Portugal: a magia dos pastéis de nata

Portugal: a magia dos pastéis de nata

Tem algo importante a respeito dos pastéis de nata de Portugal: não há como encontra-los fora do país. Ok, até é possível bater com algumas tentativas de, mas nunca terão a mesma essência. Em Portugal, não interessa a padaria, restaurante ou boteco de esquina: os pastéis de nata sempre terão o recheio no ponto e estarão quentinhos esperando o consumidor. Acaba se tornando um vício para qualquer turista que se preste a arriscar a primeira mordida. Até quem não é tão chegado em doçuras ou está focado na dieta pode se perder ao polvilhar de canela e açúcar em pó a primeira unidade.

Tenho um amigo gaúcho que ruma todos os anos a Lisboa, encara a fila dos pastéis de Belém – que são os originais – e pede seis de uma tacada. Só para ele. Volta nos outros dias e pede mais seis. Mais seis. Mais seis. Já soube de vezes em que pediu até 12. E não passou mal.

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Quando me despedi de Portugal no ano passado, tive abstinência, confesso. Chegava a sonhar com aquela pitada de baunilha em meio ao doce de ovos e o tostadinho charmoso por cima. Mas, tive que desapegar, pois rodei um bocado neste mundão que valha-me Deus e não achei nada nem parecido. Dizem que há um segredo guardado a sete chaves.

Os mestres pasteleiros da Oficina do Segredo da Fábrica dos Pastéis de Belém (sim, esse lugar existe, não é zoeira) são os poucos detentores da receita, assinam um termo de responsabilidade e fazem um juramento em como se comprometem a não divulga-la. Tipo vida ou morte. Justíssimo. Até Donald Trump poderia ser chantageado por aquela receita.

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Quando soube disto, desisti de buscar um pastel de nata fora de Portugal. Percebi que não fazia sentido. O que dava o tom do sabor era exatamente o cenário, o contexto, a história, a criação dos doces na sua mais ingênua forma dentro dos mosteiros. Não é novidade para viajantes que a gastronomia releva um lugar. Abre suas portas entre temperos, azeites e panelas. A gente consegue entender mais sobre um povo só observando a maneira como se alimenta.

Portugal precisou de muito açúcar. Foi triste por anos a fio. Ainda é. Chora ao som do fado e das senhoras com cabelos brancos e rugas na testa. Precisaram de doses cavalares de baunilha para engrossar o sangue na sua glicose a ponto de injetar um sorriso de canto de boca. Então, nada mais justo de que encalacrem o seu pó de pirilimpimpim no cofre das alquimias.

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Estou com a passagem marcada para retornar a Porto Alegre no dia 22 de maio. Fui agraciada com um convite: passar uma tarde na Feira de Padaria, Gastronomia e Hotelaria da Sulserve, em Novo Hamburgo, que será exatamente de 22 a 24 de maio, nos pavilhões da Fenac. Focada nos profissionais do setor, a feira tem como objetivo fortalecer o segmento no Rio Grande do Sul e contar melhor ainda a nossa história enquanto gastronomia e hotelaria. Entre as tantas palestras e workshops gratuitos, o que me chamou a atenção mesmo foi a ideia de poder encontrar insumos e especiarias da melhor qualidade para construir receitas. Confesso, sou um zero à esquerda quando o tema é fogão, mas pretendo incentivar o pessoal na elaboração do Pastel da Sulserve.

Vai que a gente chega perto ou consegue ir ainda mais longe e desenvolver o nosso próprio doce encantado? Eu tenho fé. É, dei todo este textão para me contradizer no final e descobrir que, apesar de falar bonito, eu ainda não recuei completamente do foco de encontrar um pastel de nata perfeito mais perto das nossas bandas. Ora, pois.

*Texto escrito por Fernanda Pandolfi para a Sulserve.

