Entrevista: Ingrid Guimarães promete um ano de cinema

Micael_Hocherman,/Divulgação
Micael_Hocherman,/Divulgação

Pergunte a Ingrid Guimarães como é sua relação com o público e há boas chances de você ouvir a seguinte história. No Carnaval passado, ela foi surpreendida no camarote por um pedido: toparia tirar uma foto com a Sabrina Sato? Claro. Foto feita, Sabrina disparou:

– Sou sua fã e queria ser sua amiga.

– Também sou sua fã, mas não queria ser sua amiga, não – devolveu Ingrid. – Não conseguiria ir à praia com você!

As duas deram risada e se despediram. No caminho, um grupo de mulheres abordou Ingrid: a Sabrina é realmente linda de pertinho?

– Gente, ela é linda, simpática e gente boa. E a bunda dela é incrível!

Elas riram e revelaram a aposta:

– A gente tinha certeza de que você ia nos falar da bunda da Sabrina, porque você é igual à gente!

Em entrevista por telefone desde o Rio de Janeiro, onde mora, a atriz goiana de 43 anos encerra o relato
e conclui:

– Eu sou essa pessoa.

Por “essa pessoa”, entenda-se uma mulher com quem outras mulheres se identificam e se sentem à vontade – e uma atriz popular que escolhe seus papéis driblando estereótipos e aborda temas que tocam a todas, como ditadura da beleza, relacionamentos e consumo. Não à toa, Ingrid brinca que o marido nunca sabe se quem a cumprimenta na rua, cheia de intimidade, é uma amiga dos tempos de escola ou uma fã.

Para a atriz, é justamente essa proximidade um dos motivos que a faz levar tanta gente ao cinema: seu mais recente blockbuster, Loucas pra Casar, foi o filme brasileiro mais visto em 2015.

Paprica / Divulgação

Ingrid (centro) estrela “Loucas pra Casar” | Foto: Paprica / Divulgação

E em 2016, que anuncia como um ano de cinema, Ingrid quer repetir a dose. E ir além.

– Já fiz três grandes sucessos populares no cinema, De Pernas pro Ar 1, De Pernas pro Ar 2 e agora Loucas pra Casar. Quero muito manter o público que tenho, mas também dar um passo à frente.

O primeiro passo será dado em abril com Um Namorado para Minha Mulher, remake de um sucesso argentino, mais comédia romântica e menos humor desbragado. No centro da trama, um casal em crise e uma mulher que “está cagando para o glúten, para a lactose, para a dieta, para estar aos padrões”..

– É uma comédia diferente das que costumo fazer, e uma personagem sem glamour nenhum – adianta Ingrid. – A graça está no mau humor dela. É uma mulher politicamente incorreta. Sabe as opiniões que todas temos sobre o mundo e ninguém tem coragem de falar?

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Outra estreia do ano será Tudo Bem Quando Acaba Bem, um road movie ao lado de Fábio Assunção. Por ora, a previsão deste filme também é para abril:

– Mas acho que estão mudando a data, até para eu não competir comigo mesma (risos).

E tem mais: Ingrid participa de outro longa, Um Homem Só, e está produzindo com Mariza Leão seu primeiro filme “realmente dramático”, baseado na história real de uma brasileira, com direção de Laís Bodanzky. Muito mais do que isso, ela ainda não revela:

– Este é o projeto de cinema da minha vida no momento.

Enquanto isso, está de volta à TV em mais uma temporada de Além da Conta, no GNT.

Aliás, como uma mulher gente como a gente fala de consumo em Nova York enquanto os brasileiros fazem as contas para enfrentar a crise no país?

– Pensamos muito se valia a pena fazer o programa. Não podíamos fazer uma coisa fingindo que não estamos em crise. Então, inventamos uma nova sacada, como sobreviver à crise em Nova York.

Nos 20 dias em que passou por lá, Ingrid constatou o quanto tudo mudou: há menos brasileiros, e os que se aventuram compram menos. Ela, inclusive. Diante de casacos de US$ 100 que, convertidos, beiravam os R$ 400, não repetiu a dose de outras temporadas do programa, quando aproveitava para comprar o que achava de bom e barato, principalmente roupas para a filha, Clara, seis anos.

– Até meus diretores, que moram lá, falaram: “Nunca te vi assim, tão econômica” – conta Ingrid, que ficou em apartamento, em vez de em hotel, e cozinhou para economizar alguns jantares.

