Viena: que a arte nos aponte uma resposta

“Balé é assim, as pessoas adoram”, explicou o concierge por trás do aviso de “esgotados” dos ingressos para assistir O Lago dos Cisnes, na Ópera de Viena. Além de vender todos os bilhetes para o público, o teatro também costuma abrir um espaço atrás das poltronas para que as pessoas possam acompanhar o espetáculo em pé – por um valor bem menor – e colocam cadeiras no hall de entrada em frente a um telão. Insuficiente, do lado de fora da Ópera, na calçada, mesmo, outra tela enorme é instalada e permanece ao longo das estações quentes para quem quiser trazer sua cadeira e se posicionar para apreciar o show.

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Compreender um balé de repertório como o assinado por Rudolf Nuriev não é para qualquer um. São quatro atos desenrolados em três horas de dança clássica. Observei que a cada intervalo o público diminuía. Natural, visto que muitos ali eram turistas e estavam, literalmente, “pagando para ver”. No meu caso, como ex-bailarina – ou uma tentativa de – não pisquei em momento algum.

Vibrei a cada pirueta e aplaudi entusiasmada cada coreografia reconhecida pela memória.

Admirei a personagem principal, a leveza dos seus braços, o alongamento e o equilíbrio. Ah, o equilíbrio. Eis o principal segredo de uma bailarina. Não é a perna alta ou o pé bem esticado, como alguém poderia deduzir, mas a suavidade e a estabilidade.

ballet-em-viena-na-austriaaquela noite, antes de dormir, pensei sobre a situação de estar na plateia, não no palco. A retrospectiva: comecei a caminhar um dia antes de completar um ano. Aos dois, calcei minha primeira sapatilha e colei um pé ao outro sabendo que aquela posição nunca mais significaria estar apenas com o corpo reto, estável: seria para sempre a sexta posição na escala de Beauchamp.

A partir desse ponto até os 16 anos, não consigo lembrar da minha rotina sem que a dança tenha sido parte. Em determinado momento, eu diria que por volta dos 11, tornou-se prioridade. Saía de casa com a mochila carregada de apetrechos – grampos, meia-calça, malhas, meia-ponta, ponta – e passava até seis horas por dia na escola só trocando de sala de aula. Não existia ritmo ou modalidade que eu não tivesse experimentado e, com isso, parecia que meu futuro estava se projetando.

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Só que a arte não tem dó. Não dá trégua. Não aceita meio termo. Eu era boa. Tinha carisma, pegava a sequência rápido, mas não era excelente. Minha perna não subia com facilidade, meu giro não tinha a força que eu gostaria, nem o salto causava impacto. Eu poderia treinar horas e horas, como vinha fazendo, e, sim, eu ficaria cada vez melhor. Mas nunca teria alta performance. Enquanto eu assistia ao balé na Áustria, pensei que aquela menina – que interpretou cisne branco e negro – tinha o dom.

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Que maravilha é descobrir as verdadeiras aptidões e poder entregá-las em sua melhor forma ao mundo. Ainda assistindo ao show, concluí que eu poderia estar naquele palco – com a dedicação e vontade que tinha, era bem possível – mas seria parte do corpo de baile, talvez? Encenaria vez ou outra como figurante? Provável. Conhecendo-me, seria uma eterna frustrada.

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Comecei a me dar conta de que algo estava errado quando passei a ter crises terríveis de nervosismo antes de entrar no palco. Não aquelas normais, de frio na barriga e vontade de fazer xixi antes de uma apresentação importante. Eu tremia dos pés à cabeça, tinha calafrios e, caso desse algo errado na performance, me martirizaria, choraria, daria vexame. Era um reflexo claro da insegurança. Mas eu segui tentando por um tempo, dancei no palco de Joinville – o festival mais importante do Brasil –, encarei seletivas para entrar para uma companhia profissional, dei aulas. Só que a arte não tem pena. Ela escancara quando você não é perfeito para administrá-la.

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Dia desses conversava com uma amiga sobre alguém perdido emocionalmente, que vinha fracassando em projetos desalmados, e ela emendou: “ele está desesperadamente tentando encontrar a própria arte”. Aham. Aí que me refiro. Tive que fazer muita bolha por baixo do gesso da sapatilha de ponta, esfregar o pano no breu para não deslizar no palco e passar horas me alongado e sofrendo em silêncio para chegar à conclusão de que a minha arte vinha de outro lugar.

 

Sou das mãos, não dos pés.

Gosto de repetir que aprendi a ritmar as palavras. A tempo. Está aqui a minha verdadeira arte, que não me ataca os nervos antes de alguma publicação, em que a ansiedade tem um nível socialmente aceitável. Se tenho rancor da dança? Sou uma eterna apaixonada. Sou grata por ter me impulsionado para o piano, pelas primeiras palavras em francês mas, acima de tudo, por ter me apontado a resposta – plagiando Oswaldo Montenegro. É preciso simplicidade e modéstia para fazê-la florescer.

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Estarei eternamente na primeira fileira – ou na última – dos teatros pelo mundo aplaudindo cada bailarino que cruzar o meu caminho e vibrando com os ingressos esgotados. Sou fã e encontrei a minha posição perante eles: reverenciando-os da plateia. Na verdade, quer vocês acreditem ou não, desde criança eu assistia a fitas VHS com balés de repertório.

Talvez, desde lá, já estivesse implícito qual era o meu verdadeiro papel nessa paixão, visto que na minha primeira performance no palco, o meu acessório da cabeça caiu e eu chorei até alguém vir ajeitá-lo. A minha torcida é para que a gente se encaixe neste mundo. E que não viremos as costas para o que é talento – por mais difícil que seja bancá-lo.

É egoísta privar o mundo da arte que é genuinamente nossa.

Rudolf Nuriev, o autor d’O Lago dos Cisnes, dizia: “Técnica é para onde você foge quando está sem inspiração”. E se você não tem êxito na técnica, meu caro, repense o seu lugar.