Homão da p* ou um homem a ser parado? Rodrigo Hilbert fala sobre o fenômeno Rodrigo Hilbert

Foto: André Bittencourt, divulgação
Foto: André Bittencourt, divulgação

Não que alguém tenha reclamado, mas as últimas semanas foram marcadas por uma explosão de Rodrigo Hilbert nas redes sociais. O catalisador foi uma postagem do próprio apresentador em seu Facebook, que humildemente publicou: Sempre quis um lugar legal para as crianças brincarem, então decidi fazer essa casinha. Bem, a casinha de madeira aparenta ter pelo menos uns 10 metros quadrados, com escada, telhado, portas, janelas e até pilares que permitem aos filhos gêmeos brincar à sombra, debaixo do piso.

A internet fez o que faz de melhor: dezenas de listas, memes, vídeos e piadas evocando a figura de homem multitarefa do apresentador. Uma das brincadeiras mais recentes dizia que, com o aumento dos combustíveis, Hilbert passaria a produzir seu próprio etanol.

Na correria que antecede a estreia da nova temporada do programa que apresenta no GNT, Tempero de Família, Hilbert respondeu por e-mail a algumas perguntas sobre a repercussão e sobre a imagem de homem modelo 2017. Inclusive se ainda nos surpreenderemos com habilidades suas que pipocam nas redes sociais e já abrangem a cozinha, a marcenaria e o crochê.

– Isso tudo virou uma grande brincadeira, mas se o que faço de bom puder inspirar pessoas, maravilhoso – resumiu, bem à maneira Hibert: discreto e educado, recusando a pecha de “homão da p*” que a internet lhe impôs. – Não sei se tenho outras habilidades como você diz. Tem outras coisas, sim, que faço, mas que sempre fiz e fazem parte da minha rotina.

Para se ter ideia de algumas dessas “outras coisas”, com a palavra a mulher de Hilbert, Fernanda Lima, em declaração apaixonada em rede nacional:

– Que o Rodrigo cozinha, todo mundo sabe, mas ele também passa, lava, cuida quase que integralmente das crianças nesse período em que estou gravando o Amor & Sexo e ainda faz tricô.

Rodrigo Hilbert faz crochê em um dos episódios de Tempero de Família (Foto: reprodução, GNT)

Rodrigo Hilbert faz crochê em um dos episódios de Tempero de Família (Foto: reprodução, GNT)

Uma das reações nas redes é um pedido de clemência masculino. Alguém precisa parar Hilbert por uma questão de “desequilíbrio” entre os homens, conforme o apresentador Luciano Potter, que já pega no pé de Hilbert “há uns bons oito anos”.

– Lembro daquele fatídico programa em que esse cidadão pescou, limpou o peixe e o cozinhou. Todas as tarefas sorrindo, com aqueles olhinhos fechados, uma coisa maravilhosa. Sempre que eu penso que a comida dele não é lá essas coisas, me vêm à cabeça: “Pelo menos Fernanda Lima gosta” – brinca uma das vozes do Pretinho Básico.

Potter deixa claro que o movimento “Parem o Rodrigo Hilbert”, de sua parte, é irônico e brincalhão. Como uma porção de outros homens, é fã declarado do apresentador. Mas mesmo entre piadas e memes, é de se perguntar por que a sua figura chama tanto a atenção no corrente ano de 2017. Talvez porque Hilbert una o melhor de dois mundos: abraça as tarefas de um homem rústico que se perdeu no tempo e também as de um homem moderno, que passou a dividir as tarefas com a mulher, inclusive a maior participação na criação dos filhos. Ele mesmo ressalta a importância desse segundo ponto:

– As tarefas domésticas são para quem mora na casa. Assim que aprendi e ensino aos meus filhos. Não me vejo com tanta representatividade nesse sentido. Tem pessoas lutando por causas nobres como o direito de ser pai, de ser mãe. O que acho importante disso tudo é descontruir funções masculinas ou femininas dentro da sociedade. Acho que temos muito a crescer, viver melhor, respeitar as opiniões e divergências.

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Segundo o psiquiatra e psicoterapeuta Rogério Horta, terapeuta de casais e família, há mudanças culturais e também tecnológicas operando no “Fenômeno Hilbert”.

