Prestes a voltar aos palcos de Porto Alegre, Denise Fraga reflete sobre o quanto estamos dispostos a fazer concessões

Dois temas mobilizam Denise Fraga. Quem a acompanha nos palcos pode adivinhar um deles: o dramaturgo alemão Bertolt Brecht (1898 – 1956) e seu lema de divertir para comunicar. O segundo é quantas concessões nos sentimos compelidos a fazer no dia a dia. Essa é a discussão que atravessa a peça Galileu Galilei (adivinha da autoria de quem?), que ela traz mais uma vez a Porto Alegre, de 24 a 26 de junho. A atriz interpreta o personagem-título, o cientista italiano (1564 – 1642) perseguido pela Santa Inquisição por afirmar que o Sol é o centro do universo e a Terra gira em torno dele – até ser obrigado a negar suas ideias.

– Somos todos galileus, negamos nossas verdades cotidianas para não ir para a fogueira. Tudo se justifica pelo dinheiro, para manter o emprego, o leite das crianças… Você sempre se vende um pouco, o problema é até onde – afirma Denise, em entrevista por telefone, do Rio.

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A atriz de 51 anos é conhecida pelo humor e por buscar a beleza e a graça da vida cotidiana, como fez por anos na série Retrato Falado e faz em 3 Teresas, com nova temporada à vista no GNT. Em De onde eu te vejo, seu mais recente filme “com áreas de comédia romântica mas que leva a outras profundezas”, narrou a saga de uma separação.

– Foi uma grata surpresa ver o filme manter-se em cartaz por sete semanas em São Paulo, quando a maioria das produções não passa de três. Tivemos uma repercussão muito boa. Agora, vai para TV, festivais, serviços on demand. Hoje, com a internet, um filme não acaba nunca – avalia a atriz, que estará na novela A lei do amor, substituta de Velho Chico.

Na entrevista a seguir, Denise brinca que Galileu Galilei parece quase uma peça encomendada para a atual situação política do país, comenta o movimento feminino (e feminista) e faz um convite: contra radicalismos, reflexão e leveza!

Donna – Galileu Galilei nos provoca a pensar Que concessões estamos dispostos a fazer. Uma boa discussão neste momento político no Brasil.

Denise Fraga – A peça sempre será atual em qualquer momento em que for montada. Mas deixou de ser só atual para ser propícia: fomos apresentá-la em Brasília e parecia uma peça encomendada. Mas, às vezes, fico reticente em falar disso, porque a discussão é tão maior. Esta é a única biografia que Brecht escreveu, acho que ele se sentiu como Galileu em alguns momentos da vida, tendo que lidar com estruturas de poder, fazer concessões que muitas vezes não queremos, mas precisamos. Nossos governantes venderam a alma. Mas precisamos ter a capacidade de ponderar e ver que armas temos. De alguma maneira, há algo muito importante: as pessoas estão manifestando suas posições políticas. Mas perdemos uma superoportunidade em um Fla-Flu esquisitíssimo: nos dividimos em dois lados quando temos muita coisa que nos une.

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Donna – Como você vê o movimento das mulheres que vem ganhando cada vez mais força?

Denise Com todo esse movimento das mulheres, esta coisa de o Galileu feito por uma mulher. Em nenhum momento pensei nisso como o mote da peça. No entanto, os últimos acontecimentos deram atualidade ao espetáculo inclusive nesse aspecto. Estou achando lindas essas múltiplas lutas e esses movimentos que estão se formando. Mas uma das grandes doenças crônicas da internet é a efemeridade, as coisas parecem que passam muito rápido. Fico me perguntando: cadê o pessoal do (movimento) Passe Livre? Cadê o pessoal (das mobilizações) de junho? Tudo se espalha, cria novas células, é muito rápido. Isso me dá um pouco de aflição. Então, rezo pela vida longa dessas hashtags (como #primeiroassédio, #vamosjuntas).

Donna – Qual mais toca você?

Denise Acho que #senãovocêquem?. Das feministas, o #vamosjuntas. Essa coisa da companhia física que as meninas criaram é prática, mas simbolicamente muito importante: saber onde estamos, admitir que, às vezes, sentimos medo, nos sentimos fragilizadas. Tem gente que teme dizer que se sente fragilizada porque a outra pode achar que ela é machista. Mas temos que endurecer sem perder a ternura jamais. E temos de cuidar para não ter essa polícia de vírgula, mesmo entre amigos, apontando um escorregão que pode soar machista, por exemplo. Como diz Galileu, no espetáculo, “Pensar é um dos maiores prazeres da raça humana”.

Ou isso ou a gente se perde em radicalismos nesse mar das redes sociais e da internet e aduba a intolerância. Temos que alargar o pensamento. Com leveza, tudo é melhor.

A atriz interpreta o cientista italiano, que foi perseguido pela Santa Inquisição por afirmar que Sol era o centro do Universo

A atriz interpreta o cientista italiano, que foi perseguido pela Santa Inquisição por afirmar que Sol era o centro do Universo

Donna – Muitas atrizes se queixam da falta de bons papéis para mulheres. Qual a sua opinião?

Denise  Não senti até agora, porque em teatro faço os meus projetos. Temos uma profusão de textos da dramaturgia, muitas histórias para contar. Meus últimos papéis no teatro não eram para mim, a princípio, mas fiz. Na televisão e no nosso cinema, é difícil achar muitas protagonistas mulheres, especialmente de 40 a 60 anos, parece que os grandes papéis têm uma idade… Mas acho que você cria (oportunidades) quando se autoproduz.

Donna – Como foi, para você, o marco dos 50 anos?

Denise É meio século, é? Dá um susto, você se sente no pico de uma curva qualquer, tem medo de ladeira… Mas, vou te falar, tenho tanta coisa para fazer nessa vida (risos)! Sempre digo que você acaba sendo ator porque uma vida só não basta, quer ser muitos. Tenho ainda um monte de coisas para fazer. E faço ginástica, cuido da minha alimentação, corro atrás, porque essa é uma profissão linda e que não tem idade para acabar. Eu me cuido para me sentar no chão com os meus netos, para estar no palco.

“GALILEU GALILEI”
Com direção artística de Cibele Forjaz, o espetáculo estará em cartaz de 24 a 26 de junho, no Theatro São Pedro, em Porto Alegre. Ingressos de R$ 40 a R$ 70, com desconto de 50% para sócio do Clube do Assinante e acompanhante

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