Empoderamento e feminismo negro: três mulheres compartilham histórias de vida

Qual a probabilidade das três entrevistadas de uma reportagem se conhecerem? Para esta repórter, a surpresa veio logo ao entrar no estúdio onde elas aguardavam para começar o ensaio fotográfico que você confere nas próximas páginas. A designer Ana Langone, que também faz as vezes de DJ, já havia acompanhado Negra Jaque em um de seus shows. A rapper, por sua vez, foi convidada pela jornalista Carol Anchieta para participar da programação de Octo, onde trabalha. O que parece, à primeira vista, mero acaso, para Ana traduz exatamente o sentimento de coletividade e troca que permeia essa nova fase do movimento que une e dá cada vez mais voz às mulheres negras.

— Aqui, uma puxa a outra — sentencia.

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É somando conhecimento e dividindo experiências que elas têm reforçado a própria identidade ao mesmo tempo em que reivindicam espaço. Até um papo sobre cabelo ou beleza, como presenciamos durante a sessão de fotos, é ponto de partida para uma discussão maior sobre autoestima e orgulho negro. Enquanto contam que truques usam para cuidar dos fios, incentivam outras mulheres a também assumirem seus cachos. Entre um nó e outro do turbante, peça símbolo de matriz africana que Ana usa e produz, debatem a cultura negra. Redescobrem as próprias raízes ao compartilhar e encontrar novas referências – sejam elas de moda, arte ou trabalho.

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Foi justamente para ajudar outras mulheres negras a encontrarem o próprio estilo que a jornalista Luiza Brasil deu início ao Mequetrefismos, blog que hoje fala também de autoestima e empoderamento.

— Vi a necessidade que temos de falar da mulher negra, da sua representatividade — explica. — Virou uma questão de missão porque entendi realmente o quanto éramos carentes de referências.

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Não à toa, espaços virtuais como o próprio Mequetrefismos, o blog de Magá Moura e o canal no YouTube Afros e Afins, de Nátaly Neri, ganharam tanta relevância. É nessa mesma pegada de resgate e valorização das raízes que marcas como a Xongani, que vende acessórios como colares, faixas, brincos e turbantes, conquistam cada vez mais fãs. A própria Ana Langone, designer que você conhece ao longo desta matéria, transformou seu trabalho de conclusão de curso em um projeto que mistura moda e estamparia africana.

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Para além do estilo, a internet também ajudou a dar voz para as mulheres negras. Enquanto a chamada primavera feminista reacendeu a discussão para temas mais amplos como o machismo, a igualdade salarial e a violência de gênero, o feminismo negro é responsável por debater o que é ser minoria dentro de uma minoria. Em um texto publicado pelo coletivo Blogueiras Negras, uma das mais ativas plataformas online sobre o assunto, a ativista Mara Gomes explica a necessidade de uma luta específica:

“A mulher negra sofre uma dupla opressão, uma por ser negra, e outra por ser mulher. Gênero e raça se transpassam e também a classe social, já que por resquícios deixados para nós dos tempos de escravatura a maioria da população negra é pobre, mora em lugares de baixa estrutura e tem o menor índice de educação (…) A opressão da mulher negra não é mais importante que a opressão da mulher branca, porém a mulher negra carrega outras questões que não atingem diretamente a mulher branca. Estas questões nos transpassam além do gênero e devem ser discutidas com um viés diferente”.

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Para a rapper Negra Jaque (foto acima), é justamente a trajetória repleta de singularidades da mulher negra ao longo dos anos que justifica a necessidade de discutir as próprias pautas e reivindicar direitos:

— Enquanto as brancas estavam queimando sutiã para poder trabalhar, nós estávamos trabalhando há muito tempo. Elas brigavam para trabalhar fora e quem assumia os cuidados com os filhos delas eram as negras. Isso vai muito além, é uma questão histórica. As vivências e violências são diferentes.

Ainda que episódios extremos de racismo não sejam rotina na vida de toda negra, a apresentadora Carol Anchieta (foto abaixo) acredita que é fundamental saber que isso se dá com outras mulheres e entender o porquê. É a tal da sororidade, palavra que caiu de vez no vocabulário de quem debate o feminismo.