Programação para curtir a Serra Gaúcha fugindo do óbvio

Programação para curtir a Serra Gaúcha fugindo do óbvio

Juro que não iria fazer este post. Não iria. Só por que vocês não confiaram em mim e não se juntaram ao projeto Intercity Escapes Caxias do Sul, que foi mais do que legal, e aí, quando viram as postagens nas redes sociais, morreram de vontade de passaram a implorar para que eu abrisse o roteiro aqui para vocês. Maaaaaa (como diz um mestre meu), repensei e vou dividir todas as dicas por aqui. E mais: às vésperas de feriadão, que é para vocês terem tempo o suficiente para curtir tudo de mais legal que a nossa Serra tem – fugindo do óbvio de Gramado e Canela. Partiu?

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A base

A primeira dica para poder alcançar todas as cidadelas que vou citar aqui é fincar base em Caxias do Sul. No Intercity, é claro. O hotel é bem localizado e tem um café da manhã que é uma sacanagem com a dieta: com direito a sonho, cuca, pão caseiro e cueca-virada. Deus é pai. Começou a comilança. Dali, é só se programar para todos os dias visitar um cantinho da região.

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Bento Gonçalves

Vinícola Almaunica – foi a nossa primeira parada. A vinícola é pequena comparada às gigantes do ramo, mas tem alguns dos melhores vinhos que degustei ao longo da viagem. Vale o tour e as comprinhas, viu?

Mamma Gema e Pizza Entre Vinhos – Ambos os restaurantes são do chef Pessali, que é um cozinheiro de mão cheia e capricha no ragu, na polenta, nas carnes assadas e massas. De babar. A Pizza Entre Vinhos já pode ser considerada a melhor pizzaria do Sul, acredita? Não dá para deixar de provar a de cordeiro. Já estou salivando.

Bettú – Este cara é a lenda do vinho gaúcho. Aos 71 anos, o enólogo produz suas safras em um laboratório dentro de casa e só recebe grupos de até oito pessoas para degustação. Ao longo da degustação, Bettú vai contando suas anedotas e não tem como não se deliciar com os sabores da bebida, mas também com a essência das histórias deste gringo legítimo.

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Caminho de Pedras

Casa da Erva-Mate – é até vergonhoso, eu sei, mas eu, com toda esta bagagem de viagem nas costas, ainda não conhecia o famoso Caminho de Pedras. Trata-se de uma região de Bento Gonçalves com casas datadas dos anos 1800, que foi recuperada pela família Dall’Onder e hoje abriga um tanto da história da imigração italiana e da cultura gaúcha, como no caso da Casa da Erva-Mate. Além do local ser um charme só, é legal acompanhar o processo de fabricação artesanal da erva que ceva nosso chimarrão de cada dia.

Bez Batti – artista renomadíssimo, Bez Batti se esconde atrás de um muro de pedra que ele mesmo construiu e recebe os amantes de arte que batam na sua porta para espiar suas esculturas. As obras estão todas expostas dentro de sua sala de casa e o ateliê fica no jardim. Uma delícia também passear por lá e valorizar a história deste cara que é craque em trabalhos com basalto.

Casa Vanni – Este restaurante não pode ficar de fora do roteiro. O risoto de carne de panela é um dos carros-chefes da casa, que também é dos anos 1800, e guarda um tanto da cultura italiana. O legal é chegar um pouco antes para apreciar o jardim, a área verde, tomar uma espumante ou vinho com aperitivo e espiar o córrego.

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Pinto Bandeira

Cave Geisse – Vinícola especializada unicamente em espumante, a Geisse é responsável por uma das melhores bebidas da nossa terra. A minha sugestão é apostar na Gave Experience, que se trata de um passeio em um 4X4 em meio aos vinhedos, com direito a parada para degustação com vista para a cachoeira. Vale!

Don Giovanni – Do ladinho da Geisse, a Don Giovanni tem o por-do-sol mais lindo da Serra. Vá ao mirante e peça uma rosé bem gelada para acompanhar as cores da natureza. Ah, se tiver a oportunidade, passe uma noite na pousada da Don Giovanni. Também em uma casa antiga, os quartos foram decorados por artistas plásticos e o café da manhã é supercaseiro.

