Na novela, no teatro e na vida pessoal, Carolina Ferraz celebra as novas experiências

Aos 48 anos, a atriz de "Haja Coração" compara as duas fases da maternidade com as filhas, que têm 20 anos de diferença de idade

Foto: Keisy Lórin/Divulgação
Foto: Keisy Lórin/Divulgação

“Cuidava das contas pessoais. Gerenciava gastos da casa, da praia, da fazenda. Empregados, filhos. Nossa, um trabalhão”. Quando Penélope detalhou seu currículo a um entrevistador, em capítulo exibido há 20 dias na novela Haja Coração, a personagem de Carolina Ferraz resumiu em poucas frases uma situação delicada: mulheres que, durante boa parte da vida, atuaram no lar e sentem dificuldades para entrar no mercado.

Para deixar a entrevista ainda mais tensa, já que as demais candidatas ao cargo de secretária falavam vários idiomas e cursavam pós-graduação, recebeu o feedback de que era muito velha para a vaga. “Foge ao nosso perfil”, ouviu ao ser dispensada. Aos 48 anos, Carolina celebra a abertura dada pela trama das 19h para discutir este assunto em rede nacional. Ainda que a carreira seja só um dos vértices da vida da personagem, que se reestrutura após um divórcio e agora encontrou um namorado novo (literalmente), a atriz vê com bons olhos falar dos dilemas das mulheres na virada para os 50.

– Existe muito preconceito com a idade das pessoas em geral. Temos que falar sobre isso pois, quando falamos pouco, é como se isso não fosse importante. Na novela, conseguimos abordar esses assuntos que rondam o preconceito de uma maneira mais leve. Talvez por isso esteja fazendo tanto sucesso – explicou em entrevista a Donna.

Além da TV, Carol está em cartaz com a peça Três Dias de Chuva a partir desta sexta-feira e no fim de semana em Porto Alegre, no Theatro São Pedro. O texto de Richard Greenberg, indicado ao Prêmio Pulitzer, dirigido por Jô Soares, traz Carolina e seus colegas de palco – Otávio Martins e Fernando Pavão – interpretando papéis tanto dos filhos quanto dos pais, para debater as diferenças de visões e posturas conforme o passar dos anos.

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Também na vida pessoal, Carolina presencia fases distintas da maternidade, cuidando de duas filhas com 20 anos de diferença de idade: Valentina, do casamento com Mario Cohen, e Anna Izabel, um ano e dois meses, fruto do seu relacionamento com o médico Marcelo Marins. Amante da boa gastronomia, compartilha seus segredos de cozinha no programa Receitas da Carolina (GNT) e aguarda o lançamento, em setembro, do filme A Glória e a Graça, cujos direitos autorais ela adquiriu com grana do próprio bolso e no qual interpreta um travesti. A seguir, a atriz comenta as novidades dos seus trabalhos e suas mudanças de experiência com a maternidade.

Foto: Priscila Prade, divulgação

Foto: Priscila Prade, divulgação

ENTREVISTA

TODA FAMÍLIA ENFRENTA EM ALGUM MOMENTO REFLEXOS DOS CONFLITOS GERACIONAIS, QUE SÃO O TEMA DA PEÇA. COMO É A REAÇÃO DA PLATEIA COM ESSA ABORDAGEM?
Carolina – Tenho uma relação muito profunda com esse texto. Ele consegue abordar uma dialética e uma questão moderna de maneira muito poética e bonita. É muito interessante a maneira como esses conflitos de gerações são abordados no espetáculo. Passamos o primeiro ato convivendo com os filhos e, no segundo, conhecemos os pais dos personagens do primeiro ato. Vejo que as pessoas transitam entre ambos, às vezes dão muita risada, gargalham bastante, e de repente estão muito emocionadas. As pessoas vão de uma ponta a outra no decorrer da peça. Para o ator, isso é uma delícia. Para a plateia, acredito que seja meio inevitável que ocorra alguma espécie de conexão, que remeta sempre à família de cada um, de forma particular.

