Entrevista! Thiago Lacerda: “É assustador, mas gosto da ideia de envelhecer”

Ator diz que se sente hoje um homem melhor do que há uma década e que não tem medo de envelhecer

Marcelo Correa, divulgação
Marcelo Correa, divulgação

Thiago Lacerda remarca duas vezes o horário da entrevista por volta do meio-dia de uma quinta-feira por motivos de: malhação. Focado em chegar bem aos 40, o ator que completa 39 anos em janeiro ri com muitos “kkkkk” no WhatsApp quando justifica a pertinência do compromisso com o personal trainer:

“Estou tentando me manter magrinho”, escreve, pouco antes de falar por telefone com Donna:
– Finalmente decidi voltar a me cuidar.

Na manhã daquele dia, o intérprete do ambicioso Ciro, de A lei do amor, havia acordado cedinho para dar início à rotina da qual não abre mão quando está em casa, no Rio. Desperta os filhos, Gael, nove anos, Cora, seis, e Pilar, dois anos e meio, serve o café da manhã, fiscaliza se os uniformes estão OK e leva os dois mais velhos para a escola. O leva-e-traz das atividades é um dos jeitos que encontrou para ser um pai mais presente e equilibrar o (pouco) tempo livre. Entre as viagens para apresentar peças de teatro no primeiro semestre – a turnê Repertório Shakespeare – e, agora, as gravações da novela das nove, as horas de descanso são reservadas ao convívio com o trio e à companheira há 15 anos, a atriz Vanessa Lóes.

– Eu me retiro muito por necessidade profissional, então aproveito até mesmo o momento dos trajetos no carro para estar mais com eles. Tenho meu papel de pai, de marido, de amigo, não dá para delegar estas coisas. Não tem isso de “Eu vou trabalhar e você fica aqui cuidando do resto”. Vanessa e eu dividimos as tarefas – afirma.

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Thiago se considera um homem moderno e, faz questão de dizer, feminista: admira a organização do movimento de mulheres, que percebe cada vez mais forte, e credita sua própria postura aos novos tempos.

– Os homens foram culturalmente obrigados a se reencaixarem. Talvez essa minha maneira de encarar as coisas seja em função do que está acontecendo atualmente. Não tem mais isso de que só as mulheres cuidam da família. É todo mundo junto – define.

Com a rotina acelerada e as tarefas divididas, a saúde estava ficando em segundo plano – ou terceiro ou quarto, como conta Thiago. Decidiu priorizar sua meta: corre na areia, faz funcional, anda de bicicleta e joga vôlei, tudo na praia. Estava, justamente, na orla quando deu a entrevista antes de ir ao Projac, os estúdios da Globo, e encontrou, por acaso, a equipe de A lei do amor gravando cenas por lá. Thiago, aliás, tem uma opinião controversa a respeito de seu personagem. Defende que Ciro não é só um vilão clássico de novela, e sim uma pessoa ambígua. Cita Shakespeare, seu autor preferido, para comparar a complexidade do personagem e apostar que Ciro só se corrompeu por conta de escolhas erradas – e ainda relaciona o tema com o cenário político brasileiro:

– O dilema moral e ético a respeito de ser e ter não foi o brasileiro que inventou, não foram os últimos 10 anos ou o jornal da semana passada. É um dilema existencial desde que o homem ficou em pé. Shakespeare nos passou isso no fim do século 16 com Hamlet e depois Macbeth. É uma condição humana o homem se questionar sobre suas escolhas. No país também estamos tratando disso, a situação do Brasil sendo discutida de forma calorosa. Temos conseguido colocar os dedos nas feridas, expor as mazelas, a complexidade e, a contradição do ser humano.

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“Gosto da ideia de envelhecer”

VOCÊ ESTAVA MALHANDO ATÉ MINUTOS ANTES DA ENTREVISTA. ESTÁ CUIDANDO MAIS DA ESTÉTICA OU DA SAÚDE?
Tinha que acabar logo com esse negócio de “Um dia vou dar um jeito”. Precisava retomar minha rotina de disciplina. Vou fazer 40 anos (em janeiro, completa 39), quero estar bem, ter meu corpo de volta. De uns tempos para cá, andei muito relapso comigo mesmo. Sempre fui atleta, sem falar que sou ator e preciso fazer uso do meu corpo no trabalho. Não posso simplesmente negligenciar uma certa dose de cuidado pessoal. Tenho o trabalho na TV, esposa, três filhos, amigos, enfim, a última coisa que estava na minha lista era eu. A gente acaba embarcando em uma espiral, a vida hoje em dia tem uma velocidade que nos engole. Se você não se obrigar a ter disciplina, deixa passar muita coisa. Tem gente que deixa passar os filhos ou o casamento ou a si próprio, que era o meu caso. Quero criar uma condição de envelhecer bem, saudável, intelectualmente e fisicamente, para que o tempo seja de fato um amigo.

