Top da vez: Valentina Sampaio, a modelo mais requisitada da SPFW, é ícone da causa trans

Fotos: Gabriela de Moura
Fotos: Gabriela de Moura

Há duas temporadas da São Paulo Fashion Week, principal evento do calendário de moda nacional, nenhuma modelo é tão requisitada por estilistas e, claro, jornalistas, como Valentina Sampaio. Olhos verdes, cabelos longos com ar de surfista, lábios carnudos e o corpo esguio de 1m77cm não deixam a beleza da cearense de 20 anos passar incólume. Além de tudo isso, um detalhe sobre sua sexualidade fez com que a top mais comentada do Brasil atualmente ganhasse as manchetes: Valentina Sampaio é transexual, ou seja, nasceu com a genitália de menino, só que nunca se viu como tal. É por isso que não titubeia ao responder o questionamento que mais ouve nos bastidores: Sempre fui menina. Sempre fui Valentina.

Depois da também brasileira Lea T., que revolucionou o mundo da moda como a primeira transexual a se tornar top model, Valentina tem tudo para ser o novo nome fashion na causa. Ela soma muitos feitos, o mais recente em março: foi a primeira transexual a posar para a capa da revista Vogue Paris, uma das principais publicações de moda do mundo. Mas a jovem só quer ser vista como mais uma modelo e mulher. Enquanto isso, comemora cada vitória na carreira, como conta em entrevista por e-mail à Revista Donna, direto da Europa:

– É um momento muito importante. Este assunto (a causa trans) está sendo cada vez mais falado e estamos dando voz e oportunidade a pessoas que muitas vezes não tinham.

Valentina nas capas da Vogue Paris e da Elle Brasil. Acima, com Grazi Massafera em campanha da marca Morena Rosa.

Valentina (acima em foto de seus Instagram) foi capa da Vogue Paris e da Elle Brasil. Acima, com Grazi Massafera em campanha da marca Morena Rosa.

Das areias à passarela

Segunda filha em uma família de seis irmãos, Valentina nasceu em Fortaleza, mas foi criada em Prainha, no município cearense de Aquiraz. Protegida pelos cuidados dos pais, um pescador e uma professora de ensino fundamental, passou os primeiros anos de vida praticamente imune a preconceitos e comentários maldosos – um privilégio, bem se sabe, se comparado à história de outras transexuais.

– Minha infância foi a melhor possível. Tenho pais maravilhosos. A pessoa que sou hoje é fruto do amor, da dedicação, da proteção e educação que recebi da minha família – diz.

Em uma de suas primeiras entrevistas – à revista Glamour, em 2015 –, Valentina recorda que nunca foi tratada como o irmão mais velho, Guilherme. Com ela, os pais sempre foram mais atenciosos. Aos poucos, a família percebeu que a criança era diferente do primogênito. Então, a mãe resolveu levá-la à psícóloga, aos oito anos. Na hora, a profissional percebeu que Valentina era transgênero.

Para a garotinha, a rotina não mudou muito desde aquela consulta. À época, já tinha cabelos compridos, vestia-se como menina e tinha como companhia outras garotas da escola. Por volta dos 10 anos, abandonou o nome de batismo (que não revela) para se chamar Valentina, por escolha própria. A única mudança foi que, todo ano, a mãe ia ao colégio para pedir que os professores adotassem o nome social da filha na chamada.

Aos 16 anos, a vida de Valentina começou a tomar, ainda que sem querer, o caminho que segue hoje. Apaixonada por desfiles e por customizar suas roupas, a jovem não pensou duas vezes ao escolher o curso superior – Moda. Graças ao toque de uma colega, Valentina resolveu participar de um casting do Festival de Moda de Fortaleza no início de 2014. De lá, foi um pulo: emendou passagens pela passarela, incluindo uma maratona de mais de 10 desfiles no Dragão Fashion Week, principal evento de moda da capital cearense. Após três semestres, trancou a faculdade de Moda para cursar Arquitetura, mas em pouco tempo começou a ser sondada por agências de modelos de São Paulo. E o resto da história, a gente já imagina.

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Quebrando barreiras

Acostumada ao convívio com os pais, ao sol e à praia, com uma rotina caseira e o surfe, não foi fácil se desapegar da cidadezinha. Dividir apartamento com outras new faces, disputar visibilidade em castings concorridos e posar para editoriais nunca esteve nos seus planos. Mas não deu outra: aos poucos, Valentina Sampaio virou o nome da vez nas passarelas e estúdios fotográficos. O primeiro grande destaque se deu no ano passado, quando a modelo foi escolhida a primeira transexual do mundo a ser embaixadora da L’Oreal Paris: ao lado de globais como Taís Araújo, Grazi Massafera e Juliana Paes, estrelou a campanha nacional da gigante da beleza.

