Entrevista! O que torna o médico J.J. Camargo tão especial

Depois de dias ininterruptos de forte chuva, uma garoa fina cai do céu acinzentado na manhã de uma terça-feira úmida na Capital. Pelas ruas do complexo hospitalar da Santa Casa de Misericórdia, vem caminhando de cabeça baixa o médico, escritor e colunista do caderno Vida de Zero Hora José de Jesus Peixoto Camargo. A pressa dele é muito mais pelo horário marcado para esta entrevista do que pelo receio de se molhar. Chegamos juntos à entrada do Phyto Bistrô, localizado no Centro Cultural-Histórico. Passam alguns minutos das 11h da manhã. J.J. Camargo desculpa-se pelos 10 minutos a mais. Estava vindo para cá e o paciente começou a chorar, conta. Não tinha como simplesmente virar as costas e ir embora. O pior paciente é aquele que chora. Neste caso, especificamente, era um choro de culpa, sabe? Um choro que não me permite ajudar muito, afinal, a culpa é só dele.

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O depoimento feito informalmente, ainda em pé, em frente à entrada da cafeteria, ilustra com precisão cirúrgica o ser humano que existe no médico Camargo – afeto raro de ser encontrado e expressado por profissionais da medicina e que justifica o carinho e a admiração que conquista junto a pacientes e leitores. De onde vem essa característica? A resposta é a mais singela e natural possível: “Eu gosto de gente”. Nascido em Vacaria em 6 de agosto de 1946 (“Primeiro aniversário de Hiroshima”, ele ressalta), em uma família de três irmãos, J.J. Camargo vive casado há 44 anos com a mesma mulher, Marília. É pai de Fábio, 43, ruralista e criolista, e de Camilla, 28, formanda em medicina. A caçula herdou o mesmo afeto do pai pelos doentes. “Não pode existir satisfação maior”, ele comenta.

A trajetória como um dos grandes expoentes da medicina mundial teve início em 1970. Formado pela UFRGS, especializou-se em cirurgia torácica e cursou pós-graduação na renomadíssima Clínica Mayo, em Minnesota, Estados Unidos. Foi pioneiro no transplante de pulmão na América Latina e realizou o primeiro transplante duplo de pulmão no Brasil. Além das aulas na Universidade Federal de Ciências da Saúde de Porto Alegre, chefia a equipe que mais transplanta pulmões no país e dá expediente como diretor da Cirurgia Torácica do Pavilhão Pereira Filho e do Centro de Transplantes da Santa Casa de Misericórdia. Contabiliza 20 cirurgias por semana entre procedimentos de médio e grande porte e três transplantes por mês.

(Fernando Gomes/Agência RBS)

(Fernando Gomes/Agência RBS)

Para se ter ideia da dimensão do seu trabalho, a experiência de quase 500 transplantes realizados desde a cirurgia pioneira na América Latina representa 60% de toda a experiência brasileira em transplantes de pulmão. Ele comenta esses feitos magníficos sem qualquer sinal de ostentação, traço típico de sua personalidade. Autor de centenas de publicações científicas, assina também títulos que são sucesso entre leitores pela exímia habilidade com as palavras e pela capacidade de se colocar no lugar do outro. No próximo dia 13 de outubro, Do que Você Precisa Para Ser Feliz? (L&PM, 240 páginas, R$ 34,90), mais uma obra reunindo as festejadas colunas publicadas em Zero Hora, ganhará vida.

Donna – Empatia é a capacidade de se colocar no lugar do outro, virtude não muito comum de se encontrar no ser humano hoje em dia. O senhor esbanja empatia em seus textos, com seus pacientes e na sua vida. De onde vem essa característica?

J.J Camargo – Eu sempre gostei de gente. A capacidade de conversar e de se expor é o que alimenta o médico. Ele tem que se expor ao afeto. A oportunidade de conversar com pessoas automaticamente realimenta a empatia que o médico desperta, e é gratificante ser usado como referência de afeto e apoiar o paciente em um momento crucial da vida dele. Este é o grande desafio de ser médico: conviver com pessoas autenticadas por sofrimento.

