Prêmio Donna: a trajetória que levou Clara Averbuck a se consolidar como nome de referência no feminismo

(Foto: Mateus Bruxel)
(Foto: Mateus Bruxel)

Por Fernando Corrêa, especial

O estúdio está quieto quando Clara Averbuck chega para a sessão de fotos para a capa de Donna junto à mãe, Heloiza. Cumprimenta fotógrafo, repórter, maquiadora, cabeleireiro.

— Gosto do meu cabelo do tamanho de uma árvore, gosto do olho bem marcado — orienta.

Os fios curtos e loiros, quase brancos, são a mais recente transformação, e o cabeleireiro decifra:

— Volume?

— Volume!

Solucionado o look, Clara e a dupla da beleza engatam um papo. O baby liss vai dando voltas nos fios, a conversa já chegou na alimentação sem lactose. Parece que propor o assunto feminismo seria inoportuno, mas ela convida: “Quer falar?”.

É a manhã seguinte ao evento do Prêmio Donna Mulheres que Inspiram. Exaurida pela maratona de viagens de avião, entre sessões de autógrafos do novo livro e a cerimônia da véspera, Clara se atrasou. Quando começamos a conversar, já estão na sala as também premiadas Ana Luiza Azevedo, Mônica Santos e Maria Berenice Dias. A advogada quer saber sobre a frase dita por Clara na véspera:

— Como é mesmo, “lugar de mulher é em qualquer lugar”?

— Lugar de mulher é onde ela quiser — esclarece Clara.

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É um momento novo na vida desta porto-alegrense de 36 anos. Desde 2014, administra o portal Lugar de Mulher com duas sócias-amigas: a gaúcha Mariana Messias, a Mari, e a paulista Ana Paula Barbi, a Polly. No site, Clara, Mari, Polly e outras colaboradoras escrevem de forma acessível – ora descontraída, ora séria, ora sarcástica – sobre assuntos que, até pouco tempo atrás, eram vistos como radicalismos: empoderamento feminino, igualdade de gênero, mito da maternidade, gordofobia.

— A gente estava cansada dos sites para mulher que existiam, aquela coisa maquiagem, cabelo, sexo, filhos, fofoca e como ser poderosa. É para ser uma coisa bem didática mesmo.

Nos livros e blogs que escreveu, Clara sempre desafiou padrões de comportamento. Mas, por conta de seus trabalhos recentes, seja no portal ou como colunista da CartaCapital e como professora de escrita criativa para meninas, ganhou uma palavra indissociável de sua biografia: Clara é feminista. Outrora associada ao público jovem, a Clara de 2016 dialoga com mulheres de todas as idades, em um Brasil que, a um só tempo, vê desabrochar a primavera do empoderamento feminino duramente combatida com o agrotóxico do conservadorismo.

— Recebo pedidos de socorro diariamente. A tiazinha me vê na Regina Casé e pensa: “Essa menina vai me ajudar, ela está na TV”. E aí me manda e-mail contando a situação atroz que vive há anos, de estupro marital constante dentro de casa. Isso é a opressão, que é a mulher nem saber como sair, nem pensar em sair — acrescenta.

O diálogo constante com mulheres de diferentes contextos deu a Clara a noção mais ampla da importância de compartilhar experiências, dar voz às mulheres e possibilitar a identificação com outras que, de outro modo, sofreriam sozinhas acreditando ser culpadas pela própria condição.

— Sempre andei entre os homens, era a única mulher e me achava muito especial por isso. Até o momento em que percebi que meu lugar ali era o que eles deixavam eu ter, e não o que eu queria — avalia.

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A recusa ao estereótipo da bonequinha graciosa faz parte do universo da escritora desde que começou a buscar seu público, em 1998, no fanzine CardosOnLine (COL), precursor dos blogs e da própria escrita para internet. Nos textos distribuídos por e-mail para milhares de assinantes, ela dividia espaço com outros sete estudantes de Comunicação, todos homens – incluindo o escritor Daniel Galera e o fundador André Czarnobai, o Cardoso –, e apresentava ao mundo a verve franca e direta, que não omite tragos, transas ou tretas.

Busque “brazileira” no Google e o primeiro resultado será brazileira!Preta, blog que Clara criou em 2001, na esteira do encerramento do COL. Ali, ela compartilhou trechos de seu primeiro livro, Máquina de Pinball, e apresentou ao mundo Camila, alter ego que curte cantoras “com colhões” e busca o amor incansavelmente. Como Clara postou em uma madrugada de setembro de 2001, “é tudo ficção – ou não”. Aos 22 anos, ela deixara Porto Alegre para trás, onde “seria sempre a filha do Hique Gomez”, em suas palavras, para dançar os próprios tangos e rir das próprias tragédias em São Paulo.

Em Toureando o Diabo, lançado neste ano por financiamento coletivo e ilustrado por Eva Uviedo, a protagonista Camila (em versão 2016, empoderada) revela que só tornou-se plena ao mudar-se para a capital paulista. Em Sampa, Clara trabalhou como roteirista, publicou sete livros, deu à luz Catarina, nascida em 2003, viu Máquina de Pinball dar origem ao filme Nome Próprio, do carioca Murilo Salles, protagonizado por Leandra Leal, em 2007. Viveu incontáveis perrengues, mas construiu, enfim, um lugar para si em um cenário no qual “as editoras recebem três vezes mais originais de homens do que de mulheres”, observa.

