Machu Picchu: Não espere o tempo passar

Eu confio no Horácio. Pô, são 20 anos guiando no topo da montanha. Formado em História, o boliviano pensou “chega de tudo aquilo que já estamos carecas de saber, quero desvendar um mistério”. Foi parar a 2,4 mil metros de altitude em Machu Picchu, no Peru (já leu nosso texto Gratidão ao Peru?), um lugar que não tem história. Não é que não tenha passado. Óbvio. Mas, apesar de arqueólogos trabalharem intensamente por aquelas bandas, ainda não foi solucionado o mistério sobre as origens e os fundamentos da “cidade perdida dos Incas”.

IMG_6959

Ao longo do tour, Horácio acariciava as pedras, apontava sombras, lia entrelinhas, mistificava sobre o que já foi apurado e ordenava para o grupo: “chicas, olhem bem, fotografem. Isto vocês não vão encontrar no YouTube e no Facebook”.  Ele era um especialista sobre o tema. Por isso, tomei como um alerta quando, lá pelas tantas, entre uma escalada e outra, ele ajeitou o chapéu, cruzou os braços e balbuciou:

–  Que bom que vocês vieram. Em 10 anos, Machu Picchu será interditada. Não suportará mais a carga de milhares de visitas ao dia.

Vocês leram com atenção?

IMG_6947

Ao que tudo indica, em 2026, não teremos mais uma das sete maravilhas do mundo acessível à visitação.

Às vezes, entristeço-me com a falta de limites do turismo. Não tanto por parte do turista, que já desisti de tentar entender a nossa espécie. Mas por parte dos habitantes locais. Se está demais, recue. Lembro da minha decepção ao chegar em Koh Phi Phi, na famosa ilha tailandesa do filme A Praia, e deparar com garrafas pet boiando no mar e ambulantes lançando tocos de cigarro na areia. E abro um parêntese aqui para salientar que, neste ponto, Fernando de Noronha é um exemplo. Já presenciei guia turístico se jogando em alto mar para juntar lixo  – que alguém havia “deixado cair” do barco – e garantir que ficaria tudo 100% com as tartarugas.

image3

Segui o conselho do Horácio. Deixei as selfies de lado, sentei lá em cima para comer uma maçã enquanto refletia sobre a vida, apreciei cada segundo do passeio e sim, senti a energia que emana daquele recanto do mundo. Fui abençoada com um dia de sol, sem ser muito calor, e um céu azul. E decidi que iria repassar o recado do boliviano para quem quisesse me ouvir.

Seria minha maneira de agradecer ao Peru e as boas vibrações que recebi.

Então, vá. Vá logo. Vá cedo. Se for possível, vá para assistir ao nascer do sol. Se for ainda mais possível, chegue caminhando, via uma trilha de meditação e auto-conhecimento. Ou vá pela maneira tradicional. Mas vá. Gordos, magros, jovens, velhos… vi todo o tipo de gente no sobe e desce da montanha. Não tem erro. Não tem essa de altitude – é só seguir as orientações conforme a carta (no dia anterior, evitar comidas gordurosas, descansar bastante e se manter hidratado). Vamos combinar, quem aqui vai abrir mão das possibilidades boas da vida por conta de uma suposição? Sem chances.

Deixo uma última sugestão do Horácio: passar a noite na cidade dormitório Águas Calientes garantindo o primeiro ônibus na manhã seguinte rumo a Machu Picchu: “Chica, isto aqui depois das 9h vira a Disneylândia”. Ah, e depois de retornar à base, brinde com cerveja artesanal e recarregue as baterias no restaurante Índio Feliz. Vale a parada antes de retornar a Lima ou Cusco. Quando passamos por experiências fortes temos que dar tempo para a mente respirar e organizar tudo aquilo que assistimos e queremos que fique guardado eternamente na memória. Caso contrário, não dá tempo.

** Já deu uma conferida no roteiro em grupo para o Peru da Agência Planeta Viagem? Fica ligado na oportunidade.