Rogéria, “a travesti da família brasileira”, conta sua vida em biografia

Crédito: Pedro Curi
Crédito: Pedro Curi

Rossana Silva, Especial

Rogéria muda o tom de voz ao telefone quando descobre que a interlocutora fala desde Porto
Alegre. É o mote para revelar a saudade da Rua da Praia dos anos 1960 e declarar seu amor à
Capital, cidade que gostava muito de visitar na época em que emendou turnês por todo o Brasil, antes de começar a aproximação com a TV.

A autointitulada “travesti da família brasileira” é uma criação do artista Astolfo Barroso Pinto, 73 anos, que agora conta suas memórias no livro Rogéria — Uma mulher e mais um pouco (Editora Sextante). Em 272 páginas, nas quais a narrativa do autor Marcio Paschoal é intercalada com trechos em primeira pessoa, criador e personagem se fundem para registrar a história de um dos personagens mais transgressores da cena artística brasileira. Astolfo nasceu em Cantagalo, no Rio, em 1943. No início dos anos 1960, adotou o nome de Rogério e começou a trabalhar como maquiador das estrelas da época. Entre as clientes, estava a atriz Fernanda Montenegro, uma das principais incentivadoras para que ele subisse ao palco. A transição dos pincéis para os holofotes ocorreu depois que, vestida de espartilho, cinta-liga e salto alto, foi aclamada como Rogéria pelo público ao vencer um concurso de fantasias no Carnaval de 1964. O livro percorre os 52 anos da personagem Rogéria, mas também a vida de Astolfo desde a infância, o apoio fundamental da mãe e a sexualidade.

Na entrevista a seguir, Rogéria pode se definir como homem e mulher em uma mesma frase. Não é erro de digitação. Estrelíssima Rogéria Astolfo Barroso Pinto — como se denomina nas redes sociais — transita com naturalidade entre os gêneros e diz ser bem resolvida em relação à sexualidade.

Qual a diferença da época em que você começou a carreira, nos anos 1960, para agora? O Brasil está mais careta?
Claro. E olha que tinha ditadura, hein? Não me meti com a ditadura porque eu era um homem vestido de mulher, transgressora. Todo mundo teve de sair, até Caetano, mas fez as
músicas dele. Depois dessa democracia para cá, o negócio foi degringolando, a igreja atacando… E hoje não pode mais fazer nada. Agora, no Enem, todo mundo vendeu notas,
que coisa horrorosa. Sou de uma época na qual havia colégio público e respeitava-se a professora. Hoje, houve uma regressão total.

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No filme O gigante da América (1978), de Julio Bressane (Foto: Acervo Cezar Sepúlveda, divulgação)

Como é ser a “travesti da família brasileira”?
Eu sou a travesti da família brasileira mesmo, o cara que é honesto, é artista, e se veste de mulher querendo parecer mulher. Mas uma senhora me parou na rua e disse que não gostava quando me chamavam assim, porque eu era a artista da família brasileira, não a travesti. Aí, com a coisa do transgênero, queriam até que eu mudasse meu nome de homem para mulher. Eu disse, “Ah não, querida, a bandeira desse Brasil sou eu!”. Então, agora, no Instagram e no Facebook, sou Estrelíssima Rogéria Astolfo Barroso Pinto.

Mas você já disse que suas redes sociais são as ruas.
Sim, porque todo mundo me aborda. E eu paro, pois tenho disposição. Se saio de casa no Rio, as pessoas estão sempre me parando, tiro selfies, as senhoras me dão crianças para segurar… É muito carinho, um privilégio.

Você nunca quis fazer a cirurgia de redesignação sexual?
Não tenho problema de ser gay, de ser homem, de ser mulher. É uma alegria! Se viesse uma fada e dissesse “Daqui a cinco minutos você vai virar mulher”, eu diria: “Não! Deixa eu estar como estou”. Não quero ter problemas de mulher. Quero ser amiga delas e agradecê-las por estar no mundo, porque saí de dentro de uma mulher. Essas coisas são muito bem resolvidas para mim sem precisar de Freud, Lacan, nada disso. Eu mesma entro dentro de mim e faço uma terapia fortíssima. Até na religião sou bem resolvida. Não adianta pastor querer vir falar alguma coisa que vou dizer: “Sai daqui, querida!”. Já encontrei Jesus desde muito jovenzinho, minha mãe me ensinou a rezar e tenho milagres, mil deles, comigo. Porque essa vida de homem vestido de mulher viajando pelo mundo, ser estrela no Brasil e depois ter de fazer testes na Europa… só com a graça de Deus com a Virgem Maria. E sou filho de Iansã e Ogum, ainda por cima.