VOCÊ FALOU DO ANIVERSÁRIO DE 40 ANOS EM 2018. O QUE PENSA SOBRE ENVELHECER?
Acho maravilhosa a ideia de que o tempo passa, é um aliado da gente. Eu me sinto um homem melhor do que era há cinco ou 10 anos, sou uma pessoa mais interessante, ator e pai, até pela própria convivência com meus filhos, com a experiência e a oportunidade que a Vanessa (Lóes) tem de me transformar. Isso muda nossa maneira de enxergar o mundo e a vida. Acredito muito na importância e na beleza do tempo. Por outro lado, é assustadora a velocidade como o tempo passa. Tenho três filhos e é como se eu conseguisse tocar o tempo, as crianças materializam o tempo, a gente pode sentir o cabelo do tempo, o cheiro do tempo… É essa antítese encerrada em si mesma, essa dicotomia de maravilha e angústia. É assustador, mas gosto da ideia de envelhecer.

SEU PAPEL COMO PAI TRANSPARECE NAS RESPOSTAS. COMO É A VIDA EM FAMÍLIA?
É incrível como as crianças ocupam o tempo da gente. Considero um privilégio ter a oportunidade de conviver com três figuras em formação. Amo essa convivência em família. Faço tudo com eles. A Vanessa, em função das três gestações nos últimos anos, acabou diminuindo naturalmente o volume de trabalho, mas continua produzindo, está gravando Questão de família para o GNT, uma série muito bacana. Então, ela tem uma rotina muito mais intimista com as crianças. Hoje, acordei, troquei a roupa deles, dei café da manhã e levei à escola. É uma função que me obrigo a fazer por prazer. Nos dias em que não gravo, faço questão de buscar também. E de levar para natação, futebol, aula de música, aula de circo, de teatro. E essa presença, eles exigem. Ontem, por exemplo, o Gael me ligou dizendo que estava com saudade. Saí do Projac às 19h38min exatamente, e ele me esperou acordado. Assistimos a um desenho no quarto, e dormi com ele lá. É isso, temos uma rotina normal como a de todo mundo. Imagino que você também monte seus horários de acordo com os da filha. Só que lá em casa são três (risos). Tento também um esqueminha de sair sozinho com um de cada vez. Vou com o Gael tomar um açaí, levo a Cora para a praia…

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NA VIDA A DOIS, EXISTE SEGREDO PARA UM CASAMENTO DURADOURO?
Meu casamento é como qualquer outro. Temos nossas questões a resolver no dia a dia. A gente vive todo dia um exercício de se manter juntos, saudáveis enquanto casal e enquanto grupo. As pessoas têm uma falsa ideia: “Olha que incrível, é um casal exemplo”. Cada história é uma história individual, como a minha e da Vanessa. De fato, estamos junto há bastante tempo. É maravilho e não é, ao mesmo tempo, ao longo desses anos todos. O que interessa é que a gente tem uma família bacana, temos planos juntos, não existe receita. A gente vive. Acham que temos algo sensacional para dizer, é meio frustrante dizer que não há. A gente conversa e se entende, ficamos atentos à expectativa do outro. A impressão que tenho é que hoje em dia parece muito fácil as pessoas abrirem mão da necessidade de tentar preservar a relação. O esforço pessoal para se manter casados, juntos, felizes. É mais fácil se separar, muitos nem tentam.

FALAMOS SOBRE O THIAGO PAI, ATOR, MARIDO, SEU EMPENHO EM TER UM TEMPO PESSOAL. ATÉ POUCO TEMPO, O DESAFIO DOS “MÚLTIPLOS PAPÉIS” ERA QUASE QUE EXCLUSIVAMENTE FEMININO. QUAL A SUA OPINIÃO SOBRE ISSO?
As mulheres assumiram um papel muito importante nas últimas décadas com essa voz que clama por independência, liberdade, direitos iguais. O movimento feminino está cada vez mais estruturado, como deve ser. Os homens foram obrigados culturalmente a se reencaixarem. E eu me considero relativamente moderno. Tenho meu papel de pai, de marido, de amigo, de provedor também, não dá para negligenciar e delegar estas coisas. Tento assumir um papel em cada momento da minha vida, não tem como ser diferente, faço questão. Talvez essa minha maneira de encarar as coisas seja em função do que está acontecendo atualmente. Não tem mais isso de só as mulheres cuidarem da família. É todo mundo se doando e olhando pra frente juntos, de mãos dadas, da melhor forma possível.

