Prêmio Donna: a esgrimista Mônica Santos transformou sua vida após se tornar cadeirante

(Foto: Mateus Bruxel)
(Foto: Mateus Bruxel)

Mônica da Silva Santos perdeu o chão em 2002. Até o dia em que tentou levantar da cama, e o joelho não sustentou o corpo, a vida aos 19 anos era tão feliz quanto pacata. Nasceu e cresceu em Santo Antônio da Patrulha, no Vale do Sinos, onde trabalhava na indústria calçadista. Ainda adolescente, colocou o par de olhos verdes em Angelo Claudeci Santos da Silva, amigo do irmão, e em pouco tempo estava casada. Há dois anos juntos, o casal tentava o primeiro filho.

De início, o marido não deu muita bola para o problema no joelho. Das duas, uma: ou seria lesão do futebol, que ela praticava duas vezes por semana, ou da bicicleta que usava para ir ao trabalho todos os dias. Mônica era assim mesmo, hiperativa e fã de esportes. Não devia ser nada de mais.

Mas a situação se agravava. Mônica deixava de andar e, aos poucos, perdia a sensibilidade dos membros. Em meio ao mar de preocupação, uma excelente notícia: Mônica estava grávida de cinco semanas. Por outro lado, os médicos não faziam ideia do porquê de ela estar perdendo os movimentos. Uma semana depois, ela seria internada no Hospital São Lucas da PUCRS onde ficaria por mais da metade da gestação, em busca de um diagnóstico.

Quatro meses depois, os médicos enfim solucionaram o enigma. Mônica era o único caso no Brasil de um angioma espinhal. Simplificando, trata-se de uma lesão que pressiona a medula. O quadro se agrava com a interrupção do fluxo menstrual. Por isso, na maioria das vezes, o angioma se manifesta na menopausa. Em Mônica, ocorreu em razão da primeira gravidez.

Mateus Bruxel

Foto: Mateus Bruxel

O prognóstico era de que a paciente voltaria a andar. Bastava interromper a gravidez e realizar uma cirurgia para descomprimir a medula. Do contrário, a situação evoluiria, podendo levar à tetraplegia ou à morte. Com os primeiros sinais físicos da gestação já evidentes, Mônica acariciou a barriga e tomou sua decisão:

– Decidi ter a minha filha. Até cinco meses os médicos podem interromper a gravidez se colocar a vida da mãe em risco. Era o que me aconselhavam. Mas não quis. Assinei um termo de responsabilidade e fui para casa.

Angelo não doura a pílula. Ele e o pai de Mônica relutaram, argumentaram… Custaram a entender, ainda mais porque os médicos se mostravam pessimistas sobre o andamento da gestação naquelas condições. Na pior das hipóteses, Mônica poderia perder o bebê e ainda agravar a lesão. Passados quase 14 anos, porém, Angelo compreende melhor a decisão da mulher:

– A verdade é que não se tinha certeza de nada, se ela poderia engravidar de novo depois ou a gravidade das sequelas. Ela decidiu ficar com o que tinha: a bebê na barriga.

Antes do parto, Mônica perderia o pai em um acidente de trabalho. A notícia a debilitou ainda mais, e Mônica ficou internada desde o oitavo mês de gravidez até o nascimento de Paola, em 1º de novembro de 2002. A cirurgia da coluna foi marcada para 40 dias depois, com prognósticos nada otimistas. O angioma pressionara demais a medula. Se saísse com vida da mesa de cirurgia, seria tetraplégica.

– Quando dei o primeiro banho na Paola, decidi que iria aproveitar cada minuto. O momento mais complicado foi entregar minha filha sem saber se eu voltaria a pegá-la nos braços.

Mônica acordou da cirurgia apenas ouvindo, sem enxergar ou falar nada. Sabia que estava viva, pois conseguia distinguir a voz de Angelo e os grunhidos de Paola escorada no seu colo, ainda sem qualquer sensibilidade. Com o liquor da medula totalmente seco, passou 12 dias sem qualquer movimento. Aos poucos, porém, contrariando as previsões mais otimistas, Mônica demonstrava sensibilidade nos braços. Estava “só” paraplégica.

Se 2002 foi de quedas, 2003 foi de conquistas. Sem jamais cultivar esperanças de voltar a andar – “Isso não existe”, ela decreta –, quis se adaptar o mais rápido possível à vida na cadeira de rodas. Ainda em janeiro daquele ano, foi atrás de uma habilitação para dirigir. Nos anos seguintes, não se contentou em adaptar a casa. Adaptou toda Santo Antônio da Patrulha:

– Muitos lugares não se adequam aos cadeirantes porque jamais pensaram nisso. Quem pensa em um cego quando passa por uma calçada malcuidada? Comecei a dizer: “Olha só, se você quer que eu continue a ser cliente, precisa ver essa porta aqui, aquele provador ali”. É meio polêmico dizer isso, mas a falta de acessibilidade às vezes é culpa dos cadeirantes que não a exigem. A gente não pode, em hipótese alguma, desistir e ficar em casa.