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Caxias do Sul

Igreja de São Pelegrino – Além de ser a paróquia do padroeiro dos viajantes, o que já sai em vantagem com quem adora a estrada, a São Pelegrino é o lugar que guarda uma coleção imensa de obras de Aldo Locatelli. Vale a pena contratar um guia para entender cada um dos traços pintados nas paredes. Além disso, uma réplica da Pietá produzida no Vaticano foi dada pelo Papa para a igreja. Não é pouca coisa, viu?

Praça Dante Alighieri – É a praça mais famosa da cidade e tem uma estátua de Beatrice, companheira de Dante, em tamanho real, no banco da praça. A peça foi trabalhada em argila por Dalva Conte, que tem ateliê na cidade e faz peças lindas.

Fabbrica – para quem gosta de um agito noturno, a dica é o complexo cultural e gastronômico Fabbrica, que abriga alguns dos bares e restaurantes mais descolados da cidade. Vale ir para o jantar e alongar a noite.

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Estrada do Imigrante

Casas Bonnet – Vá no meio da manhã, faça a colação (um café colonial um pouco mais econômico) e aproveite para fazer o passeio de carretão. A ideia é voltar no tempo e entender os costumes dos imigrantes italianos, que pegavam o transporte para ir trabalhar na roça. Após o passeio e a visitação às casas antigas da região, almoce no restaurante da Casa Bonnet, com direito a capeletti, massa caseira e bufê de sobremesas caseiras, com sagu, pudim e chico balanceado.

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Flores da Cunha

Vinícola Luiz Argenta – Uma das vinícolas mais incríveis que já visitei no mundo. E olha que não foram poucas. A empresa investe em tecnologia e a decoração, a cave e o ambiente de convivência têm o design caprichado e cada detalhe automatizado. Depois de fazer a visita e se encantar com os modelos das garrafas premiadíssimas, não deixe de almoçar ou jantar no restaurante Clô, um dos mais deliciosos e refinados da região.

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Ana Rech

Barlavento, Morangos Hidropônicos  – um pedacinho da praia na Serra. É quase isto que a plantação de morangos hidropônicos que atrai turistas e mais turistas a Ana Rech representa. O que começou como uma brincadeira para a família proprietária, acabou se tornando um negócio e, atualmente, acumula filas no restaurante Barlavento por conta dos milk-shakes, geleias e delícias do cardápio preparado com morango. Destaque para a Hospedaria Rio do Vento, que é uma casa pertinho da plantação, com poucos quartos disponíveis, mas um mimo só. Bem ao estilo antigo. Ahhh, como se não bastasse, a família agora também investe no cultivo de cogumelos shitake.

Farroupilha

Cervejaria Artesanal Blauth Bier – Já é point da galera da Serra. Aos finais de semana, o deck com vista panorâmica fica lotado de amantes da boa cerveja que curtem  a vibe, a música e o por-do-sol. Aos mais curiosos, vale apostar na visita guiada na fábrica com direito à degustação. Há menos de um mês, o Le Grand Burger inaugurou seu “foodtruck” nos jardins da cervejaria. Os sanduíches são deliciosos, mas esteja preparado para enfrentar a fila.

O ashram e a coruja

O ashram e a coruja

Noite passada eu tive um sonho. Não sou destas que costuma lembrar tudo o que vem ao longo da noite. Sei que é impossível pararmos de pensar e que a nossa mente segue trabalhando mesmo enquanto dormimos, mas arrisco dizer que é raro que me surjam com clareza os pensamentos que fluem enquanto repouso. Hoje de manhã eu recordava de tudo. Foi real. Neste sonho eu retornei à Volta ao Mundo. De casaco azul, monstra e tudo. Devaneei que em meio à rota decidi que precisava passar mais uma semana, ao menos, no ashram de Madurai, na Índia. Algo me indicava que seria importante.

