Entrevista! IZA fala de moda e representatividade: “Sei a importância de estar onde estou para outras meninas”

Foto: Gabryel Sampaio, Divulgação
Foto: Gabryel Sampaio, Divulgação

“Já me perdi tentando me encontrar. Sempre fiquei quieta, mas agora vou falar”, dizem os versos da canção Dona de Mim, o mais novo hit de IZA. Embora não sejam, tecnicamente, autobiográficos, revelam muito do momento de (re)descoberta, transformação e, claro, ascensão da carioca Isabela Lima.

No último dos seus 28 anos, completados em setembro, IZA – assim mesmo, em letras maiúsculas – viu seu nome entre os mais comentados da música pop nacional. Subiu ao palco antes do Coldplay em um show lotado na capital paulista no ano passado (com direito a mimo de agradecimento assinado por Chris Martin) e fez uma elogiada participação na apresentação do cantor norte-americano Cee Lo Green no Rock in Rio. Mas o estouro mesmo veio com Pesadão, faixa que mistura pop e reggae, lançada em parceria com Marcelo Falcão, ex-O Rappa. Um hit que, ainda que não soubesse quem era ela, você provavelmente deve ter escutado no verão passado.

– Não imaginava que seria assim tão rápido. Depois de Pesadão, as coisas deram um boom. Fico muito feliz de ver meu trabalho, que é minha maior realização, gerando frutos. Espero que seja só o começo – comenta a cantora, em entrevista a Donna.

Foto:

Foto: Gabryel Sampaio, Divulgação

Agora, IZA colhe os louros de seu primeiro trabalho autoral, o disco Dona de Mim. Lançado no final de abril, o álbum carrega no DNA premissas do trabalho (e da vida) da cantora: fala da força feminina e do descobrimento da própria beleza de um jeito leve e superpop.

Em faixas como Corda Bamba, que conta com a participação de ninguém menos do que Ivete Sangalo, IZA lembra como chegou até aqui (“Ninguém vai me derrubar/Se a vida é por um fio/ Eu vou me equilibrar”). Já em Quem Sabe Sou Eu, uma das primeiras músicas da carreira, transparece todo seu girl power em versos como “Eu sei que o meu corpo te incomoda/ Sinto muito, o azar é seu/ Abre o olho, eu tô na moda/ E quem manda em mim sou eu”.

– Quando criamos esse álbum, quis colocar tudo o que eu mais gosto de cantar nele, colocar um pouco de mim em cada letra. Existem muitas vozes, várias emoções e ritmos que me definem no Dona de Mim – conta.

Assista ao clipe de Dona de Mim:

O reconhecimento veio do público, mas também da crítica especializada: Dona de Mim concorre ao Grammy Latino na categoria Melhor Álbum de Pop Contemporâneo em Língua Portuguesa. Um salto e tanto para alguém com pouco mais de quatro anos de carreira. A surpresa foi tanta que IZA não conteve as lágrimas ao saber da notícia: um vídeo superfofo compartilhado em seu perfil no Instagram mostra para os fãs como foi esse momento.

– Não consegui me conter, me emocionei. Foi uma felicidade imensa, até agora não sei explicar a sensação de ver o meu nome entre os indicados. Estou muito ansiosa, mas tentando não criar muitas expectativas – pondera a cantora, sem esconder a empolgação.

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Antes de ver seu nome no line-up dos principais festivais de música do país – como o Planeta Atlântida, que rolou no litoral gaúcho em fevereiro –, o caminho de IZA foi longo. Formada em Publicidade, tem em seu currículo trabalhos como editora de vídeo em turnos na madrugada, gestão de redes sociais no governo carioca e funções em RH. Já foi até colega da youtuber Jout Jout em uma agência de publicidade – em um momento em que ambas estavam descontentes com a própria carreira, como já contaram em um vídeo publicado no canal da cantora.

Numa conversa de bar com a amiga, veio o estalo: era na música que IZA queria se encontrar. Largou tudo e subiu o primeiro vídeo no YouTube, um mashup das músicas Flawless, de Beyoncé, e Rude Boy, de Rihanna. Abandonou o emprego fixo e, entre um show e outro em barzinhos, passava as tardes enviando e-mails com links de seus vídeos a quem pudesse ajudar na carreira – incluindo executivos da gravadora Warner Music, com quem acabou assinando contrato.