De volta ao Brasil, deu de cara com uma liquidação de roupa infantil:

– Que bom que não comprei em Nova York!

Confira a entrevista:

Donna – Um filme por estrear, mais três na manga. Depois de estrelar o filme mais visto de 2015, 2016 também promete muito no cinema.
Ingrid – Será um ano de cinema. Sabe o que aconteceu comigo? Entrei muito tarde no cinema, é como se fosse um namorado novo. Vivi de teatro muito tempo, entrei tardiamente na televisão e nunca vou abandonar, mas, realmente, minha paixão do momento é o cinema.

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Donna – Você já destacou que um dos motivos de seu sucesso no cinema é dar voz a personagens com quem as mulheres podem se identificar de fato.
Ingrid – Eu sou assim, né. Sempre fui alguém que tomou café na padaria e gostava de ouvir o que a mulher do lado falava – e a única coisa ruim de ser famosa é não poder fazer mais isto. Não sei qual das minhas diretoras me disse: “Você é a menina da porta ao lado”, e eu amei. Tanto que criei um programa como o Mulheres Possíveis (apresentado no GNT), que colocava as atrizes para fazer feira. Um dia, depois de uma apresentação da peça Cócegas (sucesso ao lado de Heloísa Périssé, que ficou 11 anos em cartaz), uma mulher me disse: “Sabe por que você e a Lolô (Heloísa) fazem sucesso? Porque vocês são mulheres possíveis, reais”. É essa a mulher que eu sou: quero saber o que você tem a dizer, tenho curiosidade de saber quem é você, tenho curiosidade sobre o ser humano. E tenho uma família de mulheres. Na minha família não tem homem: sou filha de uma mãe muito forte, tenho uma tia muito forte, minha avó é viva até hoje, tenho duas irmãs, cada uma delas tem duas filhas, eu tenho uma filha. Então, esse mundo feminino é o mundo no qual cresci, família árabe, de mulheres fortes. Sei muito do mundo feminino e desde nova gosto de ouvir as pessoas, da minha babá, da minha empregada, da mulher do lado. Tenho interesse pelas mulheres, de saber o que pensam.

Donna – E isso já vem desde sua primeira peça, Confissões de Adolescente, não é?
Ingrid – Sim, minha primeira peça, que fez o maior sucesso, aos 17 anos, tinha uma história real minha. Eu tinha fumado meu primeiro cigarro de maconha e saí com a toalha na cabeça na rua. Imagina, nem meus pais sabiam. Contei para o (diretor) Domingos de Oliveira, e ele colocou na peça. E até hoje as pessoas lembram disso. A primeira coisa errada que aconteceu na minha vida, quando falei dela, virou um sucesso. Isso abriu um diálogo nas famílias, inclusive entre minha mãe e eu. Ela me chamou: “Você fumou maconha, minha filha?”. A partir daí fui nesse caminho, que é o caminho real. Cócegas foi isso, assim como a Leandra Borges, uma personagem que debochava da beleza e com a qual as pessoas se identificavam muito. O filme De Pernas pro Ar sou eu: aquela mulher que é workaholic e, ao mesmo tempo, quer ter família. Uma vez, a diretora Mariza Leão, falou: “Se eu tivesse colocado no seu lugar uma atriz que tivesse apelo sexual, talvez não tivesse feito tanto sucesso”.

Antônio Pacheco / Banco de Dados

Ingrid no espetáculo “Confissões de Adolescente” | Antônio Pacheco / Banco de Dados

Donna – Como você percebe essa identificação com o público nas ruas?
Ingrid – É muito legal como sou abordada na rua: elas conversam comigo como com uma amiga. Meu marido nunca sabe se é uma amiga minha da escola ou uma fã (risos). Não é algo que fui pensando, é uma coisa real minha. E peguei um pouco dessa causa feminista para mim: sempre neguei estereótipos de que a comediante tem que ser feia, não pode ser gostosa. E temos de pegar essa causa no cinema. Se você for parar para pensar, ainda sou a única mulher. O cinema é ainda masculino: o Leandro Hassum, o Fábio Porchat, o Bruno Mazzeo, o (Marcelo) Adnet. Lá nos EUA, tem a Tina Fey, a Amy Schumer, que está fazendo o maior sucesso agora e fala de sexo de maneira completamente aberta. Se a gente fala isso aqui no Brasil, é chamada de piranha, gente. Lá elas são mais equiparadas aos homens. Agora, estão vindo a Tatá (Werneck) e a Samantha Schmütz, todo mundo com filme, mas estou há cinco anos, só eu, falando de mulher.