E aí que rola a função toda do sonho. Eu não conseguia chegar. Já na terra de Gandhi, explicava para as pessoas aonde queria ir, mas ninguém me compreendia, eu me desencontrava, andava por estradas, meu dinheiro acabava, dormia na rua, perdia a bolsa, lembro até de ter pegado carona com um estranho – mesmo pensando no quanto poderia ser perigoso -, que disse que saberia me conduzir ao lugar. Em resumo, ele acabava me levando a um espaço completamente diferente do objetivo, um hotel ao estilo resort, com piscina e lotação máxima, algazarra, crianças correndo pelo corredor. Não, não, não é aqui. O local que eu almejo é no meio do mato, tem silêncio, no máximo 15 pessoas, e meditação o tempo todo. Ninguém me compreendia.

Em meio a isso tudo uma coruja me perseguia. Daquelas do Harry Potter, sabe? Com os olhos bem apertados e juntinhos. Essa senhora decidiu que queria morar na minha cabeça. Acreditava que o ninho dela estava no meu cabelo. E quando menos eu esperava lá estava a Hedwig plantada no meu cérebro. Aquelas alucinações de sonho. Que parecem não ter sentido. Só que não. Despertei depois de muito ter brigado com a coruja e sem ter chegado ao ashram. Saltei da cama. Que maluquice, minha gente. E, automaticamente, lembrei da palestra passada, na Casa da Confraria, quando uma das pessoas na plateia me perguntou: “Como não se desconectar dos valores que construiu na viagem?”.

ara, essa questão foi complicada de responder. Foi daquelas que precisei revirar os olhos para cima e pressionar o indicador contra o queixo: “Hummm, pois é, então…”. Eis um desafio. Eis uma preocupação. Eis uma atucanação tão real que chega a me perturbar enquanto descanso. Não deixar 2017 cair no vácuo. Jamais. E o ashram representa o ápice da minha conexão espiritual. A fase em que estava mais estabilizada e entendendo o que era certo e errado para mim. O medo de não encontrar este lugar é verídico. É assustador. Ainda não sei bem lidar com isso, admito. Tento mantê-lo vivo em fotos pela casa, velas acesas, um altar no canto da sala e um colchão de yoga e meditação que venho utilizando menos do que deveria. Poxa, um ano inteiro trabalhando em desconstrução dá pânico de ter recaída e se construir falsamente de novo, sabe?

Só que aí tinha a coruja. E lá fui eu apelar para o senhor Google. Que diabos! Diz ele que é bom agouro. É um símbolo de sabedoria, êxito profissional, escolhas inteligentes e bons conselhos. Pode significar também poder de discernimento e capacidade de decifrar mistérios. Na verdade, eu luto contra a coruja no meu sonho. Coloco até um chapéu para evitar que ela venha sentar na minha cabeça. Sai daqui, sua doida, não quero precisar realizar decisões importantes. Deixe-me fora disto. Prefiro seguir nesta vida que como quando tenho fome e durmo quando tenho sono. Não, os olhos arregalados não deixam. Bora voltar para o tempo que corre no relógio? Vamos lá, coragem. Mas adianto que esta coruja com ares de águia veio para lançar o alerta: a vida pode montar a caça ao tesouro que for, com labirinto e tudo, mas eu sempre encontrarei o ashram. E não será em sonho.

Onde você estava há um ano?

Onde você estava há um ano?

Eu lembro. Não preciso nem forçar os olhos para apertar a memória. Estava embarcando rumo a uma Volta ao Mundo. Insegura, oferecendo pontos de interrogação para todos os lados e em um diálogo intenso com o meu corpo. Tinha certeza de que aguentaria, não estava segura de a que custo seria esta sobrevivência. Onde eu estava há dois anos? Na semana seguinte ao término do workshop Aceita Idiota, comandado pelo ator e palhaço Márcio Libar, em processo de catarse e determinada a pedir demissão da Zero Hora. E há três anos? Trabalhando como colunista social em um dos maiores casamentos que já cobri, de filhos de autoridades, na Serra Gaúcha, trajando um vestido preto chiquérrimo, na minha melhor forma e com um sorriso de orelha a orelha com as oportunidades que meu cargo profissional me presenteava.