Antes de gravar profissionalmente, os perrengues se acumularam: com a mãe recém-separada, IZA teve que se virar para ajudar no sustento da casa, já que não estava trabalhando formalmente. Não foram poucas as madrugadas que passaram em claro fazendo sanduíches para a mãe vender na escola em que lecionava. Mas o esforço para investir na carreira deu certo.

Na próxima quinta-feira, 11 de outubro, véspera de feriado, IZA mostra o resultado do seu trabalho em um show no Z Festival, ao lado de nomes como a cubana Camila Cabello e a dupla-sensação Anavitória, no Pepsi On Stage, em Porto Alegre.

Aproveitando mais uma passagem da cantora pelo Estado, saiba por que IZA é a cantora do momento – e como seu trabalho é relevante e representativo para muito além da música.

Foto: Gabryel Sampaio, Divulgação

Foto: Gabryel Sampaio, Divulgação

Dona do meu poder

Mesmo em um país onde 54,9% da população se declaram pardos ou negros, segundo dados de pesquisa divulgada pelo IBGE em novembro de 2017, exemplos de mulheres negras com a força de IZA não são tão frequentes assim na mídia – apesar de mais do que necessários.

Prova disso é o reconhecimento que a cantora recebe de outras personalidades (também negras), que enxergam na dona do hit Pesadão uma figura relevante e inspiradora. Para a cantora Alcione, IZA é “um acontecimento, que dança e canta lindamente”. A atriz Taís Araújo comemorou com um post emocionado a indicação da cantora ao Grammy – chamando-a de rainha. A cada nova foto que IZA compartilha em seu Instagram, que soma mais de 2,9 milhões de seguidores, multiplicam-se os comentários elogiando o estilo, a beleza e a identidade da artista.

– Eu sei a importância de estar onde estou hoje para outras meninas. Quando era menor, buscava inspirações, queria encontrar alguém que me dissesse que está tudo bem ser quem eu sou. Essa é a mensagem que eu tento sempre passar a frente – afirma a cantora.

Foto: Gabryel Loureiro, Divulgação

Foto: Gabryel Loureiro, Divulgação

Hoje, IZA reconhece a importância de ser quem ela é e não tem medo de exibir suas curvas e soltar o cabelão cacheado, mas não foi sempre assim. Para além de complexos típicos da adolescência – como a dificuldade de entender e aceitar o próprio corpo –, somam-se os efeitos nocivos do racismo, dos quais ela não escapou.

Filha do militar Djalma Leite Lima, IZA mudou-se aos seis anos com o pai e a mãe, a professora de música e artes Isabel Cristina, para Natal, no Rio Grande do Norte. Nos primeiros anos da vida escolar, acostumou-se a ser a única garota negra do colégio particular em que estudou. Em entrevistas, IZA contou que foi vítima de racismo: era maltratada na escola e recebia olhares intimidadores no shopping. Não raro, era perseguida em lojas e supermercados por conta da cor da pele. Frente aos padrões de beleza que celebram a mulher magra e de cabelo liso, ser uma garota negra, com cabelo cacheado e cheia de curvas foi uma verdadeira batalha para a IZA adolescente.

A transformação e a descoberta da própria beleza vieram aos poucos. Primeiro, com os cabelos. Os fios eram alisados à base de henê no salão de beleza da avó, onde a mãe e as tias também batiam ponto para diminuir o volume dos crespos.

Foi somente aos 20 anos que IZA começou a prestar atenção nas cacheadas que então passaram a aparecer na internet, nas páginas das revistas e nos comerciais. Aos 21 anos, veio o basta: parou de alisar os fios e colocou tranças, enquanto os cachos cresciam naturalmente por baixo. Foi com esse visual que o público conheceu IZA – em Pesadão, ela exibe longas tranças em diferentes penteados.

O resultado da transição capilar não poderia ser melhor: hoje, a cantora mostra seus cachos por aí e inspira outras garotas a perderem o medo de ostentar também seus encaracolados. Virou até embaixadora da Salon Line, uma das maiores marcas de cosméticos do Brasil, conhecida por investir em produtos para as cacheadas.

– Foi um processo demorado. Por muito tempo fiquei alisando meu cabelo, não o mostrava da forma natural. Depois, aceitei as tranças e, hoje, deixo ao natural. Amo muito como me vejo com o cabelo assim. Acho que o processo de transição é demorado, mas vale a pena quando aceitamos nossos cabelos naturais. Sinto que me trouxe mais liberdade.

