Thalita Rebouças: o espírito adolescente da maior escritora teen do Brasil, que lança livro na Feira de Porto Alegre

Você não gosta de mim, mas sua filha gosta. No caso da escritora Thalita Rebouças, a canção de Chico Buarque (Jorge Maravilha, escrita um ano antes de ela nascer, em 1973) talvez precisasse ser alterada e de acordo com ela mesma:

— Os pais são sempre muito bacanas comigo, às vezes acho que eles gostam mais de mim do que os adolescentes. (risos) Eles ficam muito felizes por ver os filhos lendo.

Acompanhada da gargalhada característica da morena de olhos verdes e sotaque carioquíssimo, a frase não é exagero – nem teria como ser em face à impressionante cifra de 1,4 milhão de livros vendidos (a saber, os sete volumes da série Harry Potter, megaestouro mundial da britânica J.K. Rowling, venderam 4 milhões no Brasil). Às vésperas de completar 40 anos, no próximo dia 10 de novembro, a escritora mais fofa e animada do Brasil (também segundo ela mesma) contabiliza 14 anos de uma carreira que vai muito além dos 19 livros lançados – a maioria best-sellers também em Portugal, e este ano enfim percorrendo a América Latina, com traduções em espanhol. O fenômeno se espraia pela presença do rosto sorridente e da fala animada da carioca em uma série de vídeos no YouTube (Culinária Atolada, em que a autora prepara guloseimas ao lado de fãs e amigos) e programas de TV – já teve quadro no Video Show e no Fantástico, da Globo, apresentou um reality show de namorico entre adolescentes chamado Desencalha, no Multishow, e participa quinzenalmente do Bolsa Redonda, no Esporte Espetacular, da Globo. Sem contar a participação ativa e “pitaquenta”, segundo a própria, por trás das adaptações de suas obras para o teatro e o cinema. Depois de duas peças (Fala Sério, Mãe, em 2007; e Tudo Por um Pop Star – O Musical, que estreou este ano), atualmente três filmes baseados em livros de Thalita estão em produção (Ela Disse, Ele Disse; Uma Fada Veio me Visitar; e Tudo Por um Namorado) – e o quarto acaba de ser encaminhado: Thalita assinou há poucos dias com o diretor Pedro Vasconcellos para adaptar Fala Sério, Mãe, agora para a telona.

Veja outros vídeos da série Culinária Atolada 

E então, dá pra dizer que a gente exagera ao chamá-la de fenômeno? Ainda que boa parte da crítica literária tradicional considere suas histórias pobres, a carioca tem um trunfo e tanto em mãos. Num país que adora se autodefinir como “uma nação de não leitores” e justamente entre os adolescentes, que tantos adultos curtem tachar como “alienados”, a escritora não apenas encanta pela beleza ou pela empatia: Thalita faz ler. E quem pode torcer o nariz para isso?

— Muitas leitoras me dizem isso, que passaram a gostar de ler com os meus livros. E isso é maravilhoso, eu tenho a maior sensação de dever cumprido — comemora.

No próximo domingo, dia 2 de novembro, o palco das filas infinitas de meninas de olhos marejados atrás dos abraços e beijos estalados em bochechas e páginas de rosto de livros será a Feira do Livro de Porto Alegre. Às 17h, Thalita conversa com os leitores dentro do projeto O Autor no Palco, no Teatro Sancho Pança, na Área Infantil e Juvenil, no Cais do Porto; em seguida, às 20h, autografa seu novo livro, 360 Dias de Sucesso, na Praça de Autógrafos, na área central da Praça da Alfândega.

— Desde a primeira vez que fui (à Feira, em 2009) fiquei apaixonada, e sempre que eu vou é uma coisa linda — derrete-se.

Marcada para uma sexta-feira de chuva em Porto Alegre e engarrafamento no Rio, minha conversa com Thalita ao telefone teve um atraso de mais de uma hora – em que não pude tirar da cabeça a delicada ironia de ter sido alfabetizada com uma cartilha chamada O Sonho de Talita. E foi atrás dos sonhos e do lado mulher da guria-agora-quase-quarentona Thalita que bati com a escritora o papo a seguir.