O que há em comum neste triênio? Decisões. Pé no chão. Mudanças. Além do mais importante: realizações. Desde que voltei a Porto Alegre, há exatos três meses, tenho respondido com frequência à pergunta:  “E aí? Como é voltar? E a adaptação?” Quer sinceridade? Não há adaptação. Segue tudo na mesma. Caminhei por 270 dias em 360º. Voltei para o ponto de partida e parece que pouco ou nada mudou ao meu redor. O agravante é que não tenho ninguém com quem reconstruir lembranças, o que cria um monólogo de saudades na minha mente – e “deusmelivre” me tornar uma daquelas pessoas com ar nostálgico que vivem de tiradas como “na Europa que é bom”, “ah, mais isto nos Estados Unidos é diferente”. O pessimista é antes de tudo um preguiçoso. Um acomodado. Sabe que é mais fácil reclamar do que agir.

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Hoje eu decidi. Neste mesmo 15 de março. Estou rumo a um passo importante e carregado de mais modificações no que reflete a minha construção. Deu frio na barriga. E tudo que gela o estômago é sinal de sangue circulando. De novo, caio naquele clichê de escolhas e renúncias. Mas me afasto do pavor que me causa o comodismo, o medinho do desconhecido e a fadiga de recomeçar. Tipo aquela música fofa que toca na rádio “é que a gente quer crescer e quando cresce quer voltar do início porque um joelho ralado dói menos que um coração partido”. Por menos “e se” e mais “foda-se”, com o perdão da palavra.

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Falando nisso, quer saber o ponto fraco do meu reajuste nessa vida de antes? Vocês. Vocês aí que não mudaram neste um ano. Que se distanciaram de mim por perder o brilho no olho, não evoluir e deixar o monstro da futilidade lhe engolir. É complicado observar certos amigos indo embora. E não é por mal, por briga, por desacerto. É por desconexão. Virou uma relação heterogênea, que com força pode até misturar as bases, mas logo se dissolve. Vem comigo: eu jamais, jamais, teria a ousadia de indicar um ano sabático para quem quer que fosse. Está fora do poder da maioria. Mas eu sugiro: olhe para trás e pense onde você estava ano passado. Você se moveu? Os objetivos foram alcançados? Você está, ao menos, trabalhando neles? O que deu frio na espinha? Se nada aconteceu, meu amigo, tem algo muito errado aí dentro.  Tente seguir o raciocínio de Fernando Pessoa: “navegar é preciso, viver não é preciso”.

Mala da Vida Real // Final de semana em Gramado

Mala da Vida Real // Final de semana em Gramado

Chamei uma das minhas melhores amigas, a Pamela Zottis​, do #lookdavidareal, pra me ajudar a fazer a mala para um final de semana em Gramado. Veja só:

Mala da Vida Real // Final de semana na Praia do Rosa

Mala da Vida Real // Final de semana na Praia do Rosa

Também tem dúvidas na hora de fazer a mala? Vem conferir as dicas da Pamela Zottis no segundo episódio da Mala da Vida Real  😉

Mala da Vida Real // Carnaval no Rio de Janeiro

Mala da Vida Real // Carnaval no Rio de Janeiro

Quem me conhece sabe que eu odeio fazer mala. Se passar um unicórnio no meio da sala, vai pra mala também. Mas achei uma solução: chamei uma das minhas melhores amigas, a Pamela Zottis​, do #lookdavidareal, pra me ajudar nessa missão.

Espia aí o primeiro episódio do Mala da Vida Real e, de quebra, já pega as dicas para a mala de carnaval no Rio!