Donna – É uma relação desprovida de qualquer vaidade.

Camargo – Você pode fazer pose para impressionar o jornalista, o advogado, o arquiteto. Mas, se você está com medo de morrer, não tem ânimo nem energia para ser diferente do que é. Como médico, tenho a oportunidade de conhecer profundamente uma pessoa com apenas poucos dias de convívio. Costumo dizer que, se um indivíduo exerce medicina durante 10 anos e ainda não se tornou um especialista em gente, ele está sub-otimizando uma matéria-prima preciosíssima, que é o indivíduo autêntico. Quando a gente tem um pouco mais de sensibilidade, pode até se divertir com isso.

Donna – Como assim?

Camargo – Junto com o paciente, existe sua família – e esta família jamais é diferente do paciente. Trata-se de uma imposição genética. Nós somos a nossa família. Quando alguém na família se parece muito diferente do paciente, é óbvio que aquela pessoa está interpretando, fazendo pose, não está sendo autêntica. Portanto, não seria jamais a pessoa que eu elegeria como a porta-voz do que está acontecendo pelo simples fato de que ela não é verdadeira e está preocupada apenas em me impressionar – e toda pessoa que quer me impressionar tem o meu desprezo.

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Donna – É cada vez menos comum encontrar médicos com essa dedicação e essa formação de enxergar o paciente como um todo. Falta cuidado com a pessoa e não apenas com a doença. O senhor concorda? Por que isso acontece?

Camargo – Tive uma experiência com um paciente que era professor de filosofia. Antes de desabar em um choro que não conseguia controlar, ele me entregou os exames que trazia em uma sacola e disse: “Doutor, acho que o caranguejo me pegou”. Era um sofrimento tão agudo em um homem diferenciado, inteligente e erudito que a primeira coisa que fiz foi levantar-me da cadeira, contornar a mesa e sentar-me ao lado dele. Analisamos os exames e, despretensiosamente, eu disse: “É por aqui que nós vamos começar a tratá-lo”. Então, ele estampou um sorriso no rosto molhado de lágrimas e surpreendeu-se: “Mas então eu tenho tratamento?”. Este é o grande pavor de um paciente: a ideia de que a doença grave significa solidão e abandono. Começamos o tratamento. A doença dele era terrivelmente avançada, não havia muito o que fazer – e acabamos ficando muito amigos, a ponto de não falar mais de doença. Falávamos de José Saramago, Philip Roth, Elis Regina, Paulinho da Viola. Entramos em um território neutro e agradável a ambos. Quando o assunto real não agradava a ninguém, mudamos de assunto. Um dia, próximo da sua morte, ele me disse algo que achei extremamente revelador: “Olha, eu fui muito bem tratado, estamos chegando ao fim, foi uma parceria que valeu a pena, mas eu quero dizer que a melhor coisa que recebi durante todo o tratamento foi aquele dia em que você contornou a mesa para se sentar ao meu lado”. Foi um gesto simples! O que havia de tão extraordinário? Nada. Mas é justamente nesse tipo de gesto que reside aquilo que o paciente mais espera de um médico: a parceria. A certeza de que ele não estará e nem ficará sozinho até o fim.

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Donna – Há uma visível perda de parceria e solidariedade entre médicos e pacientes. A que o senhor atribui esse fato?

Camargo – Quando comecei a escrever no jornal, percebi que essa relação médico-paciente era uma matéria-prima sublime. Ninguém fala sobre isso. As escolas médicas ensinam apenas a fazer diagnóstico e a tratar. Dou 22 aulas para cada turma da graduação. O último slide de cada aula é uma situação hipotética de relação médico-paciente em que trabalho com a simulação. Eu sou o paciente; eles, os médicos. Recentemente, durante uma aula, disse: “Vocês precisam me contar que meu pai morreu. Pensem como farão isso”. Eles entraram em pânico. Não têm a menor noção de por onde começar.

Donna – E o que acontece?