Daniela Battastini, DaniBat Fotografia, Divulgação

Mônica e a filha Paola, hoje com 13 anos. (Foto: Daniela Battastini, DaniBat Fotografia, Divulgação)

Por três anos, Mônica se dedicou a Paola e a se adaptar à vida sobre rodas. Ajudava o marido na oficina de motos até que bateu o tédio. Buscou modalidades de esportes para cadeirantes e descobriu, via Orkut, um time de basquete em Canoas. Procurou um perfil feminino entre os membros da comunidade e nada. Foi lá mesmo assim. Ganhou dos colegas o apelido que usa com orgulho nas redes sociais: Mônica Monstrinha. “Tem cara de anjo, mas na quadra é uma monstrinha”, diziam.

Não demorou para ela colocar os homens no banco. O empenho chamou a atenção de Jovane Guissone, que praticava basquete para melhorar o condicionamento físico e era atleta de esgrima – ele ganharia a medalha de ouro nos Jogos Paraolímpicos de Londres, em 2012. Hoje, treinam juntos no Grêmio Náutico União.

– Ela já nasceu vencedora. Só coloquei a mão no ombro dela e apontei para uma medalha – conta Jovane.

A Monstrinha ainda tentaria a sorte no tiro ao alvo, no tênis de mesa e na vela antes de se decidir pela espada. Com 20 dias de treino, Mônica conquistou sua primeira medalha, de bronze, e não parou mais. Tornou-se especialista no florete, a mais tática das três armas da esgrima, em que os competidores pontuam somente ao atingir o dorso do adversário. Desde outubro de 2010, integra a seleção brasileira. Em 2015, no Regional das Américas no Canadá, conquistou a primeira medalha de ouro da esgrima paraolímpica feminina em competições internacionais. Se repetir o feito em maio, em São Paulo, ganha vaga nas Paraolimpíadas do Rio. Como o país-sede conta com uma vaga masculina e uma feminina, Mônica provavelmente seria indicada de qualquer forma. Mas quer a vaga por mérito.

Em busca de patrocínio

Para Eduardo Nunes, treinador de Mônica na Associação de Servidores da Área de Segurança Portadores de Deficiência (Asasepode), os resultados da atleta são ainda mais expressivos do que parecem. Mônica disputa competições internacionais na categoria A, composta por esgrimistas sem lesões na coluna (em geral, amputados). Isso influencia em questões como a impulsão na cadeira. Mônica tem limitações físicas o suficiente para disputar na categoria B. Compete, portanto, em desvantagem. Como há poucas competições no Brasil para mulheres, Mônica foi nivelada por cima. Eduardo não é cadeirante. Mas rejeita o termo “normal” em oposição a ele:

– Acho horrível. Todos são normais, estejam ou não na cadeira. Por delicadeza, não costumo perguntar aos atletas como se tornaram cadeirantes. Só fui saber da história da Mônica um bom tempo depois. O que essa convivência nos ensina, isso sim, é a reclamar menos dos nossos problemas.

O empenho de Mônica impressiona também fora do ginásio. Para treinar, são 240 quilômetros de estrada, ida e volta de Santo Antônio da Patrulha, de segunda a sexta, desde as 7h30min, sem hora para terminar. Por mês, são entre R$ 1,8 mil e R$ 2 mil gastos só em combustível. Como esgrimista, sua única remuneração é um salário mínimo (R$ 880) do Bolsa Atleta, do governo federal. O GNU entra com a infraestrutura. Nas contas dela, para custear apenas alimentação e transporte, seriam necessários R$ 3 mil mensais. É o que ela pede todo janeiro, quando imprime 500 currículos e sai a pedir patrocínio. Até aqui, sem sucesso. Com a vaga às Paraolimpíadas assegurada, tem esperança de que o jogo vire.

Reclamar não é o forte de Mônica. Não hesita em afirmar que é mais feliz agora do que antes. O que aconteceu, acredita, serviu para mostrar quem a ama – “Acho que meu marido gosta de mim um pouquinho”, ela brinca – e para dar mais valor à vida. Quando ela e Angelo falam do relacionamento, as palavras saem quase idênticas:

– A gente aprendeu o significado verdadeiro de um abraço, de passar um aniversário juntos, de um “eu te amo”. Nunca é da boca para fora.

É irônico o quanto os horizontes de Mônica se ampliaram sobre a cadeira de rodas. Vez por outra ainda se surpreende com o que já fez. O Prêmio Donna Mulheres que Inspiram, conquistado no dia de seu aniversário de 33 anos, foi um deles:

– No meio da cerimônia eu pensava: “Gente, o que estou fazendo no meio dessa mulherada? Só tem fera.” Aí eu venci, olha só – ela ri.

Mônica recebe o Prêmio Donna Mulheres que Inspiram da diretora de redação de Zero Hora, Marta Gleich (Foto: Adriana Franciosi)

Mônica recebe o Prêmio Donna Mulheres que Inspiram da diretora de redação de Zero Hora, Marta Gleich (Foto: Adriana Franciosi)

Para custear treinos e a provável ida ao Rio, os amigos da cidade se engajam e organizam eventos, como um animado jantar-baile para 300 pessoas no feriadão de Páscoa. Amiga de Mônica desde criança, quando a Monstrinha brincava de ensinar os irmãos a voar do telhado de casa, a professora Elenita Ramos dos Santos observa o casal dar início ao baile gaudério. Angelo acompanha a esposa pela mão até o centro do salão. Com a mão esquerda, conduz a dança. Com a direita ela movimenta a roda no ritmo da vaneira. Logo o salão está tomado. Um trenzinho misturando rodas e pernas passa rente a Elenita, que comenta:

– Mônica é uma guerreira.

Empunhar uma espada, aqui, é mero detalhe.

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