La zapateria: a botina mais estranha da cidade

O vestido pode ser de grife e o salto alto Louboutin, mas quando eu coloco aquele brinco branco e preto geométrico, não há o que se destaque mais no look. Um segredo: ele foi trabalhado em coco e adquirido por vinte pilas, como se diz aqui no Sul, na beira-mar de Trancoso. Aliás, na outra vez que visitei a praia baiana, já havia comprado pulseiras e um anel da mesma vendedora ambulante, tamanha graciosidade de suas peças.

Foi mais ou menos por aí que descobri que a moda de um determinado lugar deve ser observada com delicadeza. Também passei a priorizar minhas compras: prefiro adquirir algo que sei que não encontrarei em outras partes do mundo e que tem a essência da região em que foi produzido.

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Não tem erro. Por uma bolsa Chanel, você pode ter passado o cartão de crédito em qualquer capital deste mundão, e por aquela sacola de palha trançada tingida com suco de frutas? Não é bem mais divertido? Calma lá. Fica o alerta: artesanal é nada barato. Custa muito. Mas tem valor agregado. Sinto que quando deixo uma loja levando um produto trabalhado de forma tão minuciosa que chega a ser imperfeito carrego um pedaço do lugar. É um verdadeiro souvenir para a vida.

No Peru, não foi diferente. O artesanato local é valorizadíssimo, ainda mais quando se trata de roupas produzidas com pelo de alpaca bebê (ninguém sacrifica o animal, o termo é referente à primeira tosa do bicho). Mas eu bati o olho mesmo foi em uma sapataria no Barranco – bairro descolado que ganhou o meu coração em Lima. Não tinha placa na frente, a portinhola nem era tão acessível, mas pelas grades da janela dava para espiar uma vitrola tocando e milhares de pares de calçados coloridos.

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Dei jeito de entrar. Descobri lá dentro um cubano que, após anos morando na Itália, havia dominado a arte da sapataria. Alejandro era seu nome. La Zapateria era o nome do espaço. A fábrica, rústica em sua essência, ficava nos fundos. Na frente, os modelos de calçados estavam expostos em toda e qualquer área livre. “Gostei desse. Tem 36?”. Ele sorriu: “Não, aqui não tem numeração, é por molde, o que servir, serviu”.

Dá para acreditar na veracidade disto? Quer algo mais legítimo? Quando provei uma botina que se ajustou no meu pé de tamanho quase infantil tive certeza que havia sido pensada para mim. Levei. Hoje, reparando bem na compra, não vejo tanta beleza externa. Mas me diz tanto. Sobre o Peru, sobre moda, sobre mim, sobre lugares que não se ajustam às pessoas, mas fazem com que elas se ajustem a eles.

No fim, acho que é disto mesmo que precisamos. Deixar os padrões de lado, calçar a botina mais estranha da rua e sair pisando bem firme por aí.

Adendo – La Zapateria – Avenida Pedro de Osma, 135 – Barranco