Você é católica?
Sou catolicíssima. Católica filha de Iansã com Ogum. Aí você vai dizer: “mas é uma incoerência”. Sou católica e tenho um lado espiritual, mas sou São Tomé, preciso sentir. Fui na
casa de uma amiga da minha mãe que fez uma imantação, com frutas e comida, para
a minha Iansã. Eu estava olhando, achando muito bonito, mas sem sentir nada. Foi quando, de
repente, o sofá virou comigo, eu perdi os sentidos e dei um grito. Minha mãe veio, olhou para
mim e disse: “Ela já esteve aqui”. Era Iansã. Precisei que minha mãe me desse um toque. Sinto
minhas santas e quando faço minhas orações tenho uma alegria no coração, e às vezes até uma lágrima de felicidade. A felicidade da oração. Eu encontrei Deus muito cedo.

Você vai à missa?
Claro! Vou na Igreja Nossa Senhora do Rosário. Às vezes, preciso de uma missa para tirar
um olho de cima de mim, preciso escutar o padre falar. Mas tudo o que ele fala eu já sei,
porque mamãe me falava desde pequeno. Você sabe que Jesus é vida. E mesmo que eu não reze, tenho uma ligação com ele o tempo todo.

E como a Rogéria e o Astolfo se dividem em um mesmo corpo?
Tem gente que não gosta que eu diga que me sinto bem na pele de homem. A Rogéria é uma performance de Astolfo. Não vou dizer que sou uma mulher. Quando voltei de Paris, todo mundo achou que eu estava operada, foi um escândalo. Descobri aquele cabelo em Paris, descobri que era ascendente em Leão e que tinha o cabelo do meu pai _ ele sempre teve muito cabelo. Em Paris, emagreci e o cabelo cresceu. Adoro parecer mulher, e rica! Isso tudo é criação da cabeça de um rapaz chamado Astolfo Barroso Pinto.

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Rogéria como vede no show As pussy pussy cats (Foto: Acervo Cezar Sepúlveda, divulgação)

Como era a Porto Alegre que vivenciaste?
Uma delícia! Em plena ditadura, e eu não me metia, porque era um homem vestido de mulher,
transgressora. Conheci Porto Alegre em 1965. Tinha recém voltado de Paris, e era a cidade
onde eu mais gostava de ir. A Rua da Praia tinha boutiques maravilhosas por todos os lados, o
Café das Bruxas… E as pessoas me chamavam, todo mundo sabia que eu era a Rogéria, fiz
temporadas no Teatro Presidente, que depois virou igreja. Tenho muito carinho por todo o
Estado. Bagé, que frio! Eu falei: “Gaúchos, cadê a calefação?”. Sofri muito no inverno, mas
que povo maravilhoso! Eu amo os gaúchos. Pena que está acontecendo toda essa situação
de violência, mas não é só aí, é no mundo todo. Você não viu o (Donald) Trump hoje nos Estados Unidos?

No seu livro, você diz jamais haver votado. Como recebe a notícia do Trump?
Nosso Senhor não vai descer nesse mundo imundo. Os homens vão acabar com o planeta. Qualquer dia, um desses aperta o botão e destrói tudo. Ele é ridículo! Sou geminiana como ele, mas o olho e não vejo nada de geminiano ali. Quer dizer, vejo a garra, como eu. Mas ele é grosso, cafona. Ai, não! É um retrocesso não só no Brasil, no mundo todo. Depois de (Barack) Obama, o mais chique, o mais fino presidente da América, entra esse cara horroroso e a gente tem de suportar. Mas aí eu digo: “Você já está com 73 anos, querida”. Se tivesse 19 anos, hoje, eu estaria arrasada.

O livro

ROGÉRIA – UMA MULHER E MAIS UM POUCO
De Marcio Paschoal, editora Sextante, 272 páginas.Preços:
R$ 44,90 (impresso) e R$ 24,90 (digital)

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