Volta ao Mundo: as 10 perguntas que mais fazem sobre a viagem que durou 270 dias

Ando com saudades. Saudades embrulhadas em melancolia. Saudades de pessoas que não verei mais, de risadas que ficaram soltas em um arrozal do Laos em que perdi meu chinelo na lama, do gelado do chão do aeroporto, de caminhar sem rumo, do diálogo com a minha mente, eu e ela. Ela e eu.

Ando nesta nostalgia doída. Passados oito meses de retorno da Volta ao Mundo, começo a perceber que ficou lá atrás. Puxa, terminou mesmo.  Já são lembranças.

É que agora a vida começou a se apresentar para mim novamente. Dar a cara nas obrigações, ter planos para o futuro, definir o que será hoje, depois e depois. E é estranho para quem passou um ano vivendo apenas o instante. O presente do presente. Sem saber nem qual seria a próxima refeição.

Fernanda Pandolfi/Arquivo pessoal

Fernanda Pandolfi/Arquivo pessoal

O sabático acabou de acabar. Na semana que vem, o Ida e Volta completa dois anos de história. Vocês acreditam? Dos 56 países que conheço, 43 foram visitados nestes 720 dias. Não consigo dimensionar o tanto que isto representa nesta vida de três décadas. E a cada aniversário, eu paro para refletir sobre o que está por vir – sim, foco lá adiante.

A minha alegria é saber que agora tenho as páginas da Revista Donna para deixar registado todas essas andanças. Costumo dizer que falar sobre minhas viagens é fonte de energia renovável. A cada volta mental a um destino me reabasteço com os meus reais valores e faço girar a máquina.

Fernanda Pandolfi/Arquivo pessoal

Fernanda Pandolfi/Arquivo pessoal

Por isso, ao fechar deste ciclo, reuni as 10 principais perguntas que me propuseram ao longo destes oito meses – e as que mais se repetem – para comemorar com vocês. Vamos?

O que lhe inspirou a fazer a viagem?

Mais um site de viagem? Mais um? Não, não será só um site de viagem. O foco não são as dicas, são os insights que tenho ao sair do meu lugar de comum. Eu defendia o conceito do Ida e Volta com unhas e dentes, mas sabia que, para ser respeitada, eu precisava de um grande projeto. Nisto, um amigo muito especial, me ligou certo dia – quando eu ainda trabalhava na redação de Zero Hora – para me dar a ideia da Volta ao Mundo. Ele havia realizado e achava que era a minha cara. Pensei: “é isto!” Comecei a ir atrás das informações e, em cinco meses, já estava na estrada para colocar em prática o projeto, que eu acreditava seria de trabalho, mas era de vida.

Como montou seu roteiro?

Sabia que não queria repetir países que já conhecia (mas, confesso, por forças do destino, acabei repetindo) e queria passar pelos cinco continentes. Assim, comprei a passagem de Volta ao Mundo – sim, existe uma, vou explicar mais abaixo – e, ao lado da minha agente de viagens, decidi as 10 principais paradas ao longo do ano. Não tinha hospedagens, hostels ou chegadas internas dentro dos continentes programadas. Ao desembarcar no destino, eu tirara o  primeiro dia para sentar em um café e fazer um planejamento para o período baseado em preços de hospedagens (Booking e Airbnb) e de passagens baratas (Skyscanner).

Qual o valor médio da passagem de Volta ao Mundo e como funciona?

Na época, e paguei US$ 5 mil pela Star Alliance – mas a One World também vende. Fiz o orçamento com ambas empresas, e optei pela primeira por uma questão de destino. Há regras para essa passagem. O viajante tem que andar sempre em sentido horário, não pode voltar nunca, e tem que terminar e começar no mesmo lugar (no meu caso, Brasil). Há um prazo para terminar a viagem e um limite de paradas. Quando você embarca, os seus destinos já estarão todos escolhidos e não poderão ser modificados, mas adiar ou adiantar a viagem é possível sempre, quantas vezes quiser, sem multa. Bom, né?

Costuma usar aplicativos de viagem? E qual chip de celular recomenda?

Rá! Dizem por aí que sou uma digital influencer, mas eu sou a pessoa menos tecnológica que você conhece. Antes de sair em viagem, eu saí de todos os grupos de WhatsApp, e, lá pelas tantas, desativei o perfil @fepandolfi e fiquei só com o @idaevoltaoficial. Então, vocês podem imaginar, que não tenho muitas dicas interessantes neste sentido. A não ser: não compre chip de celular. Viva de Wi-fi. Sim, se liberte. Acredite: eu dei a volta ao mundo sem chip – apesar de saber que existe um mundial. Só usava o telefone no hostel ou em restaurantes. Queria evitar ao máximo estar mais no virtual do que no real. Sobre apps: Maps.me me ajudou muito. Trata-se de um Google Maps que funciona sem internet, só no GPS, baixem! Uber salvou minha vida em diversos países e, é claro, Skyscanner, AirbnbBooking.

Como mulher, viajando sozinha, tem alguma dica em especial? Sentiu preconceito?

Na primeira etapa da viagem – Américas e Europa – foi supertranquilo. Na chegada a África e seguindo para a Ásia, a situação ficou um tantinho mais complicada. Não posso dizer que senti preconceito, mas estranhamento por parte das pessoas, de verem uma mulher, de 30 anos, solteira e viajando sozinha. O questionamento maior era “mas por que você não é casada?”. Entendi que era uma questão cultural e não me senti ofendida, confesso. Dica que dou para mulheres que gostam de desbravar o mundo sozinhas: estudem um pouco antes sobre os hábitos locais, tentem se vestir no padrão (infelizmente, é uma maneira de proteção) e evitem a noite. Eu acordava cedinho, batia perna o dia todo e , à noite, me recolhia – a não ser que tivesse alguma companhia. Ah, e confie na Uber. Foi fundamental para me transportar com segurança – os táxis ainda são um problema em determinados países.

Como começou teu planejamento para a Índia e quanto tempo passou lá?

Dentre os poucos países que eu queria visitar, a índia era um dos poucos que eu tinha certeza desde que decidi partir. Inspirada no filme Comer, Rezar, Amar e nas práticas de yoga