Belo Horizonte: não ao pensamento de ódio

Belo Horizonte: não ao pensamento de ódio

Quando coloquei o pé fora do carro para descer na Praça do Papa, em Belo Horizonte, o primeiro fato que reparei foi na quantidade de lixo nas lixeiras. Estavam abarrotadas. Comentei: “Nossa, como se coloca o lixo no lugar certo aqui, né?”. Andando um pouco mais, tive uma visão de toda a ladeira – a praça fica em um dos pontos mais altos da cidade – e da quantidade de garrafas pet, latas e papéis de picolé que se espalhavam por todo o gramado. Lamentei, óbvio, mas tentei abstrair e aproveitei para apreciar o belo horizonte que se avistava lá de cima.

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É que ao longo da volta ao mundo eu aprendi a focar antes no lado bom da vida. Foi assim que meu cérebro se dirigiu automaticamente para a lixeira cheia antes de cuidar a sujeira do chão. Se eu seguisse – porque em determinado momento foi assim – com a ponta do olhar afiada para os defeitos, seria intoxicada e não daria chance para as qualidades se apresentarem, tornando-me cada vez mais amarga. Deste jeito, fui manobrando. Passei a reparar em como o chuveiro era forte, mesmo que a cama fosse dura. Puts, o jantar estava ruim no ashram, mas a bergamota de sobremesa foi tão doce. Em viagem a gente precisa ter o coração aberto. E lá pelas tantas eu me dei conta que não toleraria mais pensamentos de ódio. Era uma premissa para a vida.

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Eu não quero lhe ouvir gastando sua saliva julgando a identidade de Pabllo Vittar, por exemplo. Até porque o seu discurso não vai chegar até seu alvo e só vai envenenar você mesmo, entende? Que é o emissor desta mensagem e está alimentando a lombriga do sentimento ruim no seu âmago. E se chegar, pior. Segue só gerando mal e ainda em escala maior – porque aí cria tristeza, mágoa, dúvida. Não tenho tempo para conversa sem propósito. Nem você, certo? Voltemos a Gandhi: se você quer mudança no mundo, seja-a.

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Belo Horizonte não permitiu que eu me incomodasse com o calor, as favelas ou a possível insegurança. Estavam ali, eu vi, lembraram-me de que voltei a viajar no Brasil. Lamentei de novo. Mas, ainda mais forte do que todos os monumentos de Niemeyer, o Mercado Central, o doce de leite, o queijo e a arte pelas ruas, tinha as pessoas. Ah, as pessoas. São o oposto desse papo negativo e manjado acima. Aquele sotaque combinado ao sorriso, à paciência e à gentileza são amor puro. Gente que é virada do avesso: é a alma que é exposta e envolve o corpo. Os mineiros não vão deixar você ir embora sem provar mais um “tantin” da culinária, vão ressaltar que você deveria ficar mais, está cedo para ir embora, vão lhe abraçar e fazer você se sentir especial satirizando o próprio estilo de vida e o linguajar único. É pensamento de amor. Que faz a gente querer voltar, voltar e voltar. É assim que é. Sem ego excessivo.

A tendência do mundo – assim eu espero – é ser gentil, receber bem, abrigar e acolher. Apenas quem é Nova York e Paris consegue se manter no topo sendo antipático – e o motivo é tradição, apenas, respeito por ser mais velho e ter que engolir certas manias. Tipo quando se acredita que a pessoa está gagá, sabe? Tolera e vai. Arrisco afirmar que Belo Horizonte é o atual centro da moda, da arte e da gastronomia no Brasil. Merece. Conquistou. E, veja bem, sendo legal.

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Retornando à Praça do Papa: quando João Paulo II chegou à Praça Israel Pinheiro para rezar a missa, deixou uma mensagem: “Se olharmos à frente, temos um belo horizonte, se olharmos para trás, também, mas não podemos esquecer que o mais importante é olhar para dentro”. Creio que sim. Não deixa de ser o que se passa com a praça: vai-se até lá para olhar para fora dela e o que está dentro fica em segundo plano. Se perdemos muito tempo olhando para o entorno, esqueceremos de cuidar do nosso interior e corremos o risco que ele se torne um terreno abandonado mesmo, com grama para cortar e lixo espalhado por toda a parte.

