Joyce Pascowitch conta como é circular nos bastidores do poder e compartilha sua filosofia de vida e seus destinos favoritos

No momento em que a Câmara Federal votava o impeachment do então presidente Fernando Collor de Mello, toca o telefone de Joyce Pascowitch, que assistia a tudo direto do plenário. Era a primeira-dama, Rosane. O motivo? Queria reclamar de uma nota sobre a roupa dela. A jornalista e colunista social disse que não podia falar naquele momento porque estava justamente acompanhando a sessão que mudaria o destino do marido de Rosane. 

Hoje à frente do site Glamurama e das revistas Joyce Pascowitch, Poder, Moda e Modo de Vida, Joyce circulou, ao longo da carreira, nos bastidores do poder e na companhia de quem define os rumos na política, na economia e no entretenimento. E sem economizar em estilo e glamour. A partir do que viu e ouviu na posse de quatro presidentes, em viagens mundo afora (só na Grécia, esteve 12 vezes) e em festas e eventos disputados em meio a empresários, políticos e celebridades, ela compartilha seus pontos de vista, experiências e pequenos causos em seu mais recente livro, Poder, Estilo & Ócio (Intrínseca, 176 páginas, R$ 49,90).

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Não se trata de uma compilação de memórias, embora Joyce reúna algumas de suas mais caras recordações, como quando trocou experiências sobre a luta contra o câncer com a presidente Dilma. Mais do que dar um mergulho, ela flana por temas e situações. Dividido em três partes, como indica o título, o livro também aborda questões de estilo, luxo, moda, modismos e viaja pelos destinos preferidos da jornalista, da Bahia a Cingapura. Não chega a falar do Rio Grande do Sul. Mas, na entrevista, ela faz questão de destacar sua relação com o Estado:

– O que tenho a dizer dos gaúchos é que meu pai é gaúcho, minha mãe é gaúcha, minha irmã mais velha é gaúcha e minha família, quando veio da Rússia, foi para o Rio Grande do Sul. Sou praticamente uma gaúcha e só não falei mais dos gaúchos porque não vou aí tanto quanto gostaria. Adoro quando me convidam para fazer alguma coisa em Porto Alegre. Minha mãe estudou no Instituto de Educação e, quando passei lá pela primeira vez, chorei de tanta história que ela me contou. Minha relação é tão profunda que, talvez, não tenha colocado no livro porque não trata de relações profundas (risos).

PODER

Ter controle da agenda
“Um dos desafios maiores é o comando de sua própria vida. E é uma coisa para muito pouca gente. Não basta ser rico, famoso e ter acesso, porque, às vezes, essas pessoas não são donas das suas agendas. Esta é a grande riqueza: poder usar seu tempo de maneira que te traga, além de dinheiro e conquistas, plenitude. Se você não é dona da sua agenda, não consegue nem olhar para o outro – uma das coisas mais importantes hoje. Eu consigo me esforçar para isso, mas não sou dona da minha própria agenda. Fico por conta de vários compromissos de trabalho, mas tento colocar humanidade nessas relações.”

Nos bastidores
“O momento mais importante nos bastidores do poder foi o do impeachment do Collor. Primeiro, porque eu era a única jornalista no plenário da Câmara – não me pergunte como entrei, mas o fato é que estava lá, no meio da votação. E estava ao lado do assessor do Itamar Franco, que passava todas as informações para o futuro presidente. E o governo Sarney foi muito interessante, o primeiro em que Brasília tinha uma vida normal de poder público – não eram mais militares, era um governo democrático. Foi muito interessante acompanhar esse começo. E hoje estamos em um momento muito rico no Brasil. No país, por sua instabilidade, os momentos são sempre muito ricos (risos).”

Na lista dos poderosos
“Lá (na lista de figuras poderosas do Brasil que ela apresenta no livro) está o André Esteves (dono do banco BTG Pactual, e um dos investigados da Operação Lava-Jato), né? O livro é mais estático do que a realidade brasileira. Acho que o poder dele vai ter de ser redimensionado. Ele esteve em Bangu, preso numa cela, sei lá com quem. Deve ter mudado muito para ele e mudou muito para a história do Brasil. Sempre, desde pequena, escuto que a justiça para pobre é uma e para rico, outra. Então, com todos os erros e acertos, o país está resgatando a dignidade do povo.”

