Tombadora! Prestes a estrear nova temporada do Superbonita, Karol Conka dispara: “Vivemos um momento de desfazer padrões”

Foto: Juliana Chalita, GNT, Divulgação
Foto: Juliana Chalita, GNT, Divulgação

Ela mostra que não é mais uma na multidão já no nome. Ela é Karol, assim mesmo, com K. Ou, como ficou conhecida nas quebradas da noite curitibana, Karol Conka. Aos 30 anos, a paranaense é a cantora de maior expressão da vez no rap nacional. E, já que é pra tombar, a lista não para por aí: ela estreia nesta segunda mais uma temporada à frente do Superbonita, do GNT, e é garota-propaganda de várias marcas, de cosméticos a automóveis, que encontram em sua imagem colorida e cheia de atitude a representatividade e o tempero cool que tanto buscam.

Nascida na periferia de Curitiba, Karoline dos Santos de Oliveira cresceu dizendo para a mãe que queria ser famosa. A realidade violenta do bairro onde morava, os dramas familiares – o pai enfrentou problemas com alcoolismo – e o preconceito que sofreu pela cor de sua pele indicaram o caminho: era no rap que ela daria seu recado. Os primeiros versos vieram ainda na época do colégio, mas logo as rimas deram lugar às fraldas. Aos 19 anos, Karol engravidou de Jorge, seu primeiro e único filho. Encarou a maternidade solo e, quando o garoto estava maiorzinho, voltou aos microfones. Foi o empurrão que faltava para, em 2013, o fenômeno Karol Conka explodir com o álbum Batuk Freak, que inclui hits como Gandaia e Boa Noite – este último foi escolhido para fazer parte da trilha sonora do jogo de videogame Fifa 2014.

00b844e2

Desde então, Karol emendou músicas que caíram na boca do povo. Tombei (do verso “Já que é pra tombar, tombei”) revela a rapper sem meias-palavras que enaltece a força das mulheres: “Quando Mamacita fala, vagabundo senta”, diz, fazendo menção ao apelido que ganhou dos fãs. Neste ano, chamou a atenção também com Lalá, música que fala sobre prazer feminino e sexo oral e dá um chega pra lá nos homens que não sabem fazer direito:

— Fiquei surpresa com a quantidade de pessoas chamando a música de hino. Muitas mulheres me disseram que se sentiam gratas e representadas — conta, em entrevista à Donna. — Teve quem mandou a música para o ex.

Enquanto se prepara para subir ao palco do Rock in Rio, em setembro, finaliza seu segundo álbum de estúdio:

— Meu disco novo já virou lenda pela demora do lançamento. A demora se deve a quantidade de tarefas que venho exercendo, aos poucos vou finalizando. Não deixo que a pressão me afete. O disco vai sair na hora certa — afirma. — Estou muito feliz porque estou mais solta neste álbum. Não que no Batuk Freak não estivesse, mas acho que a minha visão está mais ampla. Acabei fazendo canções que ainda não havia explorado no meu jeito de compor.

00c01d81

Mais entrevistas de Donna
:: Roqueira e agora mãe e apresentadora, Pitty afirma em entrevista: “Meu ato revolucionário foi fazer o que realmente quero”

:: Alexandre Herchcovitch fala sobre a parceria com o marido na marca À La Garçonne, filhos e liberdade criativa
:: Às vésperas de show na Capital, Maria Gadú fala sobre família, feminismo e política
::  Dudu Bertholini afirma: “A moda está aqui para que a gente se ame e não julgue as pessoas”
:: Estilista Ronaldo Fraga fala sobre o papel da moda e exposição que inaugura em POA

A seguir, Karol dá seu recado sobre a representatividade da mulher no rap, autoestima e muito mais.

Com vocês, Mamacita!

Suas música falam sobre ser dona de si e sobre temas tabu como sexo oral, por exemplo. Como é ser porta-voz em um momento em que as mulheres estão no centro de tantos debates?
Eu recebo tudo com muito pé no chão. Tenho o talento de fazer música. Eu passo a mensagem, e a mensagem que passo é a minha vivência. Sendo mulher, sinto a necessidade de escrever canções que deem voz a outras mulheres justamente por não ter muitas fazendo isso. E digo isso no rap. É interessante ver que todas se unem e percebem que não estão sozinhas. A mulherada sabe que, quando eu digo em uma música “Eu tenho o poder”, não estou falando de mim. Estou dizendo “nós, as mulheres”. É para que elas se olhem no espelho, escutem essa música e se sintam, de fato, seguras.