Fiji: música de despedida

Fiji: música de despedida

Das coincidências desta vida: na minha última parada na Volta ao Mundo, acabei em Fiji. Mais uma vez, não estava nos planos iniciais, foi outro improviso da estrada. De origem aborígene, Fiji tem uma energia e uma aura estrondosas. Ninguém se apresenta sem apertar a mão alheia com força e olhar dentro dos olhos repetindo o próprio nome. As palavras não são soltas, têm sentido. Bula é o lema da ilha. Significa bem-vindo, bom dia, olá e vida. Principalmente vida. Quando eles entoam as duas sílabas é em alto e bom tom, quase um grito, com veemência, como se saudassem cada momento vivido e cada encontro oportunizado.

Depois de bula e vinaka, que significa obrigada, isa lei é a prece mais repetida pelos locais. Trata-se do título de uma canção cantarolada com fervor e certa melancolia pelos fijianos para dar adeus a quem deixa a região. A crença é que dizer tchau reflete em um misto de sentimentos como felicidade, realização, tristeza, arrependimentos, mas, o mais importante, é sinônimo de memórias. Lembranças que serão levadas para fora da ilha e remeterão a experiências e pessoas que transformaram o caminho.

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E foi nesse paraíso que me despedi “do mundo” para voltar à origem. Em cinco dias, com Isa Lei de trilha sonora ao fundo, meditei sobre a volta. Tive preguiça de tanta maquiagem. De tanto filtro no Instagram. De tanta roupa chique para ofuscar a escassez de conteúdo. De muito foco no que é pouco. De palavras que me soam silenciosas. De quem não soma e sai em uma busca desenfreada por quem acrescente, em vão. Tive vontade de me enrolar dentro do tapete de yoga, me encaixar na monstra e fechar o zíper por dentro. Deixem-me aqui, onde ninguém se importa com o meu sobrenome, com o meu estilo ou com o que tenho a entregar. Eu saboreei, olhei, ouvi, cheirei e senti muito nestes 270 dias para retornar ao ponto de largada como se nada fosse. Quero seguir vivendo entre os que se interessam exclusivamente por me captar como pessoa e cultura. Que não têm curiosidade em desvendar qual a minha serventia.

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A estrada abre todas as portas para que você tenha a chance de ser quem você é, não omitir fatos e ser aceito e admirado por isso. São ritmos diferentes da mesma batida. São pessoas que cruzam o seu caminho com chances consideráveis de nunca mais serem vistas. Verdadeiros confidentes de travessia. E a vida real não é assim. Não é feita só do presente. A gente lida com passado e futuro, com convivência, com rotina, com tropeços e acertos. O mundo nômade parece o ideal pela falta de raízes e a oportunidade infinita de se reinventar e recomeçar, mas não é eterno. Se você se agarrar à mochila e ignorar tudo o que lhe prende ao chão, talvez caia no vácuo e seja engolido pelo vazio. É provável. Sei bem porque tenho dificuldades em organizar as memórias deste ano. Elas se misturam, já não tenho certeza o que foi onde. Até as recordações acham difícil criar vínculo nesta andança sem rumo.

“Darling, it’s time”, diz um filme que gosto.

Já está na hora. É tempo. Vamos? Vamos. Abre o zíper da monstra, sai pé por pé, disfarçadamente, veste ela nas costas e dá meia-volta. Eu sei que você esperava que eu voltasse para casa cheia de certezas na bagagem e um futuro planejado. Vou ter que o decepcionar. Não será assim. Retorno sabendo pouco do que virá, bem pouco, aliás. Mas confiante de que e de quem não quero mais se batendo nas esquinas das minhas ruas. Gandhi tinha seu próprio conceito para felicidade: é quando o que você pensa, o que você diz e o que você faz estão em sintonia. Se assim for, cheguei lá. Por isso, repito como mantra: não rodei todos estes quilômetros para retornar ao lugar de onde vim. Não mesmo. Seria desespero. Seria desesperador.