— Mesmo que aquilo não seja a tua realidade, a outra passa por isso, e você precisa ter consciência para ajudá-la, até para que não aconteça contigo também — explica. — O feminismo não é uma bandeira, é um estado de conhecimento do teu valor como mulher. Deveria ser um estado de consciência, e não uma bandeira que tu carregas. É importante que tu tenhas conhecimento do teu valor como mulher dentro da tua realidade, mas que não ignore o outro.

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Na semana em que comemoramos o Dia Internacional da Mulher Negra Latinoamericana e Caribenha, celebrado nesta segunda-feira, 25, Donna conta três histórias de vida inspiradoras, que têm como laço a luta para se ver e ser vista – e valorizada – a partir da identidade que trazem na pele.

 

O rap é a voz de Negra Jaque

“Com melanina, orgulho no peito. […] Voz que vem de dentro, na ginga e no jeito.” Quando a rapper Negra Jaque escreveu a letra de Negona, praticamente se autodescreveu. Não à toa, eternizou na pele um microfone, símbolo da voz que ganhou quando descobriu o hip hop.

— Ele fortificou minha identidade e me deu lugar no mundo. O hip hop me disse “guria, vai”. Foi quando me encontrei como mãe e mulher.

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Moradora do Morro da Cruz e mãe de Erick, oito anos, Jaque cresceu em uma família liderada por mulheres. E aprendeu desde cedo o significado de ser negra e mulher. Era comum ouvir que seu nariz era feio e que precisava alisar o cabelo para “baixar o volume”. Chegou até a ser aconselhada a não usar batom para não evidenciar seus lábios grossos.

Jaqueline Trindade Pereira começou a se transformar em Negra Jaque quando ingressou no Instituto de Educação para cursar Magistério. Como ela própria diz, deixou de ser mais uma guria negra da comunidade para virar uma das poucas meninas pretas em uma escola de maioria branca. Ao lado de outras “quatro ou cinco” colegas negras, sofreu um daqueles episódios de racismo disfarçado de piada. Em uma aula de Física, ouviu do professor que “a pessoa levou um choque e ficou bem negrinha”. Foi nesta época que o hip hop começou a entrar de vez na vida da estudante, que se preparava para cursar Pedagogia – curso que acaba de concluir via EAD. Nas aulas presenciais, impossível não atentar para o fato de ser uma das três pessoas negras em uma turma de 60 alunos. Mas uma professora lhe serviu de inspiração:

— Entrar em uma universidade e encontrar uma mestre que é negra muda totalmente teu olhar de aprendizagem. Ainda é pouco, tudo é muito pouco. Não estamos falando de igualdade, porque não há igualdade no Brasil, mas de equiparar algumas coisas.

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Jaque abraçou de vez sua negritude e agora transforma sua luta contra a opressão das mulheres e o preconceito em música.

— Costumo dizer que Negra Jaque foi fundamental nesse processo. Jaqueline é só meu nome de registro. Estar no hip hop, buscar as mulheres que cantam, que dizem que nossa estética é linda, é de rainha e de rei, que vem de uma geração milenar, de outro continente, foi muito importante. O conhecimento é fundamental para que isso aconteça. Vem de fora para dentro, e depois sai de dentro para fora, e não é todo mundo que tem acesso.

E, se depender de Negona cantada por Negra Jaque em seu primeiro videoclipe, a luta “não vai parar. Ligue os motores para acompanhar”.

 

A estampa de Ana Langone

A mulher de cabelo solto, que veste cores e símbolos de seus ancestrais em peças criadas com as próprias mãos, durante muito tempo desejou não ter nascido negra. Com 10 dias de vida, Ana Paula Langone foi adotada por um casal de brancos. Passou seus primeiros anos ouvindo os questionamentos dos coleguinhas de colégio sobre sua família, que vieram antes mesmo de repararem em seus cabelos encaracolados. Aos nove anos, os pais se separaram – o que, de certa forma, até ajudou a garota na missão de esconder de si mesma quem ela era.