Você fala muito de autoestima. As mulheres costumam conversar com você sobre como suas músicas as tocam? Contam suas histórias?
Sim, muito! Inclusive nos shows, no camarim, quando eu atendo as fãs. E sempre fico emocionada porque me coloco no lugar delas. Falo: “Meu Deus do céu, por que a gente se sente assim? Por que as coisas são desse jeito?”. Por um lado, fico incomodada porque é triste a gente ter que falar deste assunto, sendo que nem era para a gente falar disso. Eu já estive em situação assim. Todas nós já tivemos situação de baixa estima. De falar: “Eu não estou no mundo certo, queria tanto ser livre mesmo”. A gente fica com essa sensação. E parece que as pessoas que são livres são as loucas.

Você também se tornou uma voz atuante no combate ao racismo.
Enxergo isso como uma necessidade: ter esse assunto solucionado no Brasil. Quando uma artista como eu se destaca nisso, é também por conta do meu posicionamento nas redes sociais. Quando estava no underground, sempre falei desse assunto de uma maneira racional, leve e pesada ao mesmo tempo, para falar a real sem precisar xingar, sem falar palavrão. Tendo um bom argumento. Há muitas pessoas com argumentos até melhores do que os meus, nas quais me inspiro, e tenho que sempre estar antenada. Mas encaro essa situação como um dever mesmo. Um dever meu. Não é nada de mais, é uma missão. Tenho que fazer isso.

Com a participação na cerimônia das Olimpíadas do Rio, um público maior teve acesso a seu trabalho. O que mudou de lá para cá?
Parece que as pessoas estão conhecendo melhor a ideia que tenho para passar. As pessoas estão aprendendo a aceitar meu posicionamento. Não sinto algo negativo, sinto muita coisa boa vindo da galera. Para mim, que venho de uma cena mais do lado B, digamos, um convite como aquele foi espetacular. Encarei como uma missão de ir lá e fazer bonito por mim, pelos negros, por toda uma sociedade de periferia. E não só de periferia, de brasileiros que querem ser livres. Senti que era essa a vibe, junto com a MC Soffia. E, na hora, foi uma parada muito boa. Mas eu não fiquei trêmula, nervosa, essas coisas.


E o Superbonita? Como é a experiência de ser apresentadora?

Gostei muito! Vou fazer a segunda temporada porque o resultado foi muito legal, foi tipo: “Uau!”. E fiquei feliz tanto com o feedback das pessoas que gostaram, das pessoas que amaram e das que estranharam. Acho que todo tipo de opinião é válida. A minha intenção é mesmo dar uma chocadinha (risos). Eu levo a vida muito de boa, com muito bom humor, então eles me deixaram muito à vontade no programa. Eu estou ali fazendo uma coisa que não tem nada de difícil, é muito gostoso: converso com todo mundo – se deixar, fico horas conversando. Mas aí meu bom senso me desliga.

Que temas mais tocaram você?
Beleza fluida, achei que foi bem interessante e emocionante. Meu poder é black e meu estilo é que difere.

karol

Como é a Karol mãe?
Sou muito legal (risos)! Sou a melhor amiga do Jorge. Faço das tripas coração para fazer alguma coisa junto com ele. Falo que minha vida é maravilhosa, e minha única dor hoje é não poder ver o Jorge todos os dias. Mas a gente se fala. Tecnologia é maravilhosa! Isso é algo que me incomoda, mas é por pouco tempo.

Como é educar um menino hoje em dia? Trazer temas como machismo e autoestima?
Para mim, é tranquilo porque é natural. Na minha família, minha mãe criou o meu irmão e eu sozinha – meu pai estava meio doidão na vida na época. E meu irmão é uma pessoa maravilhosa. É algo de família, tanto que o Jorge é também assim. O pai dele é também muito querido, a vó dele, toda a família envolvida dá amor e explica a situação de uma maneira natural. Para ele, é muito natural ter atitudes feministas. Ele não sabe nem que a atitude dele está sendo feminista. Para ele, aquela atitude é o certo, defender uma menina ou não julgar ninguém, não fazer piada com ninguém que seja. É uma criança maravilhosa.