Donna – Do que você gostaria de poder falar?
Ingrid – Sabe aquele humor de mesa de bar, que o Mazzeo faz no (filme) E Aí, Comeu?, em que os homens falam tudo o que eles pensam? Nunca consegui fazer essa mesa de bar em nenhum filme meu. Sempre acham que a mulher que tem filho, família, não pode sentar e falar da vida sexual. Não pode falar realmente do que a gente fala. E a gente fala tudo. Muito mais do que os homens: eles não falam metade dos detalhes que a gente fala. Por que eles podem falar e a gente não? Mas entendo os distribuidores, produtores e diretores, é um país machista: a mulher quando trai é piranha; o cara quando trai é o fodão que pulou a cerca. A gente ainda tem que ir com calma.

Donna – Mas 2015 foi um ano de avanço para as mulheres no Brasil.
Ingrid – Ah, eu acho. A gente deu um grande salto com a campanha do (meu primeiro) assédio. As mulheres realmente se colocando: quando uma teve coragem, todas as outras tiveram também. E acho importante que isso aconteceu na internet e não em programa sensacionalista. Temos que continuar nesse movimento feminista, de falar mesmo as coisas que nos acontecem, e que seja um movimento natural.

Donna – Você já afirmou ter recusado papéis para não reforçar estereótipos.
Ingrid – Já neguei muitos papéis. Quando comecei, minha escola foi o Chico Anysio – minha geração, eu, Lolô, Mônica Martelli, Alexandra Richter. Na época, no humor, ou você era a gostosa, ou você era a Zezé Macedo, a feia. Então, neguei muito papel da feia, da empregada, da secretária. Por isso, fiz a personagem Leandra Borges (uma top model inspirada na Gisele Bündchen) na época: por que a gente não pode ser também a modelo? E agora também, né? Por que a gente sempre tem que ser a piranha, ou a gostosa ou a gatinha mocinha fofinha? Não existe mais a mocinha, ninguém é mocinha na vida.

Thiago Prado Neri, TV Globo

Ingrid como  a super top model Leandra Borges | Thiago Prado Neri, TV Globo

Donna – Você concorda que, no Brasil, mulheres que vêm da comédia estão colaborando para trazer mais gente como a gente para a TV e o cinema?
Ingrid – A Tatá é muito minha amiga. Quando ela me falou que iria fazer uma propaganda da L’Oréal, de cabelo, falei: “Isso é uma mudança”. Até muito pouco tempo atrás, quem fazia essas propagandas eram só as mulheres muito bonitas. Essa geração que está chegando, a Tatá, a Dani Calabresa, é uma geração que fala o que pensa, que veio da internet, com um humor mais masculino – acho que o meu é mais feminino. Elas são superimportantes para que o humor também vire uma coisa igualitária, de poder dizer o que pensa. E também pode ser mocinha da novela, sim. O humor ajuda muito a fazer com que o mundo fique menos machista. E quero continuar ajudando, falando da mulher da minha idade.

Donna – A peça que você apresentou até o ano passado, Razões para Ser Bonita, fez parte dessa busca por temas que façam a diferença?
Ingrid – Foi uma peça milimetricamente escolhida. Depois de Cócegas, queria fazer uma peça com um humor mais ácido, falar da crueldade do padrão de beleza. Ao mesmo tempo, era uma peça popular: fiquei três anos em cartaz e parei com teatro lotado, porque quis parar, porque não quero mais fazer teatro, cinema e TV tudo junto. E foi uma peça muito bem-sucedida porque tocamos em temas profundos a partir de coisas simples. No início, a gente fazia um bate-papo depois da peça, e vinha muita gente, cirurgião-plástico, psiquiatra e adolescentes com as mães, que falavam da importância de tocar nesse assunto. Muita mãe vinha falar comigo, dizendo “Obrigada, minha filha saiu pensando daqui”. E casais: “Eu me vi ali”, “Vi minha mulher aí”. Esses bate-papos acabaram virando uma discussão muito profunda sobre o tamanho que esse assunto tomou no mundo.

Nana Moraes, Divulgação

Ingrid Guimarães e elenco de “Razões para Ser Bonita” | Foto: Nana Moraes, Divulgação

A voz da filha de Ingrid, Clara, seis anos, interrompe a entrevista:

Clara – Você me ama?

Ingrid – Eu amo você muuuito.

Clara – Você me ama mesmo?

