Lisboa: jeitinho português

Confesso, tinha um certo preconceito com Portugal, ok? Não sabia explicar direito qual era o motivo, mas não tinha desejo de conhecer a terra do bacalhau. Sempre que começava a fechar um roteiro europeu acabava riscando o país do mapa. Desta vez, não tive escapatória. Aliás, achei que a volta ao mundo era uma boa desculpa para conhecer Portugal. Não teria que abrir mão de nenhum outro destino para chegar ali.

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Não foi difícil descobrir de onde vinha esse preconceito. Cheguei em Lisboa justamente na noite em que o time de futebol Benfica havia ganhado a Taça de Portugal. Desci do aeroporto em meio a um trânsito complicado, ritmado por buzinaço, pessoas com cabeça para fora das janelas gritando e balançado camisetas nas cores da equipe. Na praça principal da cidade, os torcedores se reuniam desde cedo para petiscos e cervejas. Comentei com o motorista do Uber: estou me sentindo em casa.

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Pronto. Era isso. Eu sabia que encontraria um pedaço do Brasil por estas bandas – e não que eu não ame o meu país, mas quando posso viajar, busco algo de diferente. Além da língua, obviamente, percebi diversas semelhanças entre os dois povos. A maneira de se vestir com uma boa dose de vaidade, a mesa farta na hora do almoço, a praticidade em resolver perrengues, os doces – tem pudim de leite condensado! – e aquele sorriso fácil acompanhado de uma piada, mesmo que não sejam dias tão propícios para mostrar os dentes.

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É claro, você deve estar pensando, estamos falando dos responsáveis pela nossa colonização. Estranho seria se assim não fosse. E aí, no restaurante, o garçom não me cobrou a sobremesa como uma cortesia e eu, em contrapartida, dei uma boa gorjeta para agradecer. Depois, refleti: opa, talvez quem tenha saído em desvantagem nessa negociação tenha sido o dono do estabelecimento.

Hum, até os “jeitinhos” de cá e lá são semelhantes. Impossível, então, que eu não pare para pensar a respeito do momento político que o Brasil está vivendo.

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Resolvi dar uma investigada na história da corrupção no nosso país e o que descubro? Começou na época da corte portuguesa. Fuçando aqui e ali, encontrei uma entrevista da BBC em que a historiadora paulista Denise Moura faz a seguinte declaração: “Quando Portugal começou a colonização, a coroa não queria abrir mão do Brasil, mas também não estava disposta a viver aqui. Então, delegou a outras pessoas a função de ocupar a terra e organizar as instituições aqui. Para convencê-las, a coroa era permissiva e deixava que trabalhassem sem vigilância”. Aliás, não tinha aquela história que a gente aprendia quando era criança de que o “homem branco” entregava um pedaço de espelho para um índio esperando um pedaço de terra em troca? Sim, sim, tinha isso.

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Para quem já está com aquela conclusão imediatista de que “sabia, viu, o Brasil é muito azarado, foi o único país da América do Sul que não ficou aos cuidados da Espanha”, aproveito para ressaltar que, quando o tema é corrupção, a Espanha está pior que Portugal. Dado confirmado pela Transparência Internacional. E após trocar uma ideia sobre a situação do atual presidente Michel Temer, o motorista do Uber concluiu: “aqui, o nosso problema é a falta de dinheiro, não a corrupção como vocês, uma pena, né? Vocês têm um país tão bonito”.

Parece-me que por mais que a corrupção brasileira tenha uma raiz certa ela acabou se tornando autodidata pelo caminho. Como se fosse um adolescente revoltado com o professor, que acredita de verdade que sabe mais e melhor. Assim, o mestre acabou sendo ignorado, passado para trás e a “propina”, a “vista grossa” e o “favorecimento” atingiram outro nível. E me corrijam se estiver sendo romântica demais por conta dos efeitos da droga chamada estrada, mas acabo em devaneios de que, talvez, se Dom Pedro não tivesse sugerido a morte contra a nossa dependência, a situação poderia estar menos grave.

E, em algum momento no caminho, apesar de continuar com a essência da malemolência, Portugal se deu conta que a corrupção não era a opção mais interessante para chegar ao fim da linha. Para se ter uma ideia, o presidente atual deles, Marcelo Rebelo de Sousa, bateu todos os recordes de popularidade. A aprovação do político chega a 97%. Para mim, isso quer dizer que lá pelas tantas a população resolveu que era hora de dar as mãos e andar em sincronia. Os deslizes – como a questão da gorjeta que relatei acima – vão aparecer vez que outra, mas, ao que tudo indica, estão perdendo a força por total falta de apoio do próprio povo.

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Não é ao que assistimos no Brasil. O que observei de longe nesta semana foi uma guerra de eleitores. Se entendi bem, teve quem comemorasse às gargalhadas que mais um roubo escandaloso tenha ecoado em Brasília só para, no final das contas, poder apontar “viu, eu tinha razão”. De outro lado, a situação se justificando e argumentando que “é muito engraçado que agora a esquerda dá razão para a imprensa”. Vendo daqui, parecia uma discussão pós-Grenal, sabe? Um reflexo deprimente da desunião que o país vive e que demonstra que, definitivamente, não, o Brasil não vai para frente. Não sei se conseguíramos ser 97% em torno de uma decisão, mas a gente poderia começar entrando em um consenso de que está tudo errado. Tudo ruim. Que não deveríamos ter corrupto de estimação, como dizem por aí. Será que ainda tem como pegar aquele pedaço de espelho de volta (seria bem útil, está faltando se enxergar) e devolver a terra para os índios?

Rá, e seguem dizendo por aí que o português é o burro e o brasileiro é o malandro da história.

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