Melhor companhia no show de ontem em Santa Felicidade (Curitiba), na festa Errejota. ❤️️?? #meufilho

Uma publicação compartilhada por Karol Conka (@karolconka) em


Você têm feito muitos trabalhos para marcas, como a Avon e a Caixa. Como escolhe as empresas para as quais empresta sua imagem?

Sou muito cuidadosa. Para chegar a fazer um trabalho com uma certa marca, esta marca precisa falar alguma coisa na mesma linguagem que a minha e que converse com meu público, de certa forma. E o meu público vai de A a Z, não é um público X. É muita gente, são pessoas de vários estilos e classes que curtem Karol Conka. Então, procuro manter minha identidade em tudo o que vou fazer. Minha preocupação maior é não perder isso, porque já percebi, em algumas situações, que artistas fazendo esse tipo de trabalho acabam perdendo a identidade. Às vezes, a marca quer trabalhar de um jeito que não respeita a linha do artista. Gosto de deixar isso claro. E as marcas estão mais abertas. E não tem só eu, tem outros artistas com o mesmo posicionamento e que também estão assinando com essas marcas, e isto é fantástico. Mostra que o povo é que consome.

Para você, qual a importância de uma gigante da beleza tê-la como garota-propaganda?
A primeira coisa que eu vejo é que minha mensagem está sendo passada e absorvida. E que o público precisava de um porta-voz para esse tipo de coisa. Só fui me ligar nisso depois que comecei a receber esses convites. E depois que meus fãs começaram a martelar isso: “Queremos te ver lá, porque você não está em tal lugar?”. Eu recusava antigamente alguns convites, até para programas de TV, porque queria me manter no underground. Os fãs me empurraram de uma maneira que eu comecei a entender: se é essa minha missão, eu vou. Tenho que estar lá. Se a gente reclama que não está lá, quando tem a oportunidade de estar, a gente tem que ir. Encaro desta forma. Fico agradecida, primeiramente aos meus fãs, e às marcas que enxergam meu trabalho de maneira respeitosa.

GNT-SUPERBONITA-KAROLCONKA-WEB-PT2-41

As marcas têm sido cada vez mais inclusivas, trazendo pessoas que fogem ao padrão de beleza. Como você vê esse movimento?
É um momento de empatia. É bonito e emocionante. E também as marcas percebem que o público é variado. Não tem como vender pensando só em alguém. Tem que olhar para todos os lados. Tem para todo mundo. É um momento de criar novos padrões ou, melhor, de desfazer padrões. Todo mundo se sente representado. É aí que entra aquele ponto da autoestima. Autoestima é para todo mundo. A televisão reeduca, as propagandas podem reeducar. Uma música pode reeducar.

Você já disse em entrevistas que se deu conta de sua missão na vida quando estava em depressão. Que mensagem quer passar?
De espontaneidade, de segurança, tranquilidade. A gente não precisa ser exatamente perfeita. E o que é o perfeito? Eu, por exemplo, tenho um cabelo rosa extravagante. Eu gostaria de ser um ETzinho, mas aí não consigo, e fico pintando o cabelo de rosa e usando umas coisas extravagantes (risos). Gosto de brincar, gosto de ser livre. Minha mãe fala: “Você sempre foi assim porque sempre quis ser artista, artista pode ser assim”. Mas falo que não é o artista, todo mundo pode ser tranquilo, querer pintar o cabelo ou não. Eu fui a uma festa de pijama: por que teria de ir linda e bela? É esse tipo de coisa que até as minhas amigas gostam quando estão comigo: “A gente se sente toda livre, parece que a gente não deve nada para ninguém”. E eu falo: “Mas a gente não deve mesmo”.

Você curte moda? O que você busca mostrar com seus figurinos, com o que veste?
Acho que a moda e a música andam lado a lado, são namoradinhas. O visual é muito importante para o artista. À medida que fui progredindo, fui tendo a possibilidade de ter a aparência mais parecida com a minha personalidade. É para a pessoa, antes de me ouvir, olhar e pensar: “Ali tem alguma coisa, vamos ver!”. O artista tem que chamar a atenção. Ele gosta de ser aplaudido. E eu gosto de fazer isso, de brincar. É tudo direcionado para os meus fãs, que são aquelas pessoas que vivem nesse mesmo mundo que eu. A Anna Boogie, minha stylist, que me apresentou melhor esse mundo. A gente trabalha lado a lado, firmezonas, e é fantástico.