Ingrid – Muito, minha filha (risos). (Voltando à entrevista) E essa pergunta profunda agora (risos)?

Interrompe novamente para atender a filha e retorna 40 segundos depois.

Donna – E que espaço a preocupação com a beleza ocupa na sua vida?
Ingrid – Ah, ocupa uma parte da minha vida. Sou realmente vaidosa, me cuido, cuido da pele, do cabelo. Mas não tenho tempo de perder tempo com isso. Tenho associado muito beleza com saúde: quero viver mais, ver meus netos. Mudei muito minha alimentação depois que fui a uma nutricionista e comecei a pesquisar sobre comida, inclusive como as comidas estão associadas a doenças. Sou uma pessoa que se cuida para envelhecer bem. E sou uma pessoa vaidosa mas que cuida para que isso não ocupe um lugar maior do que tem.

Donna – Você viveu parte da adolescência no palco, discutindo temas da adolescência. Como era essa questão da beleza para você?
Ingrid – Eu era uma adolescente esquisita. Na época, fiz cirurgia de prognatismo (projeção do queixo com a arcada de baixo à frente da de cima). Era uma coisa complicada para mim, tinha que usar um aparelho, era muito magra, fora dos padrões. E vivi minha adolescência falando dela.

Donna – Sua filha chegará à adolescência em alguns anos. Você imagina como será o cenário que ela terá de encarar em comparação a quando você era adolescente?
Ingrid – Vai ser tudo bem pior (risos). Na minha adolescência, as redes sociais não eram fortes, as referências eram nós mesmas. Hoje, é a menina que está do outro lado do país. A rede social trouxe uma coisa globalizada, as meninas são muito mais antenadas do que a gente era, o que é bem legal; mas trouxe também o acesso a coisas que não precisava, que podem poluir a mente delas. Vai ser tudo muito mais difícil e muito mais fácil, ela vai ter acesso a coisas no mundo que eu não tinha. Mas, se nem a gente sabe lidar com as redes, imagina elas.

Donna – Como você lida com as redes sociais?
Ingrid – Sou megaligada, gosto de saber o que o público pensa. Não dá para ser uma artista popular e ignorar as redes sociais. Gosto de saber o que está acontecendo, de interagir, de saber o que as pessoas acham do programa. Mas, às vezes, sou imatura, brigo, respondo. Ainda me incomodo muito com essa covardia que a rede propõe: vou te agredir pessoalmente porque você não sabe onde estou, quem sou, vou me esconder atrás do pseudônimo. Tudo bem, não conheço aquela pessoa, mas ela está invadindo a tua vida para te detonar. Isso me incomoda, mas é bobagem me incomodar, porque faz parte. Mas há uma corja na internet: pessoas que jogam suas frustrações em pessoas que são famosas. Tem uma quantidade de blogs e sites que não entendem nada de TV e de arte, mas fazem críticas a você, pessoa física e jurídica. E gente que lê como se (quem escreve) fosse uma pessoa entendedora – então, todo mundo virou crítico de TV. Mas (a incomodação) passa um dia depois. Às vezes, eu mesma digo: “Não estou acreditando que dei bola para esse ser humano. Eu, velha de guerra. Meu Deus, que bobagem que eu fiz, que ridículo”. E, quando faço merda, já disse: “Ah, gente, tudo bem, sou humana, como qualquer pessoa”. Faz parte da minha filosofia de pessoas reais: por que a pessoa famosa não pode cometer deslizes? Eu, hein, tem que ser perfeita por quê?

Instagram, Reprodução

Ingrid registrou no Instagram um momento com a amiga Heloísa Périssé | Foto: Instagram, Reprodução

Donna – As pessoas cansaram da perfeição?
Ingrid – Cansaram, sim. A era Lux Luxo acabou (risos). A verdade é que a “era banheira de espuma” acabou, ninguém mais está a fim de se imaginar ali.

Donna – Onde podemos nos imaginar agora?
Ingrid – A gente está vivendo uma coisa tão grave no mundo, de violência, incompreensão, falta de respeito, roubalheira… a gente se sente desrespeitado no próprio país. Então, as pessoas querem, de uma certa maneira, primeiro rir de si mesmas, encontrar um lugar de conforto, diversão e identificação, onde se una àquela pessoa e pense: “Que bom que todo mundo sofre junto comigo”. A gente está em um momento de tentar se salvar dessa loucura toda. O humor vem para dar um relaxamento: você assistir a uma coisa com que se emociona e se identifica. Não existe ninguém no pedestal.

 

 

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