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Donna – Às vésperas dos teus 40 anos, qual tua relação com a idade? Essa mudança para a casa dos “enta” te afeta?
Thalita Rebouças – Por enquanto, não. Acho que, como eu já tive a crise dos 30, não vou ter a dos 40. Nunca fui tão feliz, tão plena, nunca me senti tão bem com meu espelho. Isso só mesmo os “enta” trazem. E os “enta” vêm pra ficar, né, então a gente tem que gostar (risos).

Donna – E como foi essa crise dos 30?
Thalita – Ah, foi chato, uma crise existencial. Fui pra dentro do poço, lá no fundo. Foi punk e envolveu tudo: vida, trabalho. Mas passou. Minhas crises passam rápido, graças a Deus.

Donna – Talvez por causa das tuas personagens, muita gente tem uma ideia de ti como uma eterna adolescente Como funciona na prática para manter essa linha “aqui eu sou adulta”, “aqui eu sou adolescente”?
Thalita – Por eu ser mignon e ter um jeito de menina, muito alegre, as pessoas até acham que eu sou uma menina mesmo, que eu não sou uma adulta – mas eu super sou adulta! (risos) Quando eu sento ao computador para escrever, viro uma menina de 13, 14 anos. E a mulher, a jornalista, é que edita. Eu tenho isso bem claro na minha cabeça: é a menina que escreve e, quando vou revisar, é a jornalista de quase 40. E no resto do dia eu sou sempre mulher.

Donna – Tu és uma mulher escrevendo para meninas: isso rejuvenesce?
Thalita – Eu tenho um jeito brincalhão, e isso traz uma leveza que talvez me faça parecer mais nova do que outras mulheres de 40 anos. E também estou há tanto tempo trabalhando com essa galerinha, que é muito leve e tem uma pureza que me encanta. Eu estou quase sempre empolgada, tagarelando, ouvindo música, dançando pela casa. Eu corro sorrindo, fico tão feliz correndo que realmente eu sorrio. E é ótimo, dizem até que ajuda com as rugas, para a pele do rosto não cair (risos). Eu sou uma mulher todo o tempo em que não estou escrevendo, mas uma mulher feliz. Talvez isso confunda um pouco as pessoas, faça com que elas achem que eu sou meio adolescente. Mas não sou – eu sou só feliz. (risos)

Donna – Existe uma pressão em escrever para essa “galerinha”, em plena formação de suas personalidades?
Thalita – Não digo pressão, porque é uma palavra muito pesada, mas eu sinto uma responsabilidade. Por exemplo, eu não coloco palavrão nos meus livros. Acho que é desnecessário. Uma vez eu estava em um evento com o Moacyr Scliar e ele falou: “Ah, mas nada substitui um merda, Thalita!”. Eu falei: “Ai, desculpa, mas eu não consigo!”. (gargalhadas) É uma coisa que me agride tanto ver adolescente falando palavrão, então no meu livro não vai ter palavrão. Pode ter coisas engraçadas, gírias, pode ter um “lindo, tesão, bonito e gostosão” (risos), mas não vai ter coisas agressivas. Tento abordar assuntos do cotidiano deles de uma forma que faça com que eles pensem. Nunca quero passar liçãozinha de moral: gosto que eles reflitam.

Donna – O que é um equilíbrio delicado, especialmente com adolescentes.
Thalita – Pois é, porque senão eles me acham a tia chata. E o dia em que eles me acharem a tia chata eu estou acabada! (risos) No livro que vou lançar aí na Feira, 360 Dias de Sucesso, pela primeira vez tem um menino narrando a história e pela primeira vez eu falo de um problema com álcool. Não é um livro sobre alcoolismo, eu jamais faria um livro sobre drogas. Mas um dos personagens flerta com a bebida. Sempre quis que, se um dia eu escrevesse sobre isso, fosse de maneira leve – e eu achava que não tinha como ter leveza em um assunto tão sério. Mas acabei conseguindo, e gostei de falar disso porque acho que a grande droga de hoje para os adolescentes é a bebida – para perder a timidez, para ficar com as pessoas, para se aproximar. E a bebida é um risco. E é triste.