Galeria! Looks incríveis da Karol


Você é cria da internet. Como convive com essa pressão online por likes, ter sempre uma novidade a compartilhar? Dá para viver a vida real numa boa e preservar a intimidade?

Dá sim! Consigo viver de boa minha vida pessoal. Só não consigo sair na rua em alguns lugares, e às vezes queria fazer um rolê tranquilo, com meu filho. Penso que, se você não expor tudo na internet, as pessoas não vão saber de tudo. Coloco apenas coisas do meu trabalho e da minha vida que eu amo, que é ser esta artista. E quando quero minha privacidade, não tenho câmeras, não tenho ninguém ao redor. Fico na minha casa tranquila, sozinha. Para lidar com essa exposição, aprendi que tenho três vidas: a que eu vivo, a que assistem e cuidam, e a que inventam. Lembra que eu disse que era metódica? Até nisso, tenho hora para tudo. Agora, estou na vida que eu vivo. Neste momento em que estou falando com você, é a vida que eu vivo. O que sai em internet, umas bobeiras, e ficam horas e dias comentando sobre a minha pessoa, nem me abala porque ali é a vida que inventam. Já não faz parte do meu potinho.

Seu trabalho tem ido para além do rap, mas sem perder a essência. Karol segue como uma “mina do rap”?
Sempre! Nunca vou deixar de me ver como uma mina do rap. Eu sou uma mina do rap muito da esperta. Consegui usar o meu talento para explorar novos lugares e ver no que ia dar. Sou muito cara de pau, atrevida. Sou corajosa também. Me encaro assim. Mulher do rap é garra, é força. E tenho feito exatamente o que uma mina do rap tem que fazer, que é representar em todos os lugares, para todo mundo lembrar que existe mulher no rap.

Já enfrentou machismo no meio do rap?
Muito, nossa senhora! E sempre. Tem coisas que, às vezes, só gritando, e eu “faço aloka”. Tive que “fazer aloka” com uma situação de um grupo que abriu o meu show em uma cidade aí. Os meninos estavam ultrapassando o tempo e queriam colocar uma participação antes, e a produção pediu que não ultrapassassem o tempo. E eles foram na porta do meu camarim fazer barraco com a minha produção. Falei: “Opa, peraí! Vocês não vão fazer barraco no meu camarim, vocês estão malucos? Estão achando que é só porque é Karol Conka? Se fosse Racionais, vocês não estariam aqui”. Se fossem os caras, não iam dar o louco. Agora porque é uma mina? Mas, querida, eu comecei a rodar aquilo ali! Parecia um pinscher latindo e três dobermanns saindo fora. E falei: “Saiam daqui, e me respeitem, sumam daqui!”. Eles saíram, fiz o show linda e bela. Depois do show, o cara voltou: “Vocês têm que ser mais humildes”. Só disse: “Eu estou cansada. Tá achando o quê? Não confunda humildade com burrice. E não me peça para ser omissa”. Botei pra correr de novo, e os fãs adorando.

 

GNT-SUPERBONITA-KAROLCONKA-WEB-PT2-59

Jogo rápido

• Para ficar de olho na música: Rincon Sapiência. E Tássia Reis, eu amo a Tássia Reis!

Aborto: Sou a favor

• Maternidade: Amor verdadeiro

• Racismo: Deprimente

• Empoderamento: Necessário

• Plástica: Sou a favor

• Liberdade sexual: Necessário

• Fama: Consequência

• Tombamento: Eu!

 

 

 

Karol Superbonita

Nesta segunda, às 21h, estreia no GNT a segunda temporada de Superbonita sob o comando de Karol Conka. A rapper teve o contrato renovado depois de uma bem-sucedida estreia, em que tratou com leveza e propriedade de temas como autoestima e beleza, em especial da mulher negra. Entre as convidadas dos novos episódios, estão a jornalista Gloria Maria e a ex-ginasta Laís Souza.

— Estou muito empolgada e à vontade. Os temas estão mais profundos. Falamos desde cuidados com o sono até o poder de ser quem se é.

Leia mais
Comente

Hot no Donna