VOCÊ INTERPRETA, NA NOVELA, UMA PERSONAGEM QUE TAMBÉM TEM QUESTÕES RELACIONADAS À IDADE TENTANDO SE ADAPTAR A UMA NOVA VIDA NA SOCIDADE, ESPECIALMENTE NO TRABALHO.
Carolina –  É sempre muito bom poder falar sobre este assunto, porque parece que ou isso não existe ou que não é relevante. Temos que abordar o tema do preconceito em relação à idade. No modo geral, isso é muito forte no mundo todo, não é um fenômeno brasileiro, acho que é mundial e tampouco é uma exclusividade feminina: também ocorre com homens, em muitos aspectos. Com relação ao campo de trabalho, qualquer um que passa dos 45 já enfrenta uma concorrência um pouco desleal, como se experiência e tempo de serviço não fossem coisas mais importantes nos dias de hoje. É meio maluco isso. Nunca conversei a respeito com o Daniel (Ortiz, autor da novela), mas acredito que o intuito dele seja trazer este assunto de maneira leve. Você pega uma mulher que está vivendo um relacionamento, que está apaixonada, que saiu de um casamento, ou seja, uma mulher que está em um momento de reconstrução de vida, e a coloca para viver estas questões. Isso traz bastante simpatia do público para algo que é muito atual. Então, além de tudo, ela se apaixona por um rapaz mais jovem, o Henrique (Nando Rodrigues), isso também traz muita simpatia (o casal tem até uma hashtag nas redes sociais, a #Penrique, foto abaixo). É um amor verdadeiro, a gente percebe que ela realmente está em um romance sincero.

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AINDA SOBRE PRECONCEITOS E TABUS, VOCÊ TAMBÉM JÁ FALOU ABERTAMENTE SOBRE DEPRESSÃO E GRAVIDEZ NA MÍDIA.
Carolina –  Nunca tive depressão pós-parto, acho que quando eu falei que tive depressão, você já deve ter lido aí, não foi após o parto, foi no início da gestação. Como fiz tratamento (fertilização in vitro), logo que engravidei tive uma depressão, sim, mais em função dos hormônios. Nos primeiros três meses foi assim, fiquei muito emocionada, chorava por qualquer coisa. Quando parei de tomar os hormônios, passou. Não foi pós-parto, mas também é uma depressão, né? As pessoas falam como se as pessoas nunca passassem por esse tipo de situação, mas a gente passa, sim. E aí o médico diz, “ó, minha filha não tem nada para fazer”. E a gente pensa: “quando será que vai passar?”. E então a gente espera que passe. Mas foi duro, não foi agradável, não, a minha família inteira estava rezando para acabar logo essa fase.

E FALAR DISSO TAMBÉM AJUDA A DESMITIFICAR AQUELA IMAGEM DA MÃE PERFEITA, NÉ, DE ADMITIR QUE NÓS TEMOS NOSSAS FALHAS, QUE NÃO VAI SER TUDO SEMPRE PERFEITO…
Carolina – Olha, acho que é isso aí mesmo. Tinha aquela ilusão antigamente, a gente queria crescer, queríamos nos tornar mulheres perfeitas mesmo, a gente queria ser inteligente, queria ser articulada, ser bonita, magra e malhada, falar três línguas, a gente queria ler todos os livros que estavam na moda e ainda queria ser superatraente, sexy… Não dá, né, gente? É muita coisa, realmente não dá (risos). Mas também dá para ser o que dá, e o que dá está bom. Isso que é o importante. Não precisa ser mais daquilo que a gente já consegue, pois a gente já consegue muito! A mulher já tem uma multipluralidade de papéis, é uma coisa bastante pesada. É muito comum mesmo para a gente se sentir sobrecarregada.