– Tudo tem rolado realmente muito rápido e fico muito feliz com o caminho que estou trilhando. Ainda estou assimilando tudo isso – conta.

O resultado da exposição veio na semana de moda que se aproximava. Na edição N42 da São Paulo Fashion Week, em outubro, só deu ela. Estilistas como Ronaldo Fraga, Fernanda Yamamoto e Alexandre Herchcovitch deram destaque a Valentina na passarela. E mais sucesso: na última edição, em março, brilhou de biquíni na passarela de Amir Slama, além de contabilizar desfiles para Isabela Capeto, Two Denim e À La Garçonne, de Herchcovitch.

– A semana da moda foi uma energia incrível! Fiz diversos desfiles e cada um foi especial de sua forma. Sempre dá aquele friozinho na barriga.

O grande passo na carreira de Valentina veio agora em março. A brasileira foi a primeira trans a posar para capa e recheio da Vogue Paris. E de surpresa: quando chegou ao set para fotografar, não tinha ideia de que ilustraria a icônica edição “A beleza transgênero: como estão mudando o mundo”.

– Tudo começou através do meu agente brasileiro, da Joy. Soube que seria capa no dia ao shooting, através da própria Emanuelle (Alt, editora da Vogue francesa). Além de ser uma das maiores profissionais do mercado, é gentil e respeitosa – conta Valentina.

E a admiração é mútua. Na carta da edição especial, a editora não poupou elogios à top: “Nada a diferencia de Gisele, Daria, Edie ou Anna. Exceto um detalhe. Valentina, a mulher fatal, nasceu homem”, escreveu. “Se Valentina aparece na capa deste mês, além de suas características físicas e sua personalidade radiante, é porque vive, apesar disso, uma luta secular e dolorosa para deixar de ser vista como uma ‘exilada de gênero’ ou uma criatura à parte. (…) Valentina é a figura glamour de uma causa”, sentencia no editorial.

Valentina desfila para Amir Slama e Isabela Capeto (Fotos: Agência Fotosite)

Valentina desfila para Amir Slama e Isabela Capeto (Fotos: Agência Fotosite)

XÔ, PRECONCEITO!

Quando a gente pensa em uma garota de vinte e poucos que já chegou à Vogue francesa, parece surreal acreditar que Valentina já foi barrada em uma campanha por ser transexual. O episódio aconteceu logo no início da carreira e foi um dos primeiros momentos de preconceito explícito que a modelo sofreu.

– Já fui rejeitada, mas isso não me derrubou. Segui em frente e procurei ser mais forte do que o preconceito – afirma.

Nas primeiras entrevistas, Valentina costumava dizer que o preconceito não chegava até ela. Mas não tardou a ocorrer: conforme foi ganhando espaço na mídia, os comentários maldosos e nocivos começaram a aparecer. Não à toa: embora nomes como o dela ganhem mais visibilidade por aqui, o Brasil continua sendo o país que mais mata travestis e transexuais, segundo pesquisa da ONG Transgender Europe.

– Já passei sim por preconceito, mas tento fazer com que isso não me atinja – conta. – Eu diria que todos precisam ter força, porque a situação dos trans é difícil e delicada. Muitas vezes, não temos voz. Isso não pode fazer com que a gente se sinta menos do que qualquer outro ser humano. Seja forte para enfrentar os obstáculos que podem surgir.

Ainda que não se declare abertamente ativista – e até evite usar a palavra trans, justamente para não naturalizar rótulos –, Valentina vê seu nome ganhar espaço como um ícone na luta contra a transfobia:

– Há pouco tempo, vi na televisão uma entrevista antiga da Naomi Campbell. Naquela época, ela era a primeira mulher negra na capa da Vogue. Foi algo que abriu portas e levantou o debate sobre inclusão e respeito. Espero poder trilhar um caminho parecido.

Para a sorte de Valentina, a moda vive um momento único de diversidade. Em tempos em que o genderless passa de tendência a um segmento – além das discussões cada vez mais presentes sobre representatividade e quebra de regras e estereótipos –, ser uma modelo transexual é motivo de ainda mais orgulho.

– Na moda, os assuntos fluem mais livremente. Estamos caminhando para um mundo melhor e mais livre, mesmo que a passos curtos. O preconceito ainda existe e é uma triste realidade – diz Valentina.

Apesar disso, a top ainda enfrenta perguntas frequentes sobre temas estritamente pessoais, como se fez ou não a cirurgia de redesignação sexual – assunto sobre o qual não comenta. Mas também há vitórias: depois de recorrer à Justiça, no ano passado recebeu decisão favorável sobre a mudança para seu nome social em seus documentos. Agora é também legalmente Valentina.

– Me senti muito feliz. É muito bom ser reconhecida e respeitada por quem você é.

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