Camargo – Eu acabo contando como é que lido nesses casos, mas sempre preservando a individualidade de cada aluno. Com o tempo e a experiência, eles acabarão aprendendo a desenvolver maneiras próprias, mas procuro mostrar qual é a linha mestra. Tem alguns truques que a gente usa para dar notícias para pacientes que tento fazer com que os estudantes aprendam e entendam enquanto estão na faculdade. Eles ficam extremamente agradecidos e ávidos por esse conhecimento. A julgar pelo número de convites que tenho recebido para falar em escolas médicas, concluo que esse tema estava completamente desguarnecido. Ninguém fala disso.

Donna – Qual é esta sua linha mestra? Como o senhor informa à família que o paciente morreu?

Camargo – Na maioria das vezes em que comuniquei morte a famílias, não cheguei a precisar falar. Bastou olharem para mim para dizer: “Perdemos, não é, doutor?”. Se você está comprometido afetivamente com a família, eles percebem. Tem que existir uma proximidade entre a família e o médico para que o quadro evolutivo do paciente vá sendo comunicado ao longo do tratamento. Você não pode simplesmente dizer que está indo tudo bem e, de repente, a pessoa morreu. Não existe isso. Salvo raríssimas exceções, na maioria das vezes não é assim – e vejo na ausência desse tipo de comunicação uma falha médica frequente.

Donna – O senhor refere-se à omissão da informação ao longo do tratamento?

Camargo – Exatamente. Por pura falta de coragem dos médicos! Notícia boa todo mundo gosta de dar. Notícia ruim é que é o problema. A gente mede isso pelos amigos. Os amigos de verdade ficam ao teu lado em silêncio no sofrimento. Já os companheiros e colegas soltam foguete quando está tudo bem. Você não pode achar que é tudo a mesma coisa, porque não é. Uso esse critério no Facebook quando recebo solicitação de amizade. Se a pessoa tem 2 mil amigos, não dá! Não vai ter tempo para ser meu amigo e cuidar de mim! (risos).

Donna – Qual é o sentimento mais sublime que um médico pode experimentar na vida?

Camargo – Gratidão. É o sentimento mais bonito que existe. Por trás da gratidão, há toda uma construção de solidariedade e parceria. Sempre me considerei um bom médico na relação pessoal com os pacientes, mas quando comecei a trabalhar com transplantes, e lá se vão 26 anos, percebi que era possível aprimorar essa característica ainda mais. Então, quando estava absolutamente convencido de que era o máximo nessa relacão médico-paciente, comecei a trabalhar com transplantes de doadores vivos. O tamanho da densidade emocional é absurdo.

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Donna – O senhor faz terapia?

Camargo – Fiz durante uma época muito sofrida da minha vida. Tinha 29 anos quando meu chefe, Ivan Faria Correa, morreu, aos 53, e me tornei chefe da cirurgia. Então, comecei a passar por uma situação pessoal muito complicada, que era me preocupar demais com o que as pessoas pensavam do meu trabalho. Foi uma época de sofrimento físico horrível. Tinha pesadelos com hemorragias, necroses e decidi procurar ajuda. Meu terapeuta era um homem íntegro, honesto e inteligente o suficiente para perceber o momento em que você se torna excessivamente dócil e submisso à opinião dos outros. É justamente neste ponto que você começa a diminuir o seu potencial – e aquilo estava acontecendo comigo. Quando você começa a se interessar muito pelo que os outros acham em detrimento do que você acha que está fazendo, você começa a recuar. Um dia, ele disse: “Camargo, você é um sujeito com temperamento agressivo, impulsivo e realizador. Será um grande cara e está pronto para seguir teu caminho”. Foi quando eu tive alta.

Donna – Tem algum episódio que tenha particularmente mexido com o senhor enquanto médico e ser humano?

