Austrália: inteligência, amor e coragem

De alguma maneira a temporada em Outback, no deserto australiano, mostrou-me que a viagem estava chegando ao fim. Um dos motivos era que a partir da minha chegada em Brisbane eu não estaria mais sozinha até o final do caminho. Aos poucos, minha família iria se juntar a mim e voltaríamos juntos ao Brasil. Desde o princípio já estava combinado que assim seria: uma espécie de resgate da viajante. Por isso fiquei tão sentimental ao embarcar no avião que me levou de Alice Springs a Brisbane. Simbolizava o encerramento do ciclo de solidão. Não é solidão no mau sentido, ela foi uma baita companhia ao longo destes 250 dias.

Também foi quase sem querer – ou por mais uma das trapaças explicadas por Freud – que me encontrei no Teatro de Brisbane assistindo ao Mágico de Oz. Eu nem lembrava muito bem do enredo, só planejava me reconectar com as artes que ficaram um tanto de lado na Ásia. Para refrescar a memória: trata-se da história de Dorothy, uma órfã que mora em uma fazenda com os tios e sente que ainda não achou seu lugar no mundo. Em um forte furacão, Dorothy não consegue se abrigar e acaba levantando voo junto com a casa, que se espatifa no Mundo de Oz, um lugar cheio de bruxas, fadas e seres encantados. O objetivo da menina passa a ser voltar para casa e, para tanto, ela precisa seguir o caminho das pedras amarelas para encontrar o castelo do Mágico, que pode lhe auxiliar.

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No trajeto, Dorothy tem de se munir de inteligência, amor e coragem, representadas respectivamente pelo Espantalho, Homem de Lata e Leão Covarde. O que, no final das contas, é a receita de êxito para se trilhar qualquer caminho nesta vida. Enquanto na plateia, concluí que resgatei estes três valores em minha trajetória. Não que eu estivesse burra antes de vestir a mochila, nada disso, mas minha inteligência estava sendo desperdiçada com temas banais, livros errados e companhias que não eram as exatas para mim. Entre uma pedra amarela e outra consegui reorganizar minha mente e clareá-la a ponto de entendê-la e ajudá-la a usar seus principais recursos no melhor de mim.

Sobre o amor. O meu problema era amar demais. Amar errado. Confundir amor com carência. Foi também tropicando em uma pedra amarela que percebi que “eu te amo” é forte e tem sentido, mas precisa de direção. Aos poucos, a expressão “que saudade” também passou a ter mais significado para mim. Entendi que não devem ser jogadas ao vento descontroladas para não diminuir a força com que chegam a quem realmente as merece. Vi que nem tudo era amor, nem tudo era saudade. Aos poucos, ficou evidente quem realmente me faltava e era alvo do meu amor. Volto para casa com os potinhos de sentimentos rotulados e bem organizados, será mais complicado trocar o sal pelo açúcar.

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Por fim, a coragem. Essa aí foi o cão de guarda ou a estrela guia. Esteve sempre presente, lado a lado. Mas não a encontrei no caminho, ela chegou antes, lá atrás, quando decidi abrir mão de tudo o que me era cômodo. Desde então, não me largou mais e foi eficiente na caminhada. Não falhou, viu? Ganhou o prêmio de funcionária do ano. Só que justo agora, no finalzinho, ela começou a dar sinais de cansaço. Acho que foi muito trabalho. Em um dos dias em que tirou licença, o medo achou que estava no páreo, veio para colocar o terror da volta. Riu na minha cara que era chegada a hora de deparar com a realidade. “Boba, isso tudo era um sonho, a vida de verdade te espera. E agora como vai ser? O que vai fazer? Para onde vai correr?”. Mas bastou um beijo de mãe, um chamego de pai e um abraço de irmão para a coragem se reestabelecer e ser escalada novamente.

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É aí que entra o grand finale, com as duas frases mais famosas da obra de L. Frank Baum: “There’s no place like home” ou “Home is where your heart is”. Na tradução livre: não há lugar como a casa da gente e lar é onde o coração está. Com a chegada da minha família na Austrália, eu já estou em casa. Essa é a sensação. Eles trouxeram o lar até mim para facilitar o processo de retorno.

Tá na hora, dizem, sutilmente.

“Somewhere over the rainbow blue birds fly and the dreams that you dreamed dreams really do come true”