional Unificado, onde, por meio de um programa governamental, são apresentados vários espetáculos consagrados para os públicos da periferia), em São Paulo, com este espetáculo. Como foi?
Glória – O CEU é uma coisa linda que aconteceu na minha vida. Acho que foi fundamental para a minha profissão ter feito o CEU. Ao fim do espetáculo, todos gritam “Obrigado!”, parece até que combinaram. Eles agradecem com uma sinceridade, uma verdade, ah, não tem coisa melhor.

Donna – Como se relaciona com as novas gerações nos palcos e na televisão?
Glória – Adoro trabalhar com os jovens e dou muita força para os atores que estão começando. A gente fica mais jovem com eles, né? Fiz muita coisa, mas ainda aprendo com eles. Fiz novela ao vivo na Tupi e fiz a primeira gravada diária, na Excelsior. Era segunda, quarta e sexta, porque tinha que ter tempo pra gente decorar. Já troquei de roupa em close. O close no meu rosto, eu falando aquele bifão – bifão é texto grande, você sabe -, e a camareira tirando a minha roupa. Cortou para outra câmera e, quando voltou para mim, eu já estava com outra roupa. Também fiz Cristiano, cortei o cabelo em cena para fazer um homem, usava barba, bigode e cavanhaque.

GALERIA! Os melhores momentos da carreira de Glória

 

Donna – Você foi, talvez, a primeira atriz a interpretar múltiplos papéis, fazendo três mulheres na novela Irmãos Coragem.
Glória – Sim, eu fazia Lara, Diana e Márcia. A Diana era safada. Lara era o contraponto, mais normal. Márcia era meio bobalhona (risos). Foi muita intuição. Acho que a criação de um personagem é algo que ocorre intuitivamente. Claro, a gente lê, discute com o diretor, mas aí, quando chega, pum! Quando eu fazia a Diana, criei um tique para ela (reproduz um estalinho com a boca que era a marca registrada da personagem). O Boni, quando viu, mandou eu parar, achou que não ficava bom. Mas acabou ficando. Uns 15 dias depois, ele passou por mim e disse: “Não para, não, ficou bom!”. Ninguém sabia, era tudo intuitivo.

Donna – Também fez parte do fenômeno O Pagador de Promessas, que ganhou a Palma de Ouro em Cannes.
Glória – Aquilo foi o início da minha carreira. Foi uma surpresa muito grande. Eu tinha ganho como atriz revelação e aí falaram de mim para o Anselmo (o diretor Anselmo Duarte). Fiz um teste em São Paulo e fui aprovada para fazer o papel que a Norma Bengell fez, a prostituta. Eu não ia fazer a Rosa, que era o papel da Ana Maria Dias, que pegou uma pneumonia dupla e não pôde fazer. Lá em Salvador, quando ia fazer a primeira tomada do filme, o Anselmo me mandou ir ao cabelereiro para cortar e pintar o cabelo. Eu estava loira, pronta para fazer a prostituta. No dia seguinte, à noite, eu já estava filmando a Rosa. Não tinha decorado texto, nada. De repente, estava em Cannes, meio sem saber por que, daí veio a Palma de Ouro. E tu sabes o que é receber um buquê de rosas, com cartão, de uma pessoa que morava no Brasil? Naquela época, aquilo era uma coisa impensável. E Tarcísio me mandou essas flores. Ele se apaixonou por mim e me mandou as rosas (risos). Não éramos nem namorados. Ele escreveu no cartãozinho assim: “Volte, volte, volte…”. Ele estava começando a carreira de ator, mas ainda trabalhava no Fórum na época.

Donna – Que papel ainda quer fazer?
Glória – Eu nunca quero fazer nada. É o que bate, a surpresa que tenho com os papéis que eu leio, com os convites que me fazem. Nunca idealizei fazer um personagem. A surpresa é o que mais me atrai. Com a Maude, por exemplo, eu vi o filme, que passou nos anos 1970 (Ensina-me a Viver – no original, Harold and Maude -, dirigido por Hal Ashby em 1971). Naquela época eu não tinha idade para fazer a personagem, mas pensei que ela era interessante e me perguntei se viveria para poder fazê-la. Agora estou aí fazendo a Maude, graças a Deus.

 

ENSINA-ME A VIVER
Até 11 de outubro no Theatro São Pedro (Praça Marechal Deodoro, s/n°).
Sábados (20h) e domingos (18h). Ingressos: compreingressos.com

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