Camargo – A relação médico-paciente sempre tem espaço para a idolatria. Descobri, um belo dia, que o fator que mais aproxima um médico de um paciente é o paciente ser tratado como um igual, é o médico confessar sua limitação e o seu medo. Vivi uma situação dessas de uma intensidade terrível. Havia internado um menino de 11 anos que tinha caído de uma construção e havia chegado em coma ao hospital. Foi operado dos dois lados do tórax, fez outras cirurgias e nunca acordou. Dez dias depois, foi considerado em morte encefálica. Aquilo para mim foi o horror. Tinha me envolvido demais com o drama daquela mãe que não comia nem dormia perto do filho. O rosto daquela mãe, aliás, me atormentou durante muitas madrugadas depois que tudo terminou. Quando saí da UTI, com diagnóstico de morte encefálica, a secretária me encontrou no corredor do hospital e comunicou que havia nove pacientes a minha espera. Como não tinha condições de atender ninguém, pedi a ela que passasse os nove ao mesmo tempo para a minha sala. Eles entraram, obviamente, com ar de surpresa, imaginando uma consulta coletiva – e eu relatei o que tinha acabado de acontecer: havia perdido uma criança, estava muito mal e queria saber deles se estavam com alguma situação de urgência para que eu providenciasse outro médico para atendê-los. Caso contrário, gostaria muito que voltassem no dia seguinte, porque, naquele momento, eu precisava muito sair do hospital para chorar. Houve uma comoção geral naquela sala. No dia seguinte, eles não só voltaram todos como estavam visivelmente fiscalizando para ver se algum insensível tinha faltado (risos). Foi algo muito bonito – e mais: durante anos, vários desses nove pacientes fizeram consultas desnecessárias comigo para relembrar esse episódio, pois havia marcado tanto a vida deles quanto a minha. Se você parar para pensar, o que aconteceu de tão espetacular? Nada. Apenas um médico confessando, como qualquer pessoa, que tem momentos na vida em que não há nada melhor para fazer do que sentar e chorar.

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Donna – Por que é tão difícil para os médicos admitirem sentimentos, erros e falhas?

Camargo – Dizem que a metade dos cirurgiões se acha Deus e outra metade tem certeza, né? (risos). Assumir o erro tem um preço alto, mas, quando você é capaz de assumir que errou, você está um patamar acima do resto. Errar é inerente à condição humana. O que salva o médico de processos é trabalhar com a verdade, porque a verdade sempre aparece – e, se ela for vista pela família como algo escamoteado e escondido, você nunca mais conserta a relação. É a mesmíssima coisa que ocorre quando você subestima um sofrimento. Se parecer aos olhos de alguém que você não valorizou o que ele considera o máximo de sofrimento possível, essa relação não tem resgate. Você jamais esquece o rosto de quem te desconsiderou no sofrimento. É uma marca definitiva.

Donna – O médico de antigamente era aquela figura que frequentava a casa da família. Aliás, era praticamente um integrante da família. Hoje, os médicos mais jovens andam prescrevendo medicamentos pelo WhatsApp. Como senhor enxerga essa realidade?

Camargo – Se nós revisarmos o que aconteceu em medicina nos últimos anos, não resta nenhuma dúvida de que o médico de hoje sabe muito mais do que o médico de 30, 40 anos atrás. Como é que você explica, então, que pacientes idosos lembrem com nostalgia os médicos de antigamente? Aquele médico que curava pela presença, que consolava pelas palavras… O médico antigo era melhor ouvinte? Melhor consolador? Talvez. Era, sobretudo, o parceiro da família, o conselheiro – e sabia muito menos, simplesmente porque não se sabia. Houve um momento da história em que perdemos o compasso, erramos em algum lugar. A medicina avançou em 50 anos mais do que em toda a história da humanidade. Este é o problema: nunca se aprendeu tanto em tão pouco tempo. Tem que haver uma adequação entre o que você sabe e como é que você vende o que você sabe. Isso é um diferencial de qualificação. É nesta direção que invisto. Quero que os médicos percebam que, entre dois profissionais igualmente qualificados, vai prevalecer o mais carinhoso.

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Donna – Nesta questão do carinho, aproveito para enfocar o programa Mais Médicos. O elogio dos pacientes que se tratam com os médicos cubanos desse programa não é o conhecimento, mas exclusivamente a capacidade de serem bons ouvintes.

