Dubrovnik: game over?

Hoje eu vou contar uma historinha. Da Ana. Nascida em uma família de boas condições financeiras em Dubrovnik, a croata teve uma infância com Toddy à vontade, almoços fartos, brinquedos novos e roupas da moda. Aos 20 anos, Ana decidiu que gostaria de estudar Letras. Seu pai, de amoroso que era, disse que fosse e se dedicasse. Ainda lhe deu um carro para facilitar no trânsito até a universidade.

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Ela não precisaria trabalhar, mas trazer bons resultados da faculdade. Assim foi. Até que, certa noite, enquanto a família se reunia ao redor da mesa para o jantar, 80 bombas foram jogadas em Dubrovnik. Não uma, não três, mas 80. Sem tempo para refletir, ou recolher qualquer bem material, eles fugiram. Correram, esconderam-se e, por sorte, salvaram-se. Tratava-se da Guerra Civil da Iugoslávia, travada nos anos 1990.

Quando pode, enfim, regressar para o seu lar, não o encontrou. Só escombros. Entre lágrimas, seu pai disse: “Ana, se você quiser continuar estudando, siga em frente, mas eu não tenho mais como ajudar. Restou nada”. Calma, não vá embora, o final da história é feliz. A guria optou por seguir com os livros e, nas horas livres, trabalhava como faxineira. Aos poucos, foi retomando a força, junto com o país, e, contou-me pessoalmente esta anedota, em claro português, como guia turística da cidade. Que maluquice é poder conversar olho no olho com alguém que esteve, em carne e osso, dentro de uma guerra. A gente – da minha geração, anos 1980 – está habituada a ler, assistir a filmes e até refletir sobre o assunto. Mas quando senta a sua frente alguém, uma jovem, que esteve no meio da bagunça e ainda teve tempo e estrutura mental e física para recomeçar parece surreal.

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Ana não tem fotografias de infância. É um dos seus lamentos. Aquele medo que todos temos, mesmo com o álbum do bebê à mão, de deixar cair em esquecimento a criança que fomos. E dá gargalhadas ao lembrar do seu closet achando bobagem: “eu tinha 50 pares de sapatos!”. Isso me faz recordar uma entrevista da jornalista Eliane Brum com um índio brasileiro que usava as cicatrizes no corpo, tudo que havia lhe restado, para remeter ao passado. As marcas na pele eram sua memória escrita certa por linhas tortas, bem tortas (depois não sabem por que me tatuo).

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A croata não teve cicatrizes externas da batalha, mas internamente reconhece bem as feridas abertas. Ela contou que, no pós-guerra, o uso de antidepressivos cresceu consideravelmente na cidade, mas para ela não foi necessário. Consigo deduzir que a diferença no caso de Ana foi perder só bens materiais, não pessoas, como milhares de seus conterrâneos. Casa, roupas, carro, dinheiro, joias, livros, fotografias, cartas e 50 pares de sapato sumiram em brasa. Mas só. E tudo.

O que me impressiona é a rapidez como se recompôs.

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Atualmente, Ana é casada – com um homem que conheceu na faculdade –, tem dois filhos, casa própria e o emprego que objetivou. E não só Ana, a cidade toda. A guerra foi há 15 anos, em um tempo recente, e nem você, nem eu diríamos que dezenas de bombas não deixaram pedra sobre pedra daquele lugar. Está novo. Brilhando. Radiante. Encantou até Hollywood. Serviu de cenário para Game of ThronesStar Wars e Robin Hood. Ora, como pode? No Brasil, temos obras que deveriam ficar prontas em um ano e já estão há seis remando, por exemplo. E aí, meu pai, do auge dos seus 50 e poucos, entrou em cena: “Simples, eles não tinham nada a perder”.

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Sim, é comprovado que países que passaram por situações dramáticas – como guerras – se reerguem em uma velocidade admirável por um motivo óbvio: nada a perder. Tudo já se foi, não há mais dinheiro na conta bancária, bairros diferentes para morar, classe social ou intelectual que realmente se enalteçam. Juntos à estaca zero, mãos são dadas e o verdadeiro espírito de “vamos juntos” emana no povo.

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Alemanha é um caso clássico – da destruição completa para uma das principais potências mundiais. Assim se reconstrói um país. E assim se reconstruiria uma nação – se não ficássemos brigando por partidos políticos falidos. Nesta situação, a guerra está intercorrendo, só que não sendo visível a olho nu seguimos acreditando que não perdemos nada. Bizarro.

Mas voltemos à Ana e ao seu recomeço enquanto alma. Ao encerrar sua história e responder minhas dezenas de perguntas, ela brincou: “Digo que antigamente eu comprava quinquilharias, atualmente, ajudo a vender meu país”. Agora, retomando um pouco o raciocínio do meu último texto, sigo imersa nesta ideia fixa da coragem em contrapartida à loucura, coloque-se você no lugar dela.

Se tudo que você tivesse hoje fossem as pessoas que você ama, por onde você recomeçaria? Quais seriam as suas prioridades? O que faria diferente? Ousaria tentar algo completamente novo? E, fechando o raciocínio questionador: sabe o que é mais doido? Provavelmente – e eu torço muito por isso –, as pessoas que você ama estão à sua volta. E o melhor da sua versão da história é que não há bomba à vista, o que seria um facilitador do processo.

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