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Donna – Depois de tanto tempo dando voz às meninas, como foi assumir o ponto de vista de um garoto?
Thalita – Foi bacana porque… eu sou muuuito mulherzinha. (risos) Meu marido lê os meus livros e, quando fiz o Leo (principal personagem masculino do livro Ela Disse, Ele Disse), ele leu e falou: “Amor, esse menino tá ótimo, mas ele é gay, você sabe, né?”. Eu disse: “Nããão, ele é super hetero!”. E ele: “Você tá louca, você acha que homem faz isso, que menino faz aquilo?”. Sempre passo pelo crivo dele (o fotógrafo Carlos Luz, 51 anos) antes de passar pelo da editora. Tem umas vezes que eu falo: “É, realmente, tá muito gay”. E tem vezes que eu digo: “Não, isso é você viajando”. Então o Gualter, o narrador, é um menino superdoce. É o baterista da banda que corre atrás do sucesso no livro. E em todas as pesquisas que eu fiz – muitos me ajudaram, como Toni Bellotto, Leo Jaime e Tico Santa Cruz -, todos disseram que os bateristas são os mais sacaneados e os mais zoados do grupo musical. Que absurdo! Falam que é um músico menor, que é o que não pega ninguém. Então eu falei: “Cara, quer saber, vou fazer o baterista ser o narrador dessa história!”. Fiz o meu Gualter ser também compositor pra acabar com essa zona em cima dos bateras, porque batera é o máximo. (risos)

Donna – O que é ser “muito mulherzinha”, como tu te definiste?
Thalita – Por exemplo, quando eu saio pra comprar roupa, compro vestido – é raro eu estar de calça. Sou mulherzinha nesse sentido, de gostar de feminices. Vou à padaria, mas vou de rímel, vou de blush. Gosto sempre de estar feliz comigo e com o espelho e quero estar sempre arrumadinha, digamos assim – tá, óbvio que não vou de salto alto para a padaria, mas gosto de ser menina. Eu era pequena e pensava: “Gente, porque as pessoas usam calças se elas são meninas e elas podem ter vestido pra rodar?!”. Achava um absurdo. Vestido é uma coisa linda, feminino e delicado, me traduz muito um vestido.

Donna – Como tu te cuidas em meio a essa correria de livros, palestras? Como faz pra unha não lascar de tanto digitar no computador?
Thalita – Ah, mas a unha lasca. (risos) Sempre que perguntam eu realmente falo, que nem aquela música que hoje ninguém aguenta mais: “Use filtro solar”. Virou um hábito na minha vida e melhorou muito a minha pele. Há uns seis anos eu comecei a cuidar da pele com propriedade, com categoria. Então é creminho de dia, é creminho de noite, é creminho pro cotovelo, é creminho pro joelho, é creminho pro colo. Sou ridícula. Sou a louca dos creminhos. (risos) Em relação ao corpo, durante uns 10 anos eu fiz ioga. Quando a minha bunda deu uma caída – porque ioga trabalha pouco a bunda -, eu fiquei megadesesperada e fui correndo pra malhação. Então há seis anos eu malho, há um ano e meio faço exercícios funcionais com uma personal incrível e também aprendi a correr na areia. Nunca posso ficar parada, sou muito feliz me exercitando – e acho que por isso estou bem melhor hoje do que eu estava – ou, pelo menos, do que eu me achava – aos 20 anos.

Donna – Já é uma explicação para a falta de crise dos 40…
Thalita – Eu acho, menina! Porque eu olho e falo: “Não é que tá bom?! Não é que eu me pegava?”. (risos) Os 40 trazem a paz que a gente não tem aos 20. Até os 25, é uma angústia: estamos sempre infelizes ou com o cabelo, ou com a bunda, ou com o peito. E eu estou chegando aos 40 tão feliz que ainda vou passar os “enta” e chegar aos 100 (risos).

