Gratidão ao Peru

A verdade é que eu queria me desculpar com o Peru. Escrevi pouco sobre. O país merecia mais palavras minhas – que é o que considero ter de relevante a oferecer. Afinal, recebeu-me com céu azul, festas religiosas e o melhor ceviche de todos justo em um momento de transição.

Representou bem mais do que a minha primeira viagem enquanto Ida e Volta. Pensem comigo: deixei a Zero Hora em uma sexta-feira, depois de intensos seis anos de história, e, na segunda-feira, adentrei Lima com mala e cabeça fervilhando.

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Lembro de, recém-chegada em Cusco, sair para dar uma volta na Plaza de Armas e ser surpreendida por centenas de crianças coloridas dançando em homenagem à Virgen del Carmen. Sentada à beira da calçada, mantive os olhos estalados – para não perder nada e não deixar que, ao piscar, a lágrima descesse e denunciasse o quanto havia baixado a guarda. Obrigada, pensei. Tenho que agradecer ao destino, à sorte, à tradição, à cultura, à bagagem. Tenho que. Pensarei uma forma de. Vou pintar este quadro com ajuda do dicionário e alertar o mundo para vir o quanto antes para cá. Corram! É reenergizante. Melhor que guaraná e açaí.

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Só que o site não estava no ar e o Instagram da plataforma tinha poucos seguidores. Vieram outras viagens, temas diferentes e passou. Esqueci de relatar. E, em um almoço na semana, debatendo sobre situações cotidianas, um amigo muito sensível finalizou o raciocínio: “as pessoas são muito ingratas”. Confesso que engoli o pedaço de frango meio em seco. É isto. E olha que ironia do destino: parece que gratidão está na moda.

Sim, sim, acredite. É tendência. A turma das redes sociais vem pregando este discurso por aí. Gosta de eternizar com hashtags e frases de efeito a “gratitude” (criaram até uma nova palavra para todo este amor) para agradecer ao universo, à natureza, à vida.

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Vamos lá, Aurélio, não me deixa sozinha nesta: ação de reconhecer ou prestar reconhecimento a alguém por uma ação ou benefício recebido. Duas vezes ação em uma mesma frase para não deixar dúvidas. Vai além de palavras – e olha que sou fã delas. É agir. Dizer “muito obrigada” é lindo, sem dúvidas. Mas o fato de ser grato só é solidificado quando tem gesto. Quando tem retorno. Não é uma dívida eterna. Não é para ser assim. É um sentimento genuíno de se entregar a quem um dia lhe ajudou. Pode ser difícil, sabe. Afinal, o ser humano, por sua natureza, é egoísta. Passada a dificuldade tende a eliminar da memória que precisou do outro para ultrapassá-la. Fica por isso mesmo. Até por que é deveras mais fácil agradecer ao universo do que ao colega que está ali ao lado.

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Já deixei de ser grata com uma pessoa que me cuidou. Foi um mero detalhe. Faltei a um jantar que era importante para ela. Desculpei-me, mas sei que perdi algo valioso naquele dia. Não o encontro, mas a dedicação e a solicitude de alguém que me esperava. Meu amigo tem razão: a ingratidão não tem credo, nível educacional ou social, mas tem ego. Atualmente, tenho focado em agradecer menos às plantas, ao mar e à lua. Venho mirando nas almas.

Quanto ao Peru, vou cumprir minha dívida. Mas não será em um texto duro como este, ou em um parágrafo chocho que serve como pretexto para outras linhas. Será com toda a verdade que a gratidão merece ter. É assim que funciona.