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COM TRÊS MULHERES EM CASA, ESSA QUESTÃO DA IGUALDADE DE GÊNEROS APARECE DE QUE FORMA?
As coisas acontecem de uma maneira natural. Eu sou feminista, me considero feminista, apesar de que, não dá para negar, fui criado em uma cultura machista, pois o brasileiro é mesmo bastante machista. Mas sou um adorador da essência feminina, da importância do feminino na ordem de tudo. Lá em casa funciona tudo muito mais pelo exemplo. Gael não tem privilégios, eu também não tenho, existem os combinados que são tratados de forma igual. Não tem tarefa que é da Vanessa e tarefa que é minha, a gente faz junto. Isso não chega a ser ainda um tema muito presente, as crianças estão crescendo, quando a oportunidade se fizer a gente vai falar sobre isso normalmente.

VOCÊ ACHA QUE É PAPEL DO ARTISTA SE POSICIONAR SOBRE OS ASSUNTOS DO MOMENTO, COMO FEMINISMO E POLÍTICA?
O que me interessa sobre política é ter a liberdade de dizer o que penso, sem sofrer nenhum tipo de retaliação. Tenho o direito de enxergar as coisas de acordo com minha formação intelectual, estética e cultural. Não me interessa convencer as pessoas. É muito difícil para uma pessoa pública quando ela emite sua opinião: às vezes, fica parecendo que estamos tentando dizer que o ponto de vista é melhor ou mais interessante. O que importa é levantar questões que façam com que as pessoas reflitam e cheguem às próprias conclusões. Respeito muito quando alguém discorda de mim, o que não admito é estupidez, violência e intolerância, seja de direita ou esquerda. Gostaria muito que as pessoas tivessem acesso à cultura, à informação e à educação, mas somos um povo culturalmente achacado. A educação sempre foi negligenciada, e é o grande cerne de tudo.

ESSA INTOLERÂNCIA CHEGA A VOCÊ POR MEIO DAS SUAS REDES SOCIAIS TAMBÉM?
As pessoas, de um modo geral, me respeitam muito. Sou privilegiado, mas é claro que tem um ou outro estúpido que se manifesta. São pessoas que, às vezes, se escondem atrás de perfis falsos para atacar. Tento não dar bola nem me colocar em posição de bate-boca, pois é um pouco isso que elas querem, se sentir importantes e atacar uma pessoa que tem opinião. A violência é uma manifestação de fraqueza. É lamentável. Uso muito o Instagram para postar minhas coisas, adoro ver fotos de gente, de lugares, de momentos. Tenho um perfil no Facebook, que é meu, e outros falsos, também no Twitter. Aliás, esses dias me perguntaram: “Thiago, você tem Twitter?”. Respondi: “Olha meu amigo, eu tenho três filhos, você acha que tenho tempo de ter Twitter?” (risos)

COMO VOCÊ LIDA COM O ASSÉDIO DO PÚBLICO?
A gente vive no Rio, então o assédio é infindável. Hoje em dia, todo mundo tem uma câmera na mão e, com a intimidade que a minha profissão sugere, as pessoas nos acessam de maneira igualmente íntima. Mas, quando estou com meus filhos, não faço fotos. É um esforço pessoal, que às vezes custa muito caro, e as pessoas não compreendem isso, na maioria absoluta das vezes. Eu digo: “Prefiro não fazer, estou com as crianças”. Pode até parecer meio antipático, mas não abro mão disso.

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VOCÊ SEMPRE SE DEFINE COMO UM GAÚCHO POR ADOÇÃO. COMO COMEÇOU ESSA LIGAÇÃO COM O ESTADO?
Minha relação com o Rio Grande do Sul é antiga e passa por uma afinidade pessoal e por uma série de coincidências que envolveram meu trabalho. Ao longo destes 20 anos, fui bastante ao Sul e fiz muitos amigos. Aprendi a me identificar com a cultura, com a tradição e com as pessoas. Sinto um carinho de volta, é recíproco: estou em casa. De uns tempos pra cá, fiz negócios aí e administro confiando em pessoas que encontrei ao longo do caminho. Sempre que vou ao Sul é uma festa, uma farra. Demora um tempo até conseguir rever todo mundo, claro. Tenho orgulho de ter contado, por meio dos meus personagens, a história do Estado, que é um pouco da história do país, de um modo geral. Eu me considero privilegiado por isso.

O VILÃO CIRO POR THIAGO
“Ciro é misterioso e acho que não precisa de rótulos. Há coisas a respeito deste personagem (todos da novela, de um modo geral) que a gente não sabe. A história da Maria Adelaide é cheia de subtextos e elementos surpreendentes. Particularmente, acredito que o Ciro é um homem bom. Obviamente não é flor que se cheire, não é uma figura na qual a gente pode confiar. Mas é muito mais pela ambição que cultiva do que propriamente pela natureza dele. Pela ambição, ele se corrompeu, fez escolhas das quais não consegue mais se livrar. Uma decisão leva à outra e, quando ele vê, não tem mais alternativa a não ser continuar naquele caminho que acabou traçando. Está exaurido, não aguenta mais as relações daquela família, aquela mulher, aquele lugar onde ele se meteu.”

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