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AGORA COM DUAS FILHAS, DE UMA GRAVIDEZ PARA OUTRA, A CAROLINA COMO MÃE MUDOU ESTE ASPECTO DA COBRANÇA POR PERFEIÇÃO?
Carolina – Tive uma sorte muito grande, duas gravidezes muito tranquilas, mesmo a da Anna Izabel também, se não fosse essa questão dos hormônios que te falei. Mas agora estou em outro momento. Na da Valentina (nascida em 1995), acho que eu era mais tensa, tinha mais medo dos meus defeitos, dos meus erros. Quando a Izabel veio, já sei que, no fundo, a gente é uma média do que a gente consegue fazer. Não seremos perfeitas nunca, então agora tenho uma relação mais amadurecida com relação a maternidade. Minhas próprias cobranças estão mais tranquilas. Sou uma mãe mais relaxada, mais tranquila. Na época da Valentina, fui fazer o enxoval dela e comprei tudo, tudo, tudo e mais um pouco. Com a Izabel, na hora de comprar, eu disse: “Ah, gente, que bobagem, isso eu não vou ter, isso sei que a gente não usa, isso não precisa”. Cobrança da sociedade, essas coisas, te confesso que nem tenho tanto, o que eu acho que mais toca é essa cobrança que a gente faz com a gente mesma.

Carolina com Valentina - Foto: Agnews

Carolina com Valentina – Foto: Agnews

QUANTO ÀS DIFERENÇAS ENTRE O CENÁRIO FEMININO DESDE O NASCIMENTO DE UMA FILHA E OUTRA, COMO VOCÊ AVALIA OS DOIS MOMENTOS, DUAS DÉCADAS DE DIFERENÇA?
Carolina _ Não sei se mudou tanta coisa quanto as pessoas imaginam que mudou, sabe? Acho que não mudou tanto assim, infelizmente. Valentina, por exemplo, é uma menina muito preparada, ela me conta coisas como. “Mamãe, minhas amigas de 20 anos ainda querem casar e ter filhos, não estão preocupadas em ter uma carreira”. Minhas expectativas para o futuro é que coisas básicas aconteçam, coisas bem básicas mesmo, desde o direito individual da mulher, independente da geração, que elas tenham salários iguais, direitos realmente iguais. Não me preocupo muito com essa questão do empoderamento da mulher, estou falando mais da questão do dia a dia, tentando conseguir executar questões da feminilidade no dia a dia de uma maneira mais correta. A questão vai ficando muito complexa, vejo as pessoas se preocupando demais com essa questão do empoderamento e às vezes ficam um pouco radicais, sabe? Vejo uma geração de mulheres que maltrata homem pra caramba, reclama demais, não sei se você já viu ou observou isso em alguma amiga sua, mas eu já observei muitas vezes. Dá uma certa vontade de só usar o bom senso, sabe, tipo “vamos lá, vamos recuperar o que a gente tem que recuperar, mas não vamos abrir mão de certas coisas que são muito importante na relação entre homem e mulher”.

Carolina com a bebê Anna Izabel, em março - Foto: Agnews

Carolina com a bebê Anna Izabel, em março – Foto: Agnews

PARA FAZER O FILME “A GLÓRIA E A GRAÇA”, VOCÊ PESQUISOU E ENTREVISTOU TRAVESTIS E TRANSGÊNEROS PARA INTERPRETAR A PROTAGONISTA. QUAL SUA EXPECTATIVA SOBRE A RECEPÇÃO AO TEMA NO CINEMA?
Carolina – Sou muito apaixonada por este projeto, desde que li, há nove anos, esse roteiro (assinado por Mikael Albuquerque e Lusa Silvestre). Comprei os direitos e, de lá para cá, foi uma luta para conseguir montar. Flavio (Ramos Tambellini), que é o diretor, se associou a mim e conseguiu transformar o sonho em realidade. Quero muito saber o que as pessoas acham, o que a comunidade pensa sobre uma mulher, e não um homem, estar representando o papel de um travesti. Muitos deles me disseram que acharam isso ótimo, pois eles, como gênero, é feminino, né? Então nada mais natural do que uma mulher estar interpretando um travesti. Quero que esse assunto venha à tona, até pouco tempo atrás ninguém queria dar dinheiro para fazer filme com história de um travesti, isso mudou muito de repente. Começaram a surgir minisséries e um monte de produtos aí falando sobre isso, tinha ainda muito preconceito.

:: Saiba mais
Peça “Três Dias de Chuva”
Theatro São Pedro (Praça. Marechal Deodoro _ s/n Centro Histórico)
Data: 29, 30 e 31 de julho de 2016
Horário: Sábado, às 21h, e domingo, às 19h

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