O ashram e a coruja

Noite passada eu tive um sonho. Não sou destas que costuma lembrar tudo o que vem ao longo da noite. Sei que é impossível pararmos de pensar e que a nossa mente segue trabalhando mesmo enquanto dormimos, mas arrisco dizer que é raro que me surjam com clareza os pensamentos que fluem enquanto repouso. Hoje de manhã eu recordava de tudo. Foi real. Neste sonho eu retornei à Volta ao Mundo. De casaco azul, monstra e tudo. Devaneei que em meio à rota decidi que precisava passar mais uma semana, ao menos, no ashram de Madurai, na Índia. Algo me indicava que seria importante.

E aí que rola a função toda do sonho. Eu não conseguia chegar. Já na terra de Gandhi, explicava para as pessoas aonde queria ir, mas ninguém me compreendia, eu me desencontrava, andava por estradas, meu dinheiro acabava, dormia na rua, perdia a bolsa, lembro até de ter pegado carona com um estranho – mesmo pensando no quanto poderia ser perigoso -, que disse que saberia me conduzir ao lugar. Em resumo, ele acabava me levando a um espaço completamente diferente do objetivo, um hotel ao estilo resort, com piscina e lotação máxima, algazarra, crianças correndo pelo corredor. Não, não, não é aqui. O local que eu almejo é no meio do mato, tem silêncio, no máximo 15 pessoas, e meditação o tempo todo. Ninguém me compreendia.

Em meio a isso tudo uma coruja me perseguia. Daquelas do Harry Potter, sabe? Com os olhos bem apertados e juntinhos. Essa senhora decidiu que queria morar na minha cabeça. Acreditava que o ninho dela estava no meu cabelo. E quando menos eu esperava lá estava a Hedwig plantada no meu cérebro. Aquelas alucinações de sonho. Que parecem não ter sentido. Só que não. Despertei depois de muito ter brigado com a coruja e sem ter chegado ao ashram. Saltei da cama. Que maluquice, minha gente. E, automaticamente, lembrei da palestra passada, na Casa da Confraria, quando uma das pessoas na plateia me perguntou: “Como não se desconectar dos valores que construiu na viagem?”.

ara, essa questão foi complicada de responder. Foi daquelas que precisei revirar os olhos para cima e pressionar o indicador contra o queixo: “Hummm, pois é, então…”. Eis um desafio. Eis uma preocupação. Eis uma atucanação tão real que chega a me perturbar enquanto descanso. Não deixar 2017 cair no vácuo. Jamais. E o ashram representa o ápice da minha conexão espiritual. A fase em que estava mais estabilizada e entendendo o que era certo e errado para mim. O medo de não encontrar este lugar é verídico. É assustador. Ainda não sei bem lidar com isso, admito. Tento mantê-lo vivo em fotos pela casa, velas acesas, um altar no canto da sala e um colchão de yoga e meditação que venho utilizando menos do que deveria. Poxa, um ano inteiro trabalhando em desconstrução dá pânico de ter recaída e se construir falsamente de novo, sabe?

Só que aí tinha a coruja. E lá fui eu apelar para o senhor Google. Que diabos! Diz ele que é bom agouro. É um símbolo de sabedoria, êxito profissional, escolhas inteligentes e bons conselhos. Pode significar também poder de discernimento e capacidade de decifrar mistérios. Na verdade, eu luto contra a coruja no meu sonho. Coloco até um chapéu para evitar que ela venha sentar na minha cabeça. Sai daqui, sua doida, não quero precisar realizar decisões importantes. Deixe-me fora disto. Prefiro seguir nesta vida que como quando tenho fome e durmo quando tenho sono. Não, os olhos arregalados não deixam. Bora voltar para o tempo que corre no relógio? Vamos lá, coragem. Mas adianto que esta coruja com ares de águia veio para lançar o alerta: a vida pode montar a caça ao tesouro que for, com labirinto e tudo, mas eu sempre encontrarei o ashram. E não será em sonho.