Leia também: dicas de receita no livro Avental (de Joyce Pascowitch)

Desafios de Dilma
“O poder de Dilma é o que ela conquistou: se é pequeno, é fruto da mistura das possibilidades dela com o cenário político. E esta mistura foi bombástica, não está dando certo. E isso não impede que eu continue achando o que escrevi no livro: é uma mulher batuta, bacana, forte, de princípios. Continuo gostando muito da Dilma que conheci e que acompanho na parte humana. Não acho que todo mundo dá certo na política. Fazendo um paralelo: eu dirigia uma revista muito pequena, que se chamava AZ, e saí dali para ser colunista da Folha. Não sabia nem escrever à máquina ou no computador. Não consegui dizer não, não me permiti. Poderia ter dado totalmente errado, mas hoje estou aqui te dando entrevista. Com a presidente Dilma, acho que foi algo parecido: ela não é de dizer não, é uma mulher que passou por muitos desafios e perrengues e, provavelmente, achou que poderia fazer o que está fazendo. E penso que, inclusive, ela ainda acha que tem condições para isso. Ela foi eleita, eu respeito, as pessoas têm que respeitar. Mas o fato é que as coisas não estão indo bem. E todo o Brasil que vimos ir ladeira acima agora é muito triste ver ladeira abaixo.”

Do RS para o mundo
“Jorge Gerdau é o empresário que mais se projeta no cenário nacional, e a Gisele Bündchen, como dizem os franceses, ça va sans dire: não dá para não falar dela. Não só é a primeira do mundo, como faço parte do coro dos que saúdam o trabalho dela.”

OS ELEITOS

No livro, Joyce lista figuras de poder no Brasil. Confira alguns: 

Fausto Silva, apresentador
“Ele é autêntico, pode se dar ao luxo de falar o que pensa e até de se vestir daquela maneira.”

Dráuzio Varella, médico
“Tem o poder de deixar todo mundo grudado na TV ouvindo sobre temas complicados e desconfortáveis.”

Alicinha Cavalcanti, promoter
“Construiu uma marca, virou uma instituição, e sua lista de famosos é superdisputada.”

Bolsa como cartão de visitas
A bolsa ajuda quando você vai a uma reunião de trabalho e as pessoas ainda não te conhecem. A primeira informação é sua roupa e, principalmente, seu adereço – porque nessas situações todo mundo se veste meio parecido. Se você tem uma boa bolsa, o outro já te decodifica como alguém que está falando a mesma língua que ele. São códigos de comunicação: a maneira como você se veste está dizendo alguma coisa de você, e a bolsa é um dos principais elementos dessa comunicação e facilita a conversa.

Importante é se sentir bem
Não consigo sair de casa sem estar bem vestida, odeio. O que não faz com que eu seja uma vítima da moda. Apenas gosto de me sentir bem. Confirmo o que escrevo no livro: ter estilo é você se sentir bem na sua pele, com a roupa adequada para o seu momento. Uso muito saia porque, no dia a dia, não quero parecer em uma situação mais esportiva se estou trabalhando. Não acho que as mulheres têm que trabalhar de saia. Eu gosto de trabalhar de saia, de me sentir composta, com um bom sapato e uma boa bolsa e uma roupa que faça jus à minha personalidade e ao meu jeito de ser, que me mostre ao mundo do jeito que sou.

Mulheres que estão envelhecendo de maneira bacana
Confira três das 13 eleitas de Joyce em “Poder, Estilo & Ócio”:

Costanza Pascolato, empresária e consultora de moda
“Tem estilo próprio, elegância e graça.”

Meryl Streep, atriz
“Mesmo mostrando as marcas do tempo, continua tendo seu espaço garantido.”

Fanny Ardant, atriz
“Até os dias de hoje, o estilo e a classe são os mesmos.”

UM LUGAR PARA CONHECER

No Brasil
“Tinha ido a Belém do Pará quando criança para conhecer o norte e o nordeste do Brasil. Voltei há dois anos a trabalho e fiquei muito impressionada com um pedaço do país, que, para mim, era muito pujante e muito desconhecido. Eu me sentia na Floresta Amazônica com aquelas mulheres e aqueles homens com os olhos meio puxados, meio índios: é um Brasil tão distante de São Paulo, ou de Porto Alegre, Rio, Bahia, Minas, onde a gente mais circula aqui embaixo. Fiquei muito emocionada, achava tudo lindo: as construções antigas, a sorveteria, os jardins do Museu Paraense Emilio Goeldi. É muito importante a gente conhecer o que o Brasil tem de forte, temos de tomar posse do Brasil.”

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No mundo
“A Grécia tem toda uma civilização, que a gente não tem no Brasil. Os deuses, os heróis, os filósofos. A riqueza que eles têm lá é diferente da nossa: não é uma riqueza natural, mas de alma, mente e espírito. E, além de tudo, os gregos são muito alegres e divertidos, e as paisagens estão entre as mais bonitas do mundo. Sempre vou para Mikonos – sou repetitiva, gosto de ir para os mesmos lugares. Gosto de devaneios e contemplação e amo nadar no mar, mas não no mar do Caribe, e sim no da Grécia, que tem história. Sou praieira, como minha família veio da Rússia, amo sol e praia para compensar os anos de Sibéria dos antepassados. Desafogo minha mente no mar, e a Grécia é o lugar ideal, porque tem essa junção de paisagem e gente de verdade, não é Miami. E gosto da comida, do vinho, de estar na praia, de pegar o jipinho à tarde e me perder pelas estradinhas. Eu me sinto muito bem lá.”

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