Roqueira e agora mãe e apresentadora, Pitty afirma em entrevista: “Meu ato revolucionário foi fazer o que realmente quero”

Autorretrato de Pitty
Autorretrato de Pitty

Cantora, compositora, escrevedora, apresentadora e o que mais a vida trouxer. Assim a cantora e compositora Pitty se define em seu perfil no Twitter. E, quando ela menos esperava, os caminhos nem sempre retos de sua vida lhe deram Madalena. Prestes a completar um ano no próximo mês, a filha parece ter vindo para coroar o período de renascimento que a roqueira baiana atravessa depois de anos turbulentos – que incluem, como ela mesma diz, uma “quase morte”.

Aos 39 anos, Pitty se desdobra para voltar, ainda que aos poucos, à vida de rockstar. Mas, agora, acumula papéis: além da maternidade, os últimos meses lhe renderam mais um desafio daqueles. Toda quarta-feira, Pitty é uma das quatro mulheres a sentar no sofá roxo do programa Saia Justa, atração do canal por assinatura GNT. A cantora entrou para o time de “saias” neste ano, juntamente com a atriz Taís Araújo, completando o time formado por Astrid Fontenelle e Mônica Martelli. Na pauta do quarteto, que agora debate ao vivo, temas caros às mulheres como feminismo, violência e política – tudo a ver com o discurso engajado e girl power das canções de Pitty.

— Para mim, (os temas sobre os quais falo) são simplesmente tão óbvios, tão o que tem que ser mesmo. Acho que luto por coisas que são naturais e justas: igualdade, respeito, harmonia. Oportunidade para que possamos crescer e nos relacionar de forma mais saudável. Eu acho que a causa é que escolhe a gente, na verdade. Pelo que é valor para você, pelo que lhe é importante, pelo que te ocupa a mente e o coração e não te deixa descansar enquanto se sentir omisso — explica, em entrevista a Donna por e-mail.

pittycapa

Foto: Jorge Bispo, Especial

Se agora Pitty vive um momento de energias renovadas com a família e novidades mil na carreira, é porque superou perrengues daqueles nos últimos anos. A perda do guitarrista e amigo Peu Sousa, que se suicidou em 2013, veio logo após um período em que a cantora teve de ser internada na UTI por conta de uma disfunção hormonal que quase lhe tirou a vida. “Era um mar vermelho, me arrastando do quarto pro banheiro”, canta na autobiográfica Setevidas, faixa-título de seu último disco em estúdio, de 2014.

Mas é a solar Dê um Rolê, última música de trabalho de Pitty, que parece traduzir o momento presente da cantora. “Não se assuste, pessoa, se eu lhe disser que a vida é boa”, entoa, na sua versão de um dos clássicos dos Novos Baianos, uma de suas bandas preferidas. É assim, com otimismo e mais força do que nunca, que Pitty retoma nos palcos seu lugar como a maior artista feminina do rock nacional contemporâneo. O show de reestreia, no festival João Rock, em junho, foi o primeiro desde o final de 2015, quando se precisou se afastar do microfone por conta da gestação delicada.

— A saudade de estar no palco era muito grande. Eu existo e me sinto mais completa quando estou ali, com aquelas pessoas, cantando — conta ela.

Para comemorar o Dia Mundial do Rock, no próximo dia 13, Donna bateu um papo com Pitty sobre o momento da carreira, a representação feminina na cena roqueira, maternidade e as lutas das mulheres.

Com vocês, Pitty!

Mais entrevistas de Donna
:: Alexandre Herchcovitch fala sobre a parceria com o marido na marca À La Garçonne, filhos e liberdade criativa
:: Às vésperas de show na Capital, Maria Gadú fala sobre família, feminismo e política
::  Dudu Bertholini afirma: “A moda está aqui para que a gente se ame e não julgue as pessoas”
:: Estilista Ronaldo Fraga fala sobre o papel da moda e exposição que inaugura em POA

Superfeliz e a mil!

Você está voltando aos poucos aos palcos depois de ter dado à luz a Madalena. Como é esse momento de retorno e o reencontro com o público?
É bastante feliz e reflexivo. No meio desse turbilhão todo de readaptação, tenho tentado encontrar tempo para observar as mudanças, os sentimentos, as vontades. Mas a saudade de estar no palco era muito grande, eu não consigo ficar muito tempo longe. Eu existo e me sinto mais completa quando estou ali, com aquelas pessoas, cantando.

