Paris: a cidade que escolhi para sonhar

Dia desses, ao visitar um amigo paulista que tem uma cobertura no Rio, em frente ao mar, com uma vista da Barra de tirar o fôlego, exclamei: Nossa! Por que tu não vens morar aqui? (O Gabriel tem um trabalho e uma condição que poderiam lhe proporcionar isto). Meio debochado, ele respondeu: Não sabe? O paraíso não é para morar, é para visitar – e virou a garrafa longneck para mais um gole da cerveja estupidamente gelada.

Aquilo bateu. Porque fez sentido, óbvio. Quantas pessoas conheço que vivem no Rio e chegam a passar meses sem arrastar os chinelos na areia. Creem que isso seja bem normal, aliás. E acham graça do povo de fora que chega desesperado para se jogar no mar e garantir um biscoito Globo com chá gelado à beira. Visitas são rápidas, intensas, precisam de sol, jogam contra o tempo.

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Quando em Paris, um pouco triste por ter acabado de me despedir dos meus pais, meu coração se encheu. Era fim do dia, fazia um frio até agradável e saí para uma caminhada e um café no Place Vendome. Enquanto olhava a vida passar pela janela do bistrô, concluí: moraria aqui. Talvez este seja o único lugar em que eu toparia passar a eternidade. Foi uma espécie de certeza que me cutucou naquele momento.

Passaram-se 10 dias, eu vivendo o sonho parisiense – ioga nos jardins do Louvre, croissants matinais, moda natural, sem exageros, e pessoas lendo livros de verdade no metrô –, encontro uma amiga francesa para almoçar. Claudine. Como uma legítima local, ela apareceu em seu blazer azul-marinho, contou-me sobre as obras no seu apartamento no Marais, levou-me para experimentar o melhor Paris-Brest da cidade e para passear na região de BeauBourg. Foi quando parou em frente ao Centre Pompidou e gargalhou: isso não é horrível? Será que esperaram essa obra fica pronta para se darem conta de que estava ruim? Sim, a casa é dela, está no direito da zombaria. Mas confesso nunca ter me dado a chance de observar por esse lado arquitetônico.

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Conversa vai, conversa vem, e, Claudine, que já passou também por experiências nos EUA, na Austrália e em Tóquio, solta: “não quero passar o resto da minha vida aqui”. Quase me engasgo no Kir. Ela segue o discurso. Eu peço para voltar o disco. Como assim? Por quê? Por que em sã consciência? Desenha, por favor. Ela foi sucinta no argumento: alegou algo sobre a segurança, mas ressaltou que o problema está nas pessoas. Não são gentis. Não gostam de dar informação, empurram no metrô, não fazem questão de se entrosar ou procurar amizades. Finalizou: sabe o que é pior? Não importa o dia ou a hora, elas parecem estar sempre tristes.Tive que concordar. Ela estava certa.

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De certa forma, me senti um pouco como no filme Meia-Noite em Paris. A cidade-tema é só uma coincidência. A referência é ao fato de que, na trama de Woody Allen, o personagem interpretado por Owen Wilson consegue voltar ao passado. Insatisfeito com o momento em que vive, ele passa a buscar os anos 1920 e confraternizar com os escritores e ícones que admira. “Essa sim era uma época para se estar vivo”, vibra. No entanto, qual a surpresa do protagonista ao descobrir que as pessoas que o encantam também estão inconformadas com a época em que marcaram história? Bom mesmo seria voltar ainda mais no tempo.

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Seguimos a caminhada e um avião risca o céu. Deixa aquele rastro branco rasgando o azul. Convido a parisienne a espiar: “Acho tão lindo como o céu é facilmente desenhado aqui”. Ela fica surpresa: “Vocês não têm isso?” Entrego: “Não como aqui”. Ela sorri: “Talvez seja por conta dos prédios altos e da poluição de lá”. Verdade. E reconheço que a rotina tem a força de transformar a beleza em banalidade e ofuscar o detalhe. Não abandonei completamente a ideia de morar em Paris um dia. Mas temi pelo meu paraíso. Talvez seja melhor manter a frequência de visitas.

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