Foto: Gabryel Sampaio, Divulgação

Foto: Gabryel Sampaio, Divulgação

Para além dos fios encaracolados, o corpo repleto de curvas – desejo de muitas – era outro desafio. Em entrevista à Women’s Health, a cantora revelou que os assédios ainda na infância eram frequentes.

– Isso fazia com que me escondesse, com que não gostasse do meu corpo. Tinha medo, crise de pânico quando ia para a rua – disse à publicação.

Não à toa, IZA deu o primeiro beijo aos 17 anos. Até os 20, não gostava de tirar fotos – algo surpreendente ao ver a desenvoltura dela nos palcos. De repente, virou um furacão, como a própria cantora gosta de dizer. A descoberta do amor-próprio e as pazes com o espelho têm muito a ver com o encontro da garota com o feminismo – hoje, um dos temas de sua música e de suas manifestações frequentes nas redes sociais. IZA não tem mais medo de mostrar quem é, com toda a sua cor e suas formas. Sabe o valor de sua voz – e que ela vai bem além dos microfones:

– Meu pensamento hoje é que estou mais livre, leve e solta.

Foto: Gabryel Sampaio, Divulgação

Foto: Gabryel Sampaio, Divulgação

 

Dona do meu estilo

Do alto de seus 1m76cm de altura, IZA já chamaria a atenção por onde quer que passasse. Mas ela vai além: abusa de looks repletos de informação de moda. Nas produções da cantora, marcas novatas e independentes como a View01, a Higher Store e a Ben dividem espaço com etiquetas consagradas como a Apartamento 03, Rosa Chá e Bobô. No guarda-roupa de IZA, já rolou até look de marca gaúcha: no ano passado, a cantora fez um pocket show nos corredores da São Paulo Fashion Week usando um casaco da label Också (na foto abaixo).

– Estamos sempre procurando marcas novas com as quais me identifico e me encontro – diz IZA. – Sempre gostei de escolher meus looks, me produzir antes de sair.

Foto: Guilherme Raizer, Especial

Foto: Guilherme Raizer, Especial

Dos clipes às premiações, dos palcos aos programas de TV, tudo o que IZA veste é escolhido com maestria pela própria cantora em parceria com a stylist Bianca Jahara, que a acompanha desde o início da carreira.

– É uma construção, trabalhamos sempre em conjunto. A IZA gosta muito de moda – conta Bianca. – Se deixar, ela usa look de passarela até no aeroporto (risos).

Mas nem sempre foi fácil vestir um mulherão como IZA. As produções vindas diretamente dos desfiles, por exemplo, não funcionavam para o corpo cheio de curvas da cantora, recorda Bianca:

– Como a IZA tem um corpo violão, tivemos que encontrar um jeito de não vulgarizar e deixá-la mais fashionista. Nossa ideia foi despadronizar que a fashionista precisa sempre ser magra. Busquei referências lá fora, em mulheres como Kim Kardashian e Beyoncé – explica a stylist. – Não posso simplesmente pegar um look de passarela para a IZA. É por isso que precisamos trabalhar com looks exclusivos, feitos em parceria com os estilistas. As produções mais fortes que ela usou foram feitas sob medida.

Foto: Rodolfo Magalhaes, Divulgação

Iza no clipe de “Pesadão”. Foto: Rodolfo Magalhaes, Divulgação

Um dos exemplos mais recentes é o visual da cantora no videoclipe de Dona de Mim. Apaixonada por alfaiataria – uma das tendências mais fortes das últimas temporadas –, IZA veste um terninho confeccionado especialmente para ela pelo estilista Luiz Claudio, da grife mineira Apartamento 03. A sacada foi convidar o grafiteiro carioca Bruno Bogossian, o BR, para dar uma nova cara ao conjunto branco. O artista escolheu a palavra “Mulher”, tudo a ver com a temática do clipe, para grafitar com tinta rosa ao longo do casaco e da calça.

– Ficou uma obra de arte – sentencia Bianca.


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IZA em Porto Alegre

Dia 11 de outubro, quinta-feira
No Z Festival, que também terá shows de Camila Cabello, Anavitória, Vitor Kley, Zeeba e Sabrina Bastos
Local: Pepsi On Stage (Av. Severo Dullius, 1995), em Porto Alegre, a partir das 16h45min
Ingressos: A partir de R$ 270, à venda no site bilheteriadigital.com.br e nas lojas Gang dos shoppings Iguatemi e Praia de Belas, em Porto Alegre

Foto: Gabryel Sampaio, Divulgação

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