Marseille e Dijon: Será que entrei em uma furada?

Já consigo reconhecer um comportamento meu nesta Volta ao Mundo. A cada mudança de lugar sou acometida por uma certa melancolia. Os fatores fechar as malas, encontrar o novo endereço, me localizar na cidade, ver como faço o café na cozinha diferente… tudo isto, de alguma forma, me deixa agitada. Não me desce bem. Adaptação costuma ser difícil, não é? Então, imagina uma a cada semana; às vezes, mais.

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Ao deixar Paris para visitar Marseille e Dijon, pontos que escolhi ao acaso no mapa, estava contente. Sempre ansiei por conhecer mais da França, esse país que tiro um pouco, ousadamente, para meu. Impulsiva como sei ser, decido e pá pum: resolvo. Procurei passagens baratas, hospedagens em conta, dei uma googlada mais ou menos nas imagens e eras isto. No entanto, depois de tudo esquematizado, começo a receber “sugestões” de diversos lados de que não havia escolhido os melhores destinos. Côte D’Azur é tão lindo, por que Marseille? Mas Dijon, Fernanda? Dijon? Gosta de mostarda, é? Tantos outros lugares mais interessantes…

Isso foi me dando uma gastura. Começou a bater aquela certeza de que estava perdendo tempo e dinheiro. Um é o outro, afirmam por aí. No primeiro dia em Marseille, demorei a sair do hostel. Deu aquela deprê. Tudo novo de novo. Vai na recepção, pede o mapa, senha do wi-fi, tenta se situar no mundo e bora lá conhecer o que tem por aí. Já saí com aquele olhar enviesado, Nice ou Cannes teriam sido bem melhor.

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A sorte é que tenho uma mochileira interna vivendo no meu estômago que começa a me chutar, saracotear e insiste que tenho que percorrer a maratona do turismo de resultados. Dar os “checks” nas atrações locais. “Ou você toma uma atitude e abre a porta deste quarto, ou eu vou empurrar seu intestino em direção à garganta”, ela me ameaça com o dedo gordinho em riste. Eu, hein? Medo.

E naquele clima de “quem está na chuva…”, botei a sola do tênis para gastar. Fui surpreendida. Não preciso conhecer Nice ou Cannes para saber que Marseille não tem o mesmo glamour. Marseille tem cheiro de peixe fresco no metrô e restaurantes com entrada, prato principal e sobremesa a 16 euros. Mas levanta verdade. E além de exibir o Mediterrâneo no clima 50 tons de azul e verde, é um polo de história. Por exemplo, o MuCEM, museu ligado ao Forte Saint-Jean, é uma aula de como trabalhar o moderno e o tradicional concomitantemente. Caminhar pelo Vieux-Port e tomar um sundae assistindo o pôr-do-sol atrás das centenas de barcos ancorados foram prazeres indiscutíveis.

No final das contas, é um Côte d’Azur que dá para deixar o smoking em casa, é de calça jeans e camiseta. Outra proposta, e a mais casada comigo neste instante. Bingo!

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Dijon. Bem, aqui eu já estava conformada que passaria três dias comendo mostarda e basta. É o que temos, pensei. Só que não. Não mesmo. Dijon é a capital da Bourgonge, leia-se região dos vinhos – opa, vinho com mostarda, então! -, e uma das cidades que foi menos abalada com as guerras no país. Sendo assim, conserva boa parte da arquitetura original no Centro Histórico. Vocês não imaginam o que isto significa. A sensação que tive quando desci a Rue de La Liberte era a de estar entrando no cenário de A Bela e a Fera. Vontade de sair cantarolando “bonjour, bonjour”, a música inicial do filme. Além do charme das construções, o centro é fechado para carros, o que proporciona o livre trânsito de pedestres e bicicletas, as mesas e cadeiras são facilmente distribuídas nas ruas para um café ou drinque e artistas têm um grande espaço para intervenções.

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Voltemos à mostarda. Sim, experimentei uma ótima salada com, e visitei a Maison Maille, boutique mais antiga da cidade que vende diversos tipos de. Mas, desculpa aí, dona mostarda, você não representa um quarto do que o lugar pode entregar – aliás, a principal produção de mostarda atualmente vem do Canadá. Vou contar mais: comi muito bem. Melhor do que em Paris, acreditem. Além dos bistrôs que servem tudo cuidadosamente, a cidade é famosa pelas casas de chá. As cartas e os bolos – caseiros mesmo – são um capricho. Pega no detalhe.

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Acredito que não restaram dúvidas de que não me arrependi das escolhas, digamos, sem tanto estudo prévio. Não acho que tive sorte. Bem longe disso. Acontece que cada lugar tem a oferecer. Basta a gente ser mais positivo e vasculhar. Talvez Nice, Bordeaux ou Lyon sejam tão bacanas ou mais, mas Marseille e Dijon foram tudo o que eu precisava para o momento. Trata-se de uma questão de pensar menos lá e viver mais cá.

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