Belo Horizonte: não ao pensamento de ódio

Quando coloquei o pé fora do carro para descer na Praça do Papa, em Belo Horizonte, o primeiro fato que reparei foi na quantidade de lixo nas lixeiras. Estavam abarrotadas. Comentei: “Nossa, como se coloca o lixo no lugar certo aqui, né?”. Andando um pouco mais, tive uma visão de toda a ladeira – a praça fica em um dos pontos mais altos da cidade – e da quantidade de garrafas pet, latas e papéis de picolé que se espalhavam por todo o gramado. Lamentei, óbvio, mas tentei abstrair e aproveitei para apreciar o belo horizonte que se avistava lá de cima.

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É que ao longo da volta ao mundo eu aprendi a focar antes no lado bom da vida. Foi assim que meu cérebro se dirigiu automaticamente para a lixeira cheia antes de cuidar a sujeira do chão. Se eu seguisse – porque em determinado momento foi assim – com a ponta do olhar afiada para os defeitos, seria intoxicada e não daria chance para as qualidades se apresentarem, tornando-me cada vez mais amarga. Deste jeito, fui manobrando. Passei a reparar em como o chuveiro era forte, mesmo que a cama fosse dura. Puts, o jantar estava ruim no ashram, mas a bergamota de sobremesa foi tão doce. Em viagem a gente precisa ter o coração aberto. E lá pelas tantas eu me dei conta que não toleraria mais pensamentos de ódio. Era uma premissa para a vida.

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Eu não quero lhe ouvir gastando sua saliva julgando a identidade de Pabllo Vittar, por exemplo. Até porque o seu discurso não vai chegar até seu alvo e só vai envenenar você mesmo, entende? Que é o emissor desta mensagem e está alimentando a lombriga do sentimento ruim no seu âmago. E se chegar, pior. Segue só gerando mal e ainda em escala maior – porque aí cria tristeza, mágoa, dúvida. Não tenho tempo para conversa sem propósito. Nem você, certo? Voltemos a Gandhi: se você quer mudança no mundo, seja-a.

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Belo Horizonte não permitiu que eu me incomodasse com o calor, as favelas ou a possível insegurança. Estavam ali, eu vi, lembraram-me de que voltei a viajar no Brasil. Lamentei de novo. Mas, ainda mais forte do que todos os monumentos de Niemeyer, o Mercado Central, o doce de leite, o queijo e a arte pelas ruas, tinha as pessoas. Ah, as pessoas. São o oposto desse papo negativo e manjado acima. Aquele sotaque combinado ao sorriso, à paciência e à gentileza são amor puro. Gente que é virada do avesso: é a alma que é exposta e envolve o corpo. Os mineiros não vão deixar você ir embora sem provar mais um “tantin” da culinária, vão ressaltar que você deveria ficar mais, está cedo para ir embora, vão lhe abraçar e fazer você se sentir especial satirizando o próprio estilo de vida e o linguajar único. É pensamento de amor. Que faz a gente querer voltar, voltar e voltar. É assim que é. Sem ego excessivo.

A tendência do mundo – assim eu espero – é ser gentil, receber bem, abrigar e acolher. Apenas quem é Nova York e Paris consegue se manter no topo sendo antipático – e o motivo é tradição, apenas, respeito por ser mais velho e ter que engolir certas manias. Tipo quando se acredita que a pessoa está gagá, sabe? Tolera e vai. Arrisco afirmar que Belo Horizonte é o atual centro da moda, da arte e da gastronomia no Brasil. Merece. Conquistou. E, veja bem, sendo legal.

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Retornando à Praça do Papa: quando João Paulo II chegou à Praça Israel Pinheiro para rezar a missa, deixou uma mensagem: “Se olharmos à frente, temos um belo horizonte, se olharmos para trás, também, mas não podemos esquecer que o mais importante é olhar para dentro”. Creio que sim. Não deixa de ser o que se passa com a praça: vai-se até lá para olhar para fora dela e o que está dentro fica em segundo plano. Se perdemos muito tempo olhando para o entorno, esqueceremos de cuidar do nosso interior e corremos o risco que ele se torne um terreno abandonado mesmo, com grama para cortar e lixo espalhado por toda a parte.