Camargo – Acompanhei de perto a repercussão das reportagens que saíram sobre o atendimento de alguns desses médicos aqui no Estado. Na saída de uma dessas consultas, a repórter chegou para o paciente e perguntou qual tinha sido a avaliação dele. Ele respondeu: “Eu gostei muito. Quase não entendi o que o médico falou, mas ele olhou para mim três vezes”. Aquilo me deu um mal-estar… O fato de um médico olhar três vezes para um paciente durante uma consulta virar diferencial de qualidade nos leva a pensar seriamente sobre o serviço que estamos oferecendo. A população pode até festejar o fato de os profissionais do Mais Médicos serem bons ouvintes, carinhosos e tal, mas é um desrespeito total colocar essas pessoas para atender a população. Eles não têm curso de medicina, são técnicos em saúde, não vão curar doença alguma. Quando a coisa realmente apertar, são os brasileiros que vão te salvar.

Donna – Como o senhor avalia a saúde no Brasil? Vai chegar um dia em que todos nós teremos acesso a boa medicina e bons tratamentos?

Camargo – A saúde no Brasil é uma das coisas mais curiosas. Temos ilhas de excelência comparáveis aos melhores hospitais do mundo em alguma áreas e temos uma saúde pública deplorável, um sistema que desvaloriza médicos, que estabelece regras burocráticas, que leva o doente a grandes chances de morrer antes de chegar o socorro. O nosso serviço público está contaminado pela burocracia. A burocracia é a maior doença nacional. Tudo é dificultado por burocratas que ignoram que quem faz é mais importante do que quem fiscaliza. A necessidade do burocrata de se afirmar como uma peça indispensável ao sistema é responsável em grande parte pelos gastos, desperdícios e desmandos na saúde. Passei a nutrir um certo desencanto em relação ao futuro do Brasil como país depois que comecei a estudar a história brasileira recente. As queixas se repetem. Mudam apenas os nomes, mas os personagens são os mesmos.

Donna – Acredito que todas as pessoas gostariam de ter, se não o doutor J.J Camargo, um doutor J.J Camargo em sua vida. Digamos que, num passe de mágica, o Brasil se tornasse um país com saúde pública de primeiro mundo. Queria saber sua opinião em relação à formação dos médicos hoje em dia. Acompanharia a excelência?

Camargo – A formação médica está passando por um processo de degradação gradual e assustador, fomentada por esta política de formar profissionais em centros que não têm autonomia em medicina. Qual é a justificativa de ter uma escola de medicina que encaminha para outra cidade os seus casos complicados? Há escolas em cidades que não contam com hospital universitário! Onde essas pessoas vão aprender? Se está ruim com o modelo atual, só vai piorar. Não vejo saída enquanto não surgir alguém com coragem suficiente para dizer que não adianta formar técnicos em saúde à la Cuba. Nós temos é que qualificar e oferecer condições hospitalares aos formados. Por que o médico brasileiro não quer ir trabalhar em qualquer biboca? Porque não há nada mais massacrante para um médico consciente do que a percepção da morte evitável. Quem é que você consegue mandar para esses lugares sem infraestrutura para trabalhar? Só o cara que tem compromisso financeiro com o governo de Cuba para restituir o valor que o governo investiu em sua formação.

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Donna – O senhor pratica algum tipo de atividade física?

Camargo – Caminho bastante na esteira e subo escada toda hora. Não uso elevador. Estou fazendo uma dieta para perder uns quilinhos, pois estava com o colesterol alto. Mas, no geral, estou muito bem. Sou um trabalhador, tenho uma atividade física sempre intensa, sou capaz de operar 10 horas por dia.

Donna – Não cansa nunca?

Camargo – Se achar que estou operando bem, opero durante 10 horas e vou para casa sem sinal de cansaço. Mas, se fizer uma escolha não muito boa, se o resultado não ficou exatamente como queria, opero uma hora e meia e saio da sala de cirurgia morto de cansado. A endorfina faz isso com a gente – e transplante é uma coisa provocativa, porque você não tem hora.

