Fiji: música de despedida

Das coincidências desta vida: na minha última parada na Volta ao Mundo, acabei em Fiji. Mais uma vez, não estava nos planos iniciais, foi outro improviso da estrada. De origem aborígene, Fiji tem uma energia e uma aura estrondosas. Ninguém se apresenta sem apertar a mão alheia com força e olhar dentro dos olhos repetindo o próprio nome. As palavras não são soltas, têm sentido. Bula é o lema da ilha. Significa bem-vindo, bom dia, olá e vida. Principalmente vida. Quando eles entoam as duas sílabas é em alto e bom tom, quase um grito, com veemência, como se saudassem cada momento vivido e cada encontro oportunizado.

Depois de bula e vinaka, que significa obrigada, isa lei é a prece mais repetida pelos locais. Trata-se do título de uma canção cantarolada com fervor e certa melancolia pelos fijianos para dar adeus a quem deixa a região. A crença é que dizer tchau reflete em um misto de sentimentos como felicidade, realização, tristeza, arrependimentos, mas, o mais importante, é sinônimo de memórias. Lembranças que serão levadas para fora da ilha e remeterão a experiências e pessoas que transformaram o caminho.

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E foi nesse paraíso que me despedi “do mundo” para voltar à origem. Em cinco dias, com Isa Lei de trilha sonora ao fundo, meditei sobre a volta. Tive preguiça de tanta maquiagem. De tanto filtro no Instagram. De tanta roupa chique para ofuscar a escassez de conteúdo. De muito foco no que é pouco. De palavras que me soam silenciosas. De quem não soma e sai em uma busca desenfreada por quem acrescente, em vão. Tive vontade de me enrolar dentro do tapete de yoga, me encaixar na monstra e fechar o zíper por dentro. Deixem-me aqui, onde ninguém se importa com o meu sobrenome, com o meu estilo ou com o que tenho a entregar. Eu saboreei, olhei, ouvi, cheirei e senti muito nestes 270 dias para retornar ao ponto de largada como se nada fosse. Quero seguir vivendo entre os que se interessam exclusivamente por me captar como pessoa e cultura. Que não têm curiosidade em desvendar qual a minha serventia.

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A estrada abre todas as portas para que você tenha a chance de ser quem você é, não omitir fatos e ser aceito e admirado por isso. São ritmos diferentes da mesma batida. São pessoas que cruzam o seu caminho com chances consideráveis de nunca mais serem vistas. Verdadeiros confidentes de travessia. E a vida real não é assim. Não é feita só do presente. A gente lida com passado e futuro, com convivência, com rotina, com tropeços e acertos. O mundo nômade parece o ideal pela falta de raízes e a oportunidade infinita de se reinventar e recomeçar, mas não é eterno. Se você se agarrar à mochila e ignorar tudo o que lhe prende ao chão, talvez caia no vácuo e seja engolido pelo vazio. É provável. Sei bem porque tenho dificuldades em organizar as memórias deste ano. Elas se misturam, já não tenho certeza o que foi onde. Até as recordações acham difícil criar vínculo nesta andança sem rumo.

“Darling, it’s time”, diz um filme que gosto.

Já está na hora. É tempo. Vamos? Vamos. Abre o zíper da monstra, sai pé por pé, disfarçadamente, veste ela nas costas e dá meia-volta. Eu sei que você esperava que eu voltasse para casa cheia de certezas na bagagem e um futuro planejado. Vou ter que o decepcionar. Não será assim. Retorno sabendo pouco do que virá, bem pouco, aliás. Mas confiante de que e de quem não quero mais se batendo nas esquinas das minhas ruas. Gandhi tinha seu próprio conceito para felicidade: é quando o que você pensa, o que você diz e o que você faz estão em sintonia. Se assim for, cheguei lá. Por isso, repito como mantra: não rodei todos estes quilômetros para retornar ao lugar de onde vim. Não mesmo. Seria desespero. Seria desesperador.

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It’s time.  E como diria Isa Lei, a música de despedida de Fiji: “Over the ocean your island home is calling, happy country where roses bloom in splendor”. Já fechei a mesinha, coloquei o banco na posição vertical, desliguei o celular e apertei o cinto. Pronta não estou (será que algum dia estaremos?), mas preparada para aterrissar.

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