Entrevista! Salma Hayek discute cinema, ativismo e moda: “Nós, mulheres, temos de nos apoiar”

Por Mariane Morisawa, especial Toronto

Salma Hayek pergunta se não tem problema ela almoçar durante a conversa com a reportagem de Donna. Claro que não – são raras as vezes em que dá para ver o que uma atriz de Hollywood realmente come. Reclama quando o prato demora. Quando vem, é um filé de peixe de bom tamanho com legumes, mais uma generosa porção de avocado, o abacate pequeno que se come como acompanhamento de pratos salgados em todas as partes do mundo que não o Brasil.

Mais tarde, ela confessa que o avocado e outras fontes de gorduras do bem são seu segredo de beleza. Pequenina e bem mais magra do que costumava ser, mas ainda cheia de curvas, acentuadas pelo vestido justo preto, a mexicana não aparenta seus 50 anos: no rosto, não há sinal de linhas ou manchas. Casada desde 2009 com o milionário François-Henri Pinault, CEO da Kering, a holding que é dona de grifes como Alexander McQueen, Gucci, Balenciaga e Saint Laurent Paris, está sempre usando a última moda – literalmente, já que não pode aparecer com roupas repetidas nem da última estação.

Mãe de Valentina, nove, ela continua fazendo dois ou três projetos por ano. Só em 2015, apareceu em Conto dos contos, do italiano Matteo Garrone, e Setembro em Shiraz, de Wayne Blair, que sai este mês diretamente em DVD no Brasil. No filme, ela interpreta Farnez, uma mulher forte que enfrenta o sistema para descobrir o paradeiro de seu marido (Adrien Brody), um joalheiro judeu que é preso durante a Revolução Islâmica no Irã. Na entrevista à Revista Donna, ela falou de moda, beleza e de seu trabalho com refugiados sírios.

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Quais são os principais motivos que a levam a escolher um papel?
Varia. Em Setembro em Shiraz, a roteirista Hanna Weg é uma grande escritora, faz isso há 20 anos. É uma das roteiristas com o maior número de roteiros na blacklist, a lista dos melhores roteiros do ano que não foram produzidos. Por duas décadas, ela nunca conseguiu que um de seus roteiros virasse filme. Nós, mulheres, temos de nos apoiar. Porque ela é um exemplo do problema em Hollywood, de como as mulheres realmente têm menos oportunidades do que os homens, como diretores, roteiristas, produtores etc. Também gosto da relação da minha personagem com sua empregada, Habibeh. As duas achavam que tinham feito tudo direito na vida, aí vem uma revolução, a realidade muda. Ainda assim, elas se ouvem. A maneira como as mulheres lidam com o conflito é sempre com um nível diferente de empatia, de generosidade e de respeito. Nós lidamos com a vida de maneira diferente, porque temos uma tendência maior de preservar a vida, porque fomos desenhadas para criar vida dentro da gente. Os homens, não. Gosto do filme porque mostra como as mulheres, e não os homens, estão mais bem equipadas a lidar com conflito de uma maneira que podem levar à paz.

Salma e Adrien Brody no filme Setembro em Shiraz (Foto: AFP)

Salma e Adrien Brody no filme Setembro em Shiraz (Foto: AFP)

Ter mais mulheres em posições de poder mudaria as coisas?
O que penso não é importante, o que importam são os fatos. Veja a situação dos países onde as mulheres são desrespeitadas, onde não têm voz, onde não estão incluídas, onde são desrespeitadas em seus direitos humanos e tratadas como menos do que seres humanos. Agora, compare com a situação nos países onde a mulher é incluída e sua opinião tem importância, por exemplo, a Alemanha. Nenhum país é perfeito. Mas normalmente as mulheres vão bem. Poderia ser melhor? Algumas vezes, sim. Mas dê uma olhada.

A atriz com o marido e a filha em um encontro com o Papa (Reprodução Instagram)

A atriz com o marido e a filha em um encontro com o Papa (Reprodução Instagram)

Como ativista, imagino que tenha tido a chance de ver realidades muito diferentes. Como encara a desigualdade?
Claro que não é bom ter tanta diferença. Mas a solução não é ter um grupo pequeno no poder que decide que todo o mundo é igual – exceto eles, claro. O comunismo não deu certo por isso. Precisamos encontrar um sistema em que estejamos motivados a descobrir todo nosso potencial, mas que, ao mesmo tempo, tenha um ecossistema econômico que empodere a classe média. O sucesso não significa quanto dinheiro você tem. O bacana da vida é o que você aprende em sua jornada, não importando qual é. Não significa que todo mundo tem muito ou que todo mundo tem de ter pouco. Mas que todo mundo deveria ter oportunidades iguais, seus direitos humanos respeitados, que as pessoas do poder não deveriam criar um clube pequeno do qual só eles desfrutam, fechando as oportunidades para outros.