Recentemente, você disse que queria ver mais mulheres passando pelo palco. Como vê a representação feminina no rock? Que dificuldades elas ainda enfrentam? E, para você, como foi aprender a se impor em um meio ainda majoritariamente masculino?
Passei por muitas fases, sempre lidando com as possibilidades de cada época e circunstância. Aprendendo a jogar com as oportunidades e tentando driblar as limitações. Nós temos aqui, muito forte, a figura da diva, da intérprete – normalmente se pensa em cantora brasileira e se vê essa imagem. E acho que, nesse processo, o importante tem sido buscar o fortalecimento da mulher que escreve, que compõe, que lidera uma banda, que toca um instrumento; enfim, que protagoniza em vez de simplesmente interpretar as palavras de outra pessoa. Fortalecer a questão do autoral ajuda nisso.

 


Os últimos meses foram bem movimentados para você, não é? A chegada da Madalena, a estreia no sofá do Saia Justa e agora o retorno aos palcos. Sente-se realizada? Como você avalia este momento de vida?

O momento está ótimo, e eu me sinto superfeliz de estar fazendo mil coisas, mas o tempo está escasso demais! (risos) Ando bem doidinha com essa história de tentar encaixar tudo, e acaba não sobrando tempo para mim. Ando tentando abrir espaço para todas as coisas, e principalmente para estar com a minha filha. Mas, ao mesmo tempo, preciso trabalhar e também fazer um exercício, me cuidar, senão a gente não aguenta, né? Acho é que eu estou naquela situação de toda mãe que trabalha: tentando fazer 24 horas virarem 36. (risos)

Você já falou sobre a idealização da maternidade. Você já sentiu cobrada?
Já sim, claro. Quem nunca? (risos) Por mim e pelo que “tem que ser”. Por esse padrão idealizado que coloca a gente contra a parede o tempo todo. É uma constante avaliação e tentativa de se desvencilhar desse sentimento de cobrança. Eu, pessoalmente, também sou muito perfeccionista, então me cobro muito mesmo.

?

Uma publicação compartilhada por ⚡️PITTY⚡️ (@pitty) em


Em fevereiro, você encarou o desafio de virar uma das apresentadoras do Saia Justa. O que você está achando dessa nova empreitada?

Eu tô amando. É demais essa possibilidade de toda semana aprender algo novo e debater sobre tantas coisas diferentes.

É uma grande responsabilidade falar de temas tão importantes em um momento em que as mulheres estão buscando mais espaço e se fazendo ouvir. Como é esse papel para você?
O papel é uma coisa natural, somos apenas nós conversando. E tem que ser dessa forma, bem humano mesmo, porque se propõe a falar sobre as coisas de todas nós. Eu me preparo com bastante cuidado, procuro ler e pesquisar tudo a respeito dos assuntos, busco referências para estar o mais embasada possível.

download

Dos temas caros às mulheres que vocês abordam no Saia Justa, qual teve uma repercussão que surpreendeu você? E qual assunto vocês ainda não abordaram e você julga importante levar para debate?
Tudo o que se refere à política e direitos das mulheres tem uma repercussão grande, o que é ótimo, prova que as pessoas estão interessadas nesses assuntos. Um dos programas mais comentados foi no dia em que o presidente Temer declarou que as mulheres só sabiam de economia por causa dos preços do supermercado. Estávamos nos preparando para entrar no ar, e claro que isso entrou no editorial do dia. O fato de o programa ser ao vivo traz essa quentura do momento da notícia e há a oportunidade de botar isso na roda. Acho importante falar sobre recortes, sobre particularidades de raça, credos, situação financeira de cada mulher. Sobre violência, sobre assédio. E também sobre autoestima, moda, construção estética de cada uma.

pittyeosaia

Pitty ao lado de Mônica Martelli, Taís Araújo e Astrid Fontenelle no sofá do Saia Justa


Como toda mulher, você provavelmente já enfrentou episódios de machismo. De que forma lida com isso?

Acho que todas nós lidamos, em diferentes escalas e situações, e reagimos do jeito que podemos e sabemos no momento. Às vezes, a coisa nos pega tão de surpresa que a gente fica até sem ação. Em outras vezes, a gente está forte e alerta o suficiente para se posicionar. Acho que o interessante é sempre buscar uma rede de proteção que te ajude a lidar com essas situações – amigas, mãe, tias, outras mulheres e pessoas que podem te apoiar. E com isso tentar evitar essa situação de vulnerabilidade. Eu lido dessa forma, conversando, propondo diálogos, me juntando com outras mulheres. E, pessoalmente, de forma bem combativa quando acontece comigo. Mas tenho condição de agir dessa forma porque hoje estou mais protegida do que a maioria. Acho que a luta é para estender essa proteção e esse empoderamento para todas as mulheres.

