Entrevista: “Sou contra o estereótipo da vovó que fica em casa. Me sinto realizada aos 71 anos”, diz Ieda, ex-BBB

Foto: Globo/Paulo Belote
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Por Brunna Radaelli

Um mês depois da final do Big Brother Brasil, Ieda Wobeto, a terceira colocada da competição, curte a fama com calma. A rotina é quase igual, tirando o fato de a filha mais nova, Tanara, 28 anos, ter virado sua assessora. É ela quem organiza os pedidos de entrevista e monta a agenda da mãe. Entre compromissos e viagens ao Rio de Janeiro, a gaúcha de 71 anos aproveita tudo o que pode. Na última ida ao shopping tirou mais de 100 selfies com fãs.

– Não me incomodo, mas descobri que o segredo é não parar de caminhar. Quando você para e tira a primeira foto, de repente, surge uma multidão! – conta, entre risadas.

As compras tiveram de ficar para outra hora. Depois da maratona de fotos e beijos, voltou direto para casa. Ser a “mamma” mais querida do Brasil é cansativo. Não que Ieda seja uma mulher sem disposição. Aos 70 anos se inscreveu no Big Brother Brasil com o objetivo de ser a pessoa mais velha a participar do programa. Foi selecionada, chegou à final e garantiu seu protagonismo. Sem papas na língua, brigou e defendeu suas ideias, dançou nas festas, usou biquíni pequeninho e deu lição de moral. Uma mistura de mãe e menina, que cativou o país.

Foto: Globo/Paulo Belote

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Nascida em Mato Grande, então área rural de Canoas, teve uma infância de agricultora. Perdeu o pai aos 11 anos e, aos 13, deixou a escola para ajudar a mãe na roça, junto dos dois irmãos. Cresceu moleca, com bodoque no pescoço e jogando futebol. Não se sentia bonita. Aos 18 anos, em um baile, foi convidada a participar de um concurso de beleza por um clube de Canoas. Depois disso, foi eleita a primeira Miss da cidade, título que a acompanha desde então.

Se a história parece de Cinderela, na verdade, tem pinceladas da família tradicional dos anos 1970. Com o título de Miss Canoas, Ieda não fez muito. Não figurou em anúncios para marcas, tampouco se mudou para a Capital ou participou de festas glamorosas. A mãe não gostava da ideia dela sozinha em eventos – e o namorado (e futuro marido), ciumento, fazia coro. Assim, Ieda realizou outros sonhos: casou-se aos 22 anos e teve quatro filhos. Hoje, são sete netos, e a mesa cheia como ela sempre quis. Adicione à receita um divórcio aos 50 anos e a descoberta de uma vida nova quando a maioria das mulheres já se julga “quase no fim” da jornada.

– Perguntam por que me inscrevi no BBB. Queria deixar uma mensagem para as pessoas de 40 ou 50 anos que acham que já não têm mais o que viver. Mostrar que sim, ainda temos muito pela frente. Para mim, o BBB foi além de qualquer sonho – conta Ieda, que pretende escrever um livro contando suas experiências.

Foto: Globo/Paulo Belote

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Dentro do “BBB” vimos que você tem uma visão diferente do que é aproveitar a “melhor idade”.

Sou contra o estereótipo da vovó que tem que ficar em casa. Por isso, entrei no BBB. Eu me sinto uma mulher realizada aos 71 anos. Passo na rua e os rapazes jovens me elogiam, isso me faz bem, e manter isso me faz cada vez melhor: cuidar do corpo, da mente, do cabelo, do rosto. Olhar no espelho e se sentir bonita. Porque essa felicidade é transmitida para os outros.

Você provocou o debate ao dar um depoimento emocionante sobre como é envelhecer e a relação entre mães e filhos.

Sim, falei sobre isso. Porque com o passar dos anos os papeis se invertem. Minha mãe foi minha filha por um período. Lutamos por três anos contra um câncer (linfoma). Eu me dediquei totalmente a ela, que chegou a melhorar bastante com a quimioterapia. Acabei perdendo ela de uma maneira súbita: após um tombo em uma viagem ela piorou e, em três dias, morreu nos meus braços. Custei muito tempo para que essa imagem saísse da minha cabeça, para superar a culpa, a sensação de não ter feito o suficiente.

Essa foi a mensagem que você tentou passar para o pessoal mais jovem da casa.

Que temos que aproveitar intensamente cada momento. E falar sobre quem usa a mãe como um apoio e tira dela o direito de aproveitar a vida. Sei que muitas vezes as pessoas não podem pagar alguém para cuidar dos filhos e, por causa do trabalho, recorrem às mães e sogras. Mas é injusto. Você trabalha a vida toda e, depois, quando poderia se divertir, aproveitar a vida, fica cuidando de casa e dos netos. Penso que a maioria poderia se descobrir muito nessa idade, se tivesse a oportunidade.

Foto: Globo/Paulo Belote

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Que mulheres são referência para você?

Fernanda Montenegro e Costanza Pascolato. São mulheres fortes. Gosto da maneira como se portam. Admiro o estilo da Vera Fischer e, principalmente, da Susana Vieira. Acho que sou parecida com ela na maneira de falar. Tem gente que não gosta dela justamente por falar demais. Faço muito isso, então talvez as pessoas não gostem muito de mim também (risos). Às vezes, minha filha diz que sou grosseira. Acho que os 71 anos me dão o direito de falar o que quero. Isso é libertador. São as nossas escolhas que nos fazem.

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