Portugal: a magia dos pastéis de nata

Tem algo importante a respeito dos pastéis de nata de Portugal: não há como encontra-los fora do país. Ok, até é possível bater com algumas tentativas de, mas nunca terão a mesma essência. Em Portugal, não interessa a padaria, restaurante ou boteco de esquina: os pastéis de nata sempre terão o recheio no ponto e estarão quentinhos esperando o consumidor. Acaba se tornando um vício para qualquer turista que se preste a arriscar a primeira mordida. Até quem não é tão chegado em doçuras ou está focado na dieta pode se perder ao polvilhar de canela e açúcar em pó a primeira unidade.

Tenho um amigo gaúcho que ruma todos os anos a Lisboa, encara a fila dos pastéis de Belém – que são os originais – e pede seis de uma tacada. Só para ele. Volta nos outros dias e pede mais seis. Mais seis. Mais seis. Já soube de vezes em que pediu até 12. E não passou mal.

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Quando me despedi de Portugal no ano passado, tive abstinência, confesso. Chegava a sonhar com aquela pitada de baunilha em meio ao doce de ovos e o tostadinho charmoso por cima. Mas, tive que desapegar, pois rodei um bocado neste mundão que valha-me Deus e não achei nada nem parecido. Dizem que há um segredo guardado a sete chaves.

Os mestres pasteleiros da Oficina do Segredo da Fábrica dos Pastéis de Belém (sim, esse lugar existe, não é zoeira) são os poucos detentores da receita, assinam um termo de responsabilidade e fazem um juramento em como se comprometem a não divulga-la. Tipo vida ou morte. Justíssimo. Até Donald Trump poderia ser chantageado por aquela receita.

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Quando soube disto, desisti de buscar um pastel de nata fora de Portugal. Percebi que não fazia sentido. O que dava o tom do sabor era exatamente o cenário, o contexto, a história, a criação dos doces na sua mais ingênua forma dentro dos mosteiros. Não é novidade para viajantes que a gastronomia releva um lugar. Abre suas portas entre temperos, azeites e panelas. A gente consegue entender mais sobre um povo só observando a maneira como se alimenta.

Portugal precisou de muito açúcar. Foi triste por anos a fio. Ainda é. Chora ao som do fado e das senhoras com cabelos brancos e rugas na testa. Precisaram de doses cavalares de baunilha para engrossar o sangue na sua glicose a ponto de injetar um sorriso de canto de boca. Então, nada mais justo de que encalacrem o seu pó de pirilimpimpim no cofre das alquimias.

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Estou com a passagem marcada para retornar a Porto Alegre no dia 22 de maio. Fui agraciada com um convite: passar uma tarde na Feira de Padaria, Gastronomia e Hotelaria da Sulserve, em Novo Hamburgo, que será exatamente de 22 a 24 de maio, nos pavilhões da Fenac. Focada nos profissionais do setor, a feira tem como objetivo fortalecer o segmento no Rio Grande do Sul e contar melhor ainda a nossa história enquanto gastronomia e hotelaria. Entre as tantas palestras e workshops gratuitos, o que me chamou a atenção mesmo foi a ideia de poder encontrar insumos e especiarias da melhor qualidade para construir receitas. Confesso, sou um zero à esquerda quando o tema é fogão, mas pretendo incentivar o pessoal na elaboração do Pastel da Sulserve.

Vai que a gente chega perto ou consegue ir ainda mais longe e desenvolver o nosso próprio doce encantado? Eu tenho fé. É, dei todo este textão para me contradizer no final e descobrir que, apesar de falar bonito, eu ainda não recuei completamente do foco de encontrar um pastel de nata perfeito mais perto das nossas bandas. Ora, pois.

*Texto escrito por Fernanda Pandolfi para a Sulserve.