No documentário que acompanha seu último DVD, você diz em um show que não gosta de ser chamada de gostosa e explica o porquê de ter se sentido incomodada. Por que esse tipo de situação ainda acontece hoje em dia?
Porque é cultural, é naturalizado que as mulheres sejam tratadas de forma objetificada. E, principalmente, que não possam se opor a isso. Há nesse ato o viés torto de significar elogio, gracejo, agrado. E, sim, algumas podem realmente curtir esse lance, e tudo bem. O importante é respeitar as que não se sentem bem com isso, e que isso possa ser dito numa boa.


E como você se “descobriu” feminista?

Quando percebi que desde cedo eu já me posicionava a favor da igualdade de gênero, que já buscava o meu espaço e meus direitos como mulher e que isso tinha nome.

Para a nova campanha da Avon, você posou de lingerie enquanto canta uma celebração à autoestima e ao amor próprio. Qual a importância para você de incentivar as mulheres a não ter vergonha do próprio corpo? Como foi fazer esse trabalho?
Foi difícil. Eu tive que realmente entrar em contato com esse empoderamento pessoal para me expor dessa forma. Tive meus momentos de insegurança, tinha acabado de parir, os peitos ainda cheios de leite… um corpo novo, que ainda estou conhecendo e aprendendo a lidar. E foi muito bom por esse lado, por ser um pé na porta nesse sentido. Não acho que sou diferente de muitas, talvez a maioria, que passa por esse sentimento de sofrer por não estar bem com o próprio corpo às vezes, e que tenta não ceder à um padrão irreal.


No Twitter, você já escreveu que “gosta de moda, maquiagem, sapato E filosofia, literatura, feminismo, cinema e política”. Como lida e responde a pressões sobre o que são “coisas de mulher”?

Com o tempo fui entendendo que eu mesma tinha um preconceito em relação a isso tudo. Por causa do estereótipo, do que é esperado de uma mulher, de um comportamento padrão. Sempre quis subverter esse padrão e botar isso tudo de cabeça pra baixo. Mas em um determinado momento percebi que essa atitude tinha deixado de ser um protesto motivado por vontade e virou uma outra convenção, a de não poder fazer coisas ditas “de mulher” para não ser vista como frágil. Era uma prisão do mesmo jeito. E aí meu ato revolucionário pessoal em relação a isso foi refletir e ter consciência dos meus desejos, fazer o que eu realmente tenho vontade, e descobrir que a força está nisso.

Você se apresentou em um evento que pede eleições diretas. Como você vê seu papel enquanto cidadã e artista neste momento do país?
Nesse ponto, me vejo mais como cidadã do que qualquer outra coisa. Mas sem ingenuidade, uma cidadã com um microfone nas mãos, que pode falar para mais pessoas. Então, procuro usar essa voz e essa oportunidade para convidar as pessoas a refletir sobre tudo o que está acontecendo e a entender o quanto isso é essencial para nosso cotidiano. Existir é um ato político. Não precisa, necessariamente, ser partidário ou institucional. Mas tudo é política. Se você para pra observar que todas as relações humanas se realizam a partir de jogos de poder, vai perceber que tudo é política. Viver em sociedade é fazer política no dia a dia, na sua rua, na sua comunidade; e nós somos animais que não somente vivem, mas principalmente convivem. Quando se percebe isso e o potencial disso, fica difícil lavar as mãos em relação a essa responsabilidade enquanto cidadão.

Neste mês você lança a música Na Pele, ao lado de Elza Soares. Como foi gravar esta parceria? O que pode nos adiantar de outros projetos?
Sempre tive vontade de fazer algo com Elza, é uma mulher e artista que admiro demais. E o universo conspirou para que fosse nesse momento. Eu enviei uma música para ela, para que fizesse o que quisesse, e ela propôs que gravássemos juntas. Fiquei honrada, obviamente,
e nos jogamos nessa aventura. Na Pele é uma música densa, que tinha que ser cantada por alguém com a história de vida e a bagagem que ela tem.

que dia lindo ??@elzasoaresoficial

Uma publicação compartilhada por ⚡️PITTY⚡️ (@pitty) em


E quem são suas grandes referências, as mulheres que te inspiram?

Muitas! De Simone de Beauvoir a Alison Mosshart, passando por Nina Simone, Dolores Duran, Rita Lee, Elis Regina e as minhas amigas que são mães e trabalham fora.

Fica a dica, por Pitty

A cantora indica o trabalho de mulheres que admira. Veja quem são:

Literatura: Chimamanda Ngozi Adichie e Marcia Tiburi

Música: Tássia Reis e Flora Matos

Cinema: Leandra Leal, com seu novo filme Divinas Divas. “Tem que ver!”

Moda: Layana Thomaz e Maíra Nascimento

pittyauto

Leia mais
Comente

Hot no Donna