De onde veio essa consciência política e social?
Acho que se nasce com ela. Todos nascemos com ela. Está no mesmo departamento da compaixão e da empatia, um desejo de evolução da raça humana, do espírito humano. Ela vem contigo, você a traz para o mundo. Mas pode ser tirada pelo medo, pela dor, pela atitude de olhar para o outro lado, pela luta pela sobrevivência, pelos vícios sociais que criamos e que separam as pessoas em vez de uni-las e as força a tentar sobreviver como indivíduos em vez de avançar como um grupo. Não acho que a consciência vem de algum lugar. Acho que é de onde a gente vem quando chega ao mundo, mas perde ao longo do tempo. Eu mantive a minha, por sorte.

Você é mãe. Como tenta manter isso na sua filha?
Dando o exemplo. Para ela, é normal. Ela me vê fazendo. Você trabalha, toma banho, escova os dentes, assegura-se de estar sendo justo com os outros e que sua vida contribua para um mundo melhor. É parte da vida. Mas também reconheço quando Valentina tem isso dentro dela e não bloqueio. Deixo. Eu cultivo e protejo sua empatia natural. Não tento protegê-la disso _ porque pode ser doloroso.

Sim, às vezes é mais fácil ignorar.
Às vezes, não. Sempre é mais fácil.

Qual a sua principal preocupação hoje em dia?

Ainda faço muitas coisas em beneficio dos direitos das mulheres, mas agora a crise da Síria e dos refugiados sírios é meu foco principal. Comecei a trabalhar nisso pessoalmente quatro anos atrás, no início do conflito. Quando comecei a campanha Chime for Change (em parceria com Beyoncé Knowles), quis que fosse um dos principais focos. Monitoro de perto as pessoas trabalhando em campo e já fui aos campos de refugiados e vi com meus próprios olhos. Trabalho com muitas organizações não governamentais que estão baseadas lá. Dá para ver o que estamos fazendo no site. Mas a maior parte do meu trabalho ninguém vê. Porque, quando você está trabalhando nesse tipo de problema, você fracassa 90% das vezes. Não faço apenas um trabalho de conscientização, mas também de estratégia. Então, a maior parte do trabalho nunca será vista. Só dá para ver os 10% que tiveram algum resultado. Você nunca vê as lágrimas, o tempo empenhado, o desapontamento. Isso não está no noticiário, nos sites.

Deve ser difícil lidar com esse fracasso o tempo todo.
Sim, o tempo todo. Não é só difícil. É exaustivo. Mentalmente devastador. Muitas vezes, penso: “Por que estou fazendo isso?”. Aí digo que não vou fazer mais. Ou pelo menos vou fazer menos. E então você vê um rosto, recebe uma carta ou um telefonema de quem está em campo. E faz tudo de novo.

Esse trabalho ajuda em sua atuação?
Eu já fazia antes. Se fizesse outra coisa da vida, ainda assim seria ativista. Tenho uma grande imaginação e posso criar novas realidades, mas vi muitas coisas que a maior parte das pessoas não viu, sejam atores ou não. Isso ajuda a atuar porque vi a natureza humana em muitos níveis diferentes, posso ir bem fundo. Expande seu mundo.

Mudando para um assunto bem mais leve, você está mais linda que nunca, sempre elegante. Qual o segredo?

Tenho muita sorte porque meu marido trabalha na indústria da moda. Então, tenho acesso a muitas roupas. Tenho vergonha de dizer que, se você é uma mulher, e principalmente se é uma mulher que gosta de roupas, não importa quanto dinheiro você tem ou quanto acesso tenha a roupas, sempre vai dizer: “O que vou vestir?”. Tenho mais roupas hoje em dia, mas também muito mais eventos. Então, preciso pensar em um monte de coisas, como, por exemplo: essa roupa foi fotografada? Porque eu não me importo, mas não quero que meu marido fique com uma imagem ruim, como se não me desse acesso a roupas suficientes sendo dono de várias grifes. Se for da coleção passada, a mesma coisa. Se for um grande evento, não posso usar algo que já esteja na loja, porque pode ter outra pessoa vestindo a mesma coisa. Aí vão falar: “Meu Deus, ela é casada com o dono da grife e está com a mesma roupa da outra!”. As pessoas devem achar que é muito fácil. Não é. Depois de tudo isso, ainda tem a questão do corpo. Nem todas essas roupas me servem. Elas são feitas para modelos, e eu não tenho o corpo de uma modelo. Não sei se as mulheres sabem que também passo por essas coisas. E tenho vergonha de admitir que às vezes não sei o que vestir. Tenho, sim, os mesmos problemas das outras mulheres, apesar de ter um stylist e um marido dono de grifes.


E ainda uma pressão a mais.
Sim! Por causa do meu marido.

Mas sua aparência está excelente.
Meu segredo pessoal é óleo. Como muita gordura. Gordura boa. E tento não combinar muito com os carboidratos. Mas faço esse caldo com o osso de vaca, até todo o colágeno sair do osso e a gordura também. Bebo isso. Como muito abacate. Muito azeite de oliva, nozes, amêndoas. Isso ajuda muito. Só é preciso ter cuidado: não dá para usar azeite de oliva e comer bolo. Aí você vai engordar com minha técnica, então cuidado!

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