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It’s time.  E como diria Isa Lei, a música de despedida de Fiji: “Over the ocean your island home is calling, happy country where roses bloom in splendor”. Já fechei a mesinha, coloquei o banco na posição vertical, desliguei o celular e apertei o cinto. Pronta não estou (será que algum dia estaremos?), mas preparada para aterrissar.

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Dicas de passeio na Nova Zelândia

Dicas de passeio na Nova Zelândia

Quem diria que, ao final da Volta ao Mundo, eu ainda ficaria embasbacada com algum país? Assim foi com a Nova Zelândia. Um lugar que você não sabe por onde começar a fotografar ou apreciar. As paisagens são estonteantes de tão lindas, a comida é uma perdição e os vinhos são um caso de amor. Além disso, é o lugar para os esportes radicais, que reúne aventureiros de todos os cantos do planeta. Vou comentar sobre a passagem por Queenstown, Milford Sounds, Arrow Town, Mount Cook e Cristchurch. Vamos lá?

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Queenstown

Blue Pool: se você estiver indo de Queenstown a Mount Cook, não deixe de passar na trilha que leva a Blue Pool no meio do caminho. É facinho de percorrer e a recompensa é a água mais azul que você já viu na vida. Juro! Aliás, o que não falta na Nova Zelândia são trilhas com finais felizes. Tem até um site especial do governo só para você pesquisar e se divertir escolhendo as que você quer percorrer.

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Mount Cook: estamos falando aqui da maior montanha da Nova Zelândia e a mais famosa também. Para chegar lá, é preciso ficar no vilarejo de Aoraki, que não tem nada de nada, só uns hotéis perdidos, e se programar para acordar cedinho e sair para as trilhas. A trilha fica a seu critério – são várias, com diferentes níveis de dificuldade – e apesar do caminho ser bem organizado, não há onde repor a água: prepare uma garrafa grande para não desidratar com o sol a pino e uma fruta para repor as energias. E aquelas velhas dicas: protetor, sapatos confortáveis, boné e óculos escuros. Se você é daqueles bem corajosos, leve roupa de banho e arrisque um mergulho no lago de degelo que fica logo abaixo do Mount Cook. Só para fortes!

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Cristchurch

Segue sendo uma das principais cidades do país, mas desde o terremoto de 2011 perdeu a força no turismo e vem tentando se reconstruir. O resultado é um lugar em obras, com alguns dos principais atrativos turísticos desmoronados. É interessante observar os recursos que o governo vem utilizando para tentar embelezar a cidade, como grafites espalhados por todo canto e intervenções artísticas nas esquinas e ruelas. Algumas lojas e restaurantes se restabeleceram em contêineres e food trucks também ganharam a vez. No entanto, não colocaria Cristchurch em um roteiro novamente, esperaria alguns anos para voltar para lá. Se tiver que optar por outra cidade grande, vá de Auckland.

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Dicas extras: não importa se faz frio ou calor, a Nova Zelândia é famosa pelo sol forte e pelo vento. Para evitar fortes queimaduras, capriche no protetor solar.

O Senhor dos Anéis: a Nova Zelândia tem muito orgulho de ter sido o cenário de uma das sagas cinematográficas mais famosas do mundo. É fácil encontrar referências por onde se passa e, para os mais fãs, há até tour específicos que circulam pelos principais sets de filmagem. Aliás, uma boa sugestão é visitar a Hobbiton, set de filmagem do Hobbit. Não consegui incluir o passeio no meu roteiro, pois fica ao norte do país e acabei ficando mais pelo sul, mas já é um bom motivo para retornar, né?

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