Em um post recente, com o título Eu não aguento mais ser mulher, Clara enumera estereótipos que levam as mulheres a acreditar que têm de ser competitivas, magras, mães, submissas, recatadas. Quando citamos o assunto, as demais mulheres no estúdio passam a dividir experiências pessoais. Há um consenso: as adolescentes e jovens adultas de hoje têm levado as ideias de igualdade de direitos a um patamar inimaginável para gerações passadas.

— Feminista é minha filha, que já é feminista aos 12 anos. Um menino derrubou a Catarina no chão para pegar no peito dela. Ela chutou a canela dele, e aí então ela é que era a violenta? A mulher da escola ainda veio dizer: “Mas, também, com essa blusa transparente”. Fui lá e redefini a expressão “rodar a baiana” — relembra.

A turma de Catarina fez uma ação semelhante ao manifesto #VaiTerShortinho, do Colégio Anchieta, na Capital. As meninas se organizam em coletivos feministas, o que teria sido um sonho na infância de Clara em Porto Alegre, avessa às “coisas de mulherzinha”.

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A mulher é o que quiser

Sua mãe, Heloiza, lembra que a filha sempre foi curiosa e desafiadora:

— Clara escreve desde muito cedo, ganhou prêmio de redação aos oito ou nove anos. Na adolescência, os textos que ela escrevia chocavam as pessoas nos colégios religiosos — lembra.

Já naquela época, Clara se identificava com os conceitos do feminismo mesmo sem tais rótulos:

— Era tipo: “Se isso é ser mulher, eu não quero”. A coisa da fragilidade, da frivolidade, o padrão de comportamento. Por isso, escrevi um livro para adolescentes (Eu Quero Ser Eu, 2014), com um discurso bem diferente, sobre a adolescente que eu gostaria de ter sido, e um livro que eu gostaria de ter lido quando eu era guria — conta.

O livro que mudou tudo para Clara chegou às suas mãos tarde, em 2008. O título Sangue sem Dono grafado na lombada chamou sua atenção em um sebo de Cuiabá. Na capa, a autoria revelada: Carmen da Silva. Pagou R$ 5 e levou o volume para casa.

— Fiquei maravilhada. Foi a primeira vez que me vi em um livro escrito por uma mulher. E foi bem gradual (assumir-se feminista). Fui atrás de outras coisas da Carmen e descobri que ela foi a mina que introduziu o feminismo na imprensa brasileira. Só que era uma coisa muito sutil. Ela falava para a mulher ser protagonista da própria vida e não coadjuvante da vida do homem. Falava sobre orgasmo, sobre questões que ninguém falava — conta.

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Carmen, jornalista de Rio Grande, morou parte da vida na Argentina e no Uruguai e galgou espaço como primeira colunista mulher da revista Cláudia em uma época em que o aconselhamento afetivo às donas de casa era feito por homens pouco sensíveis às “puerilidades femininas”. Carmen se somou à trinca John Fante, Charles Bukowski e Paulo Leminski, escritores formadores da Clara pré-feminista.
A rejeição que Clara despertava em parte dos leitores somou-se à desaprovação por ter passado a incorporar ideias feministas, criticadas tanto por detratores do movimento quanto por outras feministas. Rechaçavam sua presença em grandes canais de comunicação por ser “feminista midiática”.

— Desde o CardosOnline eu sou xingada. Sempre rolaram ofensas, tentativas de diminuir meu trabalho, dizer que eu era pior ali. Não porque eu usava a vida como matéria-prima, nada disso, e sim porque eu era mina. Cardoso fazia a mesma coisa, e ele era gênio. Eu fazia e aí era só uma vagabunda contando umas histórias. Então hoje, “Ah, os ataques”, filha, sou xingada desde 1998 — afirma.

Clara, ao longo do tempo em São Paulo, encontrou parceiras de causa de origens diversas, como a filósofa Djamila Ribeiro, a escritora de cordéis Jarid Arraes e “meninas do rap” de muitos Estados.

— Isso ajuda a gente a entender outros contextos, outras mulheres, outras demandas e discursos — argumenta.

Ela sabe que, apesar de muitas causas em comum, empoderamento feminino não é a mesma coisa para garotas brancas de classe média nas capitais e mulheres negras pobres que precisam casar cedo ou trabalhar para deixarem de ser um fardo para a família, por exemplo. Por isso, passou a ouvir um público mais amplo do que quando suas companhias eram só as amigas e cantoras de rock e jazz.

— Eu tinha uma perspectiva muito mais egocêntrica de tudo. Tem a ver com ser jovem, ser filha única, meu contexto facilitava. Falo muito, mas agora escuto mais — pondera.

Clara também diz que não quer ser conhecida somente por esse aspecto. Até porque, para ela, feminismo é obrigação, mas não é trabalho.

— A minha resposta para a pergunta “Você é feminista?” é: “Por que, você não é? Nossa!” – sintetiza.

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