Nova Zelândia: obrigada, coragem

Sabe aquele sonho que você se encontra em frente a um penhasco, olhando lá para baixo, toma coragem e se joga só que acorda de sobressalto antes de bater no chão? Foi assim. Só que não era sonho. Os meus pés estavam amarrados com força, meu corpo preso em uma corda 43 metros acima d’água gelada e eu precisei caminhar na prancha em direção à beira do precipício.

Impulsiva, impulsiva, sempre foi assim, desde criança, quando entrei naquela montanha-russa mesmo estando abaixo da altura permitida. Depois a gente mede as consequências. “Não tem volta”, a moça disse. “Você tem certeza?” Tenho. Um em cada cem desiste, ela contou. Eu não sou esse um, bati no peito. O caminho estava aberto. Não tinha ninguém na fila. Como assim? O lugar estava cheio! Eram espectadores. Buscavam bons lugares pendurados à ponte e posicionavam as câmeras para confirmar a loucura a olho nu.

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Não tive obstáculos até a beirada. Depois de ter o corpo bem preso para que não se diluísse por conta da tremedeira, ele me puxou pela mão, como se fosse a coragem travestida de humano. “Vem devagar, passo por passo, e se posiciona bem na ponta”, falou no meu ouvido. Com o andar arrastado me direcionei, a altura se tornando cada vez mais visível, hesitando a cada escorregar dos pés. Em um determinado momento, quando enxerguei com clareza o que estava por vir, travei. Pendi o corpo para trás pesando sobre o dele e não larguei o corrimão que separava a ponte da prancha.

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O tremor se intensificou bruscamente. Implorei repetidamente: “Você não vai me empurrar, né?”. Vi um caiaque que passeava sossegado lá embaixo, do tamanho de uma caneta. Pirei. Me desconcentrei. O cenário havia mudado e, por algum motivo que ainda não sei explicar, pareceu mais perigoso. “Você precisa soltar a barra, larga a mão”, ele disse com calma. “Mas se eu soltar, por favor, não me empurra”. Só que eu não conseguia me desprender do único elo que me garantia segurança à volta.

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É curioso. A gente sabe que as chances de morrer são remotas, quase nulas. Não há perigo. Da mesma forma, a gente teme pela vida. Pela queda. Pelo mergulho. Mais ainda: pelo desconhecido. Uma força sobrenatural me grudava àquela barra. Quando ele passou as últimas instruções: “Você é leve (ou estou?) e é possível que toque as mãos n’água…”, interrompi em tom de pânico: “Não quero tocar n’água”. Ele não me deu ouvidos: “Não há o que fazer, só salte para frente e estique bem os braços, ok?”. Na contagem de três: um, dois…

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Fechei os olhos e soltei o corpo. Não sei se gritei na primeira queda. Acho que não tive forças, tamanha adrenalina. Foi como naquele sonho. Queda livre, que não tinha fim – dois segundos e meio que pareceram 10 minutos de mergulho no infinito. Senti o primeiro puxar da corda e me dei conta que estava presa. Salva. Nesta hora, desentalei o grito da garganta e tive certeza: é assim que se voa. Aprendi. Estiquei longe os braços para sentir que tinha asas. E tinha. Pensei em mil palavras que poderia jogar ao vento, não as soltei, resolvi fixá-las na memória com aquele momento.

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Ao final da aventura, um barco de resgate me esperava lá embaixo. Eles me desamarraram e me deitaram sob a luz forte do sol do meio-dia. Com os olhos apertados entre os raios e uma sensação de fraqueza e calma que resultava em alegria, foquei lá em cima, respirando fundo. Não conseguia falar, só pensar: eu me joguei. Eu mergulhei. Eu venci. Depois, analisando as imagens eu percebi o empurrão de leve que o homem me deu nas costas à contagem do número três. Obrigada, coragem.

Obrigada, volta ao mundo.

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