Donna – Tu já reafirmaste diversas vezes não ter a intenção de ser mãe, apesar da pressão que isso costuma gerar externamente. Achas que isso deve arrefecer agora?
Thalita – A pressão é gigantesca mesmo. Eu acho lindo a Astrid Fontenelle, a Gloria Maria, que adotaram mais velhas, depois de viver tudo o que tinham pra viver sem filhos. Se lá na frente der vontade, adotaremos com o maior prazer. Eu e meu marido não temos uma coisa assim, “ah, não vamos ter filho nunca”, mas realmente não é uma prioridade, não é uma vontade. Eu vejo como ser mãe é difícil, e tenho pavor de fazer as coisas nas coxas. Vejo tanta gente que tem filho, que diz que a melhor coisa do mundo é ter filho, mas quem cuida é a babá. Gente que bota na escola a educação das crianças, como se a escola fosse responsável por tudo. E isso eu realmente não quero. Eu não gostaria de ser mãe pela metade, nem saberia. Então acho melhor não ter do que ter e ser uma mãe “marromenos”, sabe?

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Donna – Ainda é uma questão difícil para mulheres assumir essa opção por não ter filhos – fizemos uma reportagem de capa para Donna sobre isso há cerca de um ano e ainda recebemos retorno de leitoras que se sentiram representadas.
Thalita – Isso também acontece comigo, muito. Fui no programa da Marília Gabriela e falei sobre isso – e o que eu recebi de e-mails de gente mais nova, ou da minha idade, ou um pouquinho mais velha, agradecendo por eu ter falado isso… Porque rola uma pressão, rola uma culpa. A gente é criado para crescer, casar, procriar. Quando alguém aborda esse assunto é sempre um alívio para outras pessoas que pensam igual. Eu falo com a maior naturalidade e sem culpa, sem problema.

Donna – Como tu explicas o tamanho do teu próprio sucesso? É assustador, em alguns momentos?
Thalita – Quando eu surgi, há 15 anos, esse público estava carente. Foi o que descobri quando lancei o Traição Entre Amigas, que não era para adolescente, mas os adolescentes amaram – e aí comecei a escrever pra eles. Se posso explicar, acho que é a falta de didatismo. Não tenho nenhum tom professoral nos meus livros, falo o que gostaria de ler se eu tivesse 14 anos e não gosto de dar lição de moral. Mas ainda assim é muito difícil explicar, e uma das coisas da tal crise dos 30 de que falamos foi esse questionamento: “Ih, será que eu mereço isso?”

Donna – Aquela coisa, “Será que eu sou uma fraude?”…
Thalita – Totalmente! “Será que eu sou uma farsa?”, esse é o capítulo número 1 da terapia. (risos) E eu demorei pra entender que eu não era uma farsa. Tive sorte, mas também ajudei a sorte, e acho que isso é importante – eu fiz por onde, corri atrás. E me resolvi bem: se as pessoas gostam de mim e eu faço bem pra elas com os meus livros, estou mais do que realizada. Já recebi um e-mail de uma menina de 17 anos dizendo que ela era a única pessoa gargalhando na quimioterapia, rolando de rir com um livro meu. Esse tipo de coisa me fez ver: “Pôxa, eu não sou uma fraude, não, vai…”. Posso não ser a melhor, posso não ser nada, mas para aquela pessoa eu fui alguma coisa e isso é muito importante pra mim.

Donna – Já te sentes acomodada? Aonde tu ainda queres chegar?
Thalita – De jeito nenhum, não me sinto nada acomodada! Acho que esse novo livro mostra muito isso: eu podia fazer um outro livro com uma menina, outra comedinha, mas é um livro bem bacana de estar lançando agora, nos meus 40, porque é mais maduro. E eu quero mais ainda. Quero ser traduzida em outros países – no ano que vem eu vou ao Japão, o Ela Disse Ele Disse que vai ser transformado em mangá. Acho que a linguagem dos meus livros é a da TV, quero muito que isso aconteça um dia. Quero que as pessoas continuem lendo os meus livros e gostando de mim. Acho que o meu maior medo é perder a inspiração. Sabe, acordar um dia e: pá! Não ter mais ideias. Esse é o maior medo que eu tenho na minha vida, mais do que de morrer. Porque seria, de certa forma, uma morte.

 

Thalita na Feira

No próximo domingo, dia 2 de novembro, Thalita Rebouças participa da 60ª Feira do Livro de Porto Alegre: às 17h, estará no projeto O Autor no Palco, no Teatro Sancha Pança e, às 20h, autografa seu novo livro, 360 Dias de Sucesso, na Praça de Autógrafos

 

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