— Quando estava com meu pai, dizia que a minha mãe era preta, ou vice-versa. Omitia tudo de mim mesma — relembra. — Foi traumatizante, porque eu queria ser branca e não era, e estava em uma família branca. Me faltavam referências para me entender como negra.

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Foram justamente essas raízes que Ana, 35 anos, descobriu nas tardes que passava na biblioteca da faculdade de Design da Universidade Federal de Pelotas (UFPel). Entre um livro e outro de arte, pedia para a bibliotecária separar também o que encontrasse no acervo sobre os negros da cidade. A vontade de saber mais e mais sobre quem era e de onde vinha transpareceu também na escolha do tema da monografia: estamparia africana. Uma década depois de entregar o trabalho de conclusão, ela retomaria o tema de onde havia parado.

Batizado de Kuntu – que, na estética do povo Bantu quer dizer beleza, alegria, apreciação –, o projeto transformou-se no novo amor da designer. Depois de encarar uma demissão, em julho do ano passado, passou a se dedicar a criar estampas com carimbos confeccionados por ela mesma a partir de materiais como madeira e EVA recortado, técnica que aprendeu nas pesquisas sobre a cultura afro.

— Ninguém imaginava que daria certo. As estampas ficam lindas — afirma.

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Os mesmos símbolos africanos Adinkras que dão vida a vestidos e turbantes – nomeados em homenagem a grandes mulheres negras, como Nina Simone – viraram tema das oficinas que Ana ministra. Talvez a mais memorável tenha sido em setembro, em um dos encontros da Marcha das Mulheres, em Santana do Livramento. Em uma reunião, compartilhou com as demais militantes as estampas que estava criando. Não deu outra: logo as organizadoras conseguiram um auditório na faculdade local para que Ana ensinasse a técnica a outras mulheres. Para a surpresa da artesã, o espaço lotou – e fez com que ela não parasse mais.

Atualmente, Ana mora em Caxias do Sul e divide-se entre a Kuntu, os workshops e a militância feminista, além das empreitadas como DJ.

 

A identidade de Carol Anchieta

Carolina Anchieta, 36 anos, teve a sorte de “crescer empoderada”, como ela própria define já nos primeiros minutos de entrevista. Filha de um professor de educação física que pesquisava a cultura afro, a garota frequentou com naturalidade dos terreiros de candomblé às aulas de dança e patinação, típicas da rotina de menina classe média. Mas, desde muito cedo, Carol se viu também como a única criança negra da turma na escola particular onde estudava, a única negra no grupo de amigas. Anos mais tarde, encarava a surpresa dos convidados da TV Unisinos, onde trabalhava enquanto cursava Jornalismo, ao depararem com uma apresentadora negra.

— Aqui no Sul é tudo muito velado, então muitas vezes não se percebe o preconceito — pondera.

Aos 17 anos, começou a se envolver com o movimento hip hop, o skate e a cultura urbana. Além de ver o círculo de amigos aumentar, percebeu que sua visão de mundo também ganhava novas fronteiras.

— Eu me identifiquei muito com aquilo e descobri onde queria estar. A cultura urbana passou a fazer parte da minha vida e da minha essência — afirma. — Mas ainda não tinha todo o empoderamento como mulher negra e não conseguia perceber o machismo dentro do próprio hip hop. Algo me incomodava, mas não sabia bem o que era.

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Carol só foi, de fato, descobrir por que algumas situações cotidianas a deixavam tão incomodada quando se mudou para o Rio de Janeiro. Lá, fez amizades que começaram a espantar de seus olhos a nuvem que não deixava a jornalista enxergar os pequenos grandes preconceitos do dia a dia, como a vez em que lhe perguntaram se o seu cabelo molhava.

No caso da apresentadora de Octo, o cabelo e a pele sempre foram motivos de orgulho. Talvez a sua maior autoafirmação seja em relação ao formato do corpo. Acostumada a se comparar com as amigas magras, demorou a aceitar que seu biotipo de mulher negra lhe conferia também coxas mais grossas, por exemplo:

— Nunca vou ter o corpo da Gisele porque sou negra. No Rio, consegui aceitar melhor isso e desmistificar as roupas que poderia usar. Isso para mim foi libertador.

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