– Um ponto fundamental é observarmos as coisas de diferentes perspectivas. Se eu perguntasse para um pai de décadas atrás, ele também diria que se considera um pai amoroso, porque o que se esperava de um pai amoroso, no tempo dele, era trabalhar duro para ser um bom provedor. Quanto às tarefas que antes eram consideradas masculinas: consertar, construir, instalar, não é uma crise exclusiva dos homens, mas da contemporaneidade. Deixamos de fazer essa tarefas porque consertamos cada vez menos em uma sociedade de consumo. E há questões absolutamente culturais. Quando morei na Europa, na década de 1980, testemunhei os homens da Dinamarca tricotando blusões como hobby numa boa – revela Horta.

Camarada e conterrâneo de Hilbert, o colunista de Donna Marcos Piangers primeiramente referenda a fama de Hilbert – “Duro é que ele é isso mesmo: um cara legal, educado. Difícil de achar defeito” – mas o que Piangers ressalta mesmo é o lado positivo de projetar essa imagem de um novo tipo de homem de família a outros tantos. Foi o que o próprio colunista experimentou quando começou a escrever sobre a participação ativa na vida das filhas, que renderam os livros da série O Papai É Pop (Editora Belas Artes):

– Diariamente, recebo retorno de homens dizendo que passaram a repensar seus papéis na família depois de ler textos meus. Diversos dizem que se aproximaram dos filhos. Outros dizem que deixaram de se envergonhar de ser pais participativos. Lembro de um que falou que costumava mentir no trabalho que estava doente quando precisava faltar para cuidar do filho ou para assistir a uma apresentação. Minha opinião é de que houve, sim, uma primavera das mulheres em 2015 que exigiu dos homens essa maior participação. Mas o que veio de mais bacana disso é que muitos se apaixonaram no processo.

Também colunista da Revista Donna, Clara Averbuck é outra que, em sua última coluna, deu seu recado aos inconformados com o padrão Hilbert de qualidade: “Não há nada demais em homem algum fazendo coisa alguma. Vocês todos deveriam, como disse a pensadora Raquel Novaes, parar de agir feito o táxi quando surgiu o Uber e melhorar o serviço. Venham para 2017, rapazes. Vocês podem tornar o futuro um lugar bem mais legal para todos nós”.

 

Nova temporada com sotaque, ora pois

Foto: Ney Coelho, divulgação

Foto: Ney Coelho, divulgação

A nova temporada de programa Tempero de Família terá sotaque português. Em uma casa no Alto da Boa Vista, no Rio de Janeiro, Rodrigo Hilbert instalou a “Tasca do Tempero de Família” (foto, E), onde ele vai cozinhar e receber convidados portugueses que escolheram o Brasil como morada e brasileiros de origem portuguesa. Com estreia no dia 10, esta temporada vai focar, além dos pratos, nas histórias dos convidados e da própria cultura lusitana.

– Nós nos dedicamos a um lado mais afetivo da comida. Muitas das receitas reproduzidas por nós não são tão conhecidas pela maioria dos brasileiros, mas conhecidíssimas dos portugueses. É uma temporada bem família. O público pode esperar muitas histórias, risadas, um bom vinho e muita comida boa – adianta o apresentador.

Além da nova temporada, Hilbert também está às voltas com o lançamento do livro As Deliciosas Receitas do Tempero de Família 2 (Globo Editora), segundo volume que reúne o melhor dos pratos das temporadas passadas do programa. A empreitada de compilar 70 receitas de entradas, saladas, doces, sobremesas, pães e outros quitutes em livro foi um desafio extra para o autor, que cozinha de forma intuitiva.

– Minhas inspirações vêm na hora, de acordo com o tipo de ingredientes que temos, com o local, com os temperos. Não sou muito de ficar procurando, deixo as coisas acontecerem, não sei fazer de outra forma. Mesmo sendo um livro de receitas, tentei fazer com que ele seja pouco assim também – conta.

A nova temporada de Tempero de Família, estreia no dia 10 de agosto, com apresentações toda quinta, às 20h, no canal a cabo GNT.

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