Donna – O senhor dorme de roupa…

Camargo – Acontece de estar em casa assistindo ao Programa do Jô, ou já dormindo, e o telefone tocar com o aviso do surgimento de um doador. A primeira reação é de puro cansaço, mas em 10 minutos a adrenalina coloca tudo no lugar e sinto uma energia muito forte. Você não vê médico que trabalha com transplante bocejar de madrugada.

Donna – Qual é a sua crença religiosa? O senhor acredita em que Deus?

Camargo – Tenho a ideia de que generosidade podia ser uma cara de Deus, mas não sou religioso. Nunca fui.

Donna – Existem estudos dando conta de que pacientes que têm essa ligação com algo maior se recuperam ou têm um prognóstico melhor do que aqueles que são descrentes. No seu dia a dia, na sua prática médica, o senhor sente isso? O senhor acha que os pacientes que têm alguma fé são aqueles que tendem a ter dentro do seu quadro um prognóstico melhor?

Camargo – Entre as pessoas moribundas, ter religião faz diferença. Existem trabalhos mostrando que as pessoas religiosas adoecem menos. Na minha opinião, independentemente de religião, qualquer coisa que diminua a ansiedade faz bem para a saúde.

Donna – As mulheres se preocupam e cuidam mais da saúde?

Camargo – As mulheres são mais doentinhas (risos). Mas elas morrem menos. Na média, as mulheres são menos estressadas porque têm menos compromissos – e isso contribui para a longevidade. Há uma ONG filiada à John Hopkins University que monitora o centenário do mundo. Atualmente, há 330 mil pessoas com mais de cem anos – 80% delas são mulheres. Há uma outra estatística do World Watch Institute, de Boston, que monitora comportamento humano e desenvolvimento social. Mostra que 90% das contas do mundo são pagas por homens. Não está tudo explicado? (risos).

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Donna – O senhor tem muitos casos em que seus pacientes chegam pelas mãos das companheiras?

Camargo – A maioria dos pacientes consulta por alguma ameaça objetiva, porque sentiu algum sintoma. A noção da prevenção ainda é muito precária no Brasil. Onze por cento dos pacientes que se curam após uma cirurgia de câncer de pulmão terão o segundo tumor no pulmão em 10 anos. Quase 90% das vezes, o segundo tumor é menor do que o primeiro. O que é isso? É o efeito do check up: a tentativa de sempre fazer o diagnóstico precoce. As pessoas que apresentam esse segundo tumor têm muito mais probabilidade de cura do que tinham no primeiro porque, desde então, acostumaram-se a fazer o check up – uma prova indiscutível da necessidade da prevenção.

Donna – Além de médico, o senhor é um grande escritor, um contador de histórias com altíssima sensibilidade em lidar com as palavras. De onde vem esse talento?

Camargo – Sempre escrevi, e o principal mote era a indignação. Tenho um livro que se chama Não Pensem por Mim, que tem como tônica o protesto. Sempre fui deslumbrado por Gabriel García Márquez. Uma vez, vi uma entrevista em que o repórter diz para ele: “Vamos falar de literatura”. E ele responde: “Melhor não… Não entendo nada disso. Só sei contar histórias”. Eu sempre gostei da história contada como instrumento de opinião.

Donna – O que o senhor gosta de ler além de García Márquez?

Camargo – Sou um devorador de livros. Não sei dormir sem ler. Sou apaixonado por Philip Roth e José Saramago. Li tudo o que você puder imaginar de Saramago. Também sou apaixonado por Julio Cortázar. O realismo fantástico dele é indescritível. Acabei de ler recentemente a trilogia O Século, de Ken Follet. É a moderna forma de contar história: uma saga familiar ficcional tendo como fundo um evento real. Já dei de presente para muitos amigos.

Donna – O interesse pela leitura veio de casa?

Camargo – Meu avô era fazendeiro, e lembro o encantamento dele com a seleção do catálogo da Livraria do Globo. Quando chegava a caixa com os livros na fazenda, era um acontecimento. Ele cheirava cada página, achava que a pessoa que não se emocionasse com o cheiro do livro novo era irrecuperável. Li Eça de Queiroz na puberdade por conta dele.

Donna – Há uma frase de Guimarães Rosa de que o senhor gosta muito que diz o seguinte: “A vida é assim. Ela aperta, depois afrouxa. Ela aquece, depois esfria. Ela sossega, depois desenquieta. O que ela quer da gente é coragem”. A sua carreira ainda requer coragem? Para fazer exatamente o quê?

Camargo – A coragem é a virtude mais indispensável para ser bem-sucedido. Se você não tiver coragem, fica na mesmice. Realizei o primeiro transplante de pulmão da América Latina e, naquele momento, tive a lucidez de saber que nunca mais seria o mesmo. A visibilidade de um transplante muda a tua vida – para o bem ou para o mal. Conheci muita gente que não teve sucesso e viu a carreira despencar em queda livre. As pessoas que não realizam não toleram que outros realizem. Esta é uma regra da humanidade. Não tem nada que irrite mais o medíocre do que o outro colocar a cabeça de fora. É a história do caranguejo em uma bacia. Se todos ficarem submersos, está tudo certo. Mas se um caranguejo quiser subir, os outros puxam ele para baixo. Quando você se mete com transplante, que tem toda essa visibilidade, que mexe com o emocional, que sacode a mídia, você está definitivamente correndo risco. Naquele momento, percebi que não tinha tanta coragem quanto precisaria. Hoje, vejo que, se tive algum mérito, foi administrar essa fraqueza, porque fiz uma coisa inteligente: criei uma conjuntura que, quando aparecesse um doador, seria impossível recuar. Essa é a diferença sutil entre coragem e desespero. Como a maioria das pessoas não tem a sutileza de perceber a diferença, mesmo que você tenha feito alguma coisa no puro desespero, porque não podia recuar, as pessoas acabam interpretando como coragem. E que mal faz, né? (risos) Se te engrandecerem por isso… (risos)

Donna – O senhor sente medo?

Camargo – Sou muito medroso. Sofrimento é uma coisa que me assusta. A ideia de morrer sem ver os filhos prontos e absolutamente autônomos me dá muito medo. Mas aprendi a administrar esse medo. Quando você tem experiência e aprende que resolve as coisas, quando você entende que a prática auxilia na sua capacidade de resolução, você fica menos suscetível ao medo. Um cirurgião tem três fases. Na fase inicial, em que você não tem treinamento, você morre de medo. Depois, tem uma fase em que você opera com naturalidade. Você já fez aquilo tantas e tantas vezes que sabe que não dará errado. E tem uma terceira fase, que é maravilhosa, que é a fase do encantamento, a de fazer a coisa irretocável. Algo comparável a criar uma escultura.

Donna – Como assim?

Camargo – Tem uma escultura no Salão dos Espelhos do Teatro Colón de Buenos Aires que me faz ficar horas parado admirando. Chama-se Os Amantes. O ar de deslumbramento com que a mulher olha para o homem é indescritível. Imagina você conseguir deixar na pedra a expressão máxima desse sentimento! Não é maravilhoso? Sinto algo parecido quando termino uma cirurgia que me deixa orgulhoso do trabalho irretocável e bem-feito.

Donna – O senhor tem 45 anos de formado, 41 dos quais trabalhando com alta complexidade. O que falta fazer antes de se aposentar?

Camargo – Falta deixar o serviço em condições de autonomia depois que resolver parar. Essa é a minha meta. Trabalho muito para qualificar pessoas, e acho que a melhor conquista pessoal que você pode ter é chegar ao fim da vida e ter a certeza de que você pode parar porque o seu legado não vai retroceder. A estrutura está pronta e os profissionais estão maduros. Essa é a maior fonte de orgulho profissional. Existem pessoas que constroem o que constroem para si, sem sequer se preocupar com o futuro. São aqueles que se consideram insubstituíveis. Quem se acha insubstituível não tem respeito pelos outros. É um idiota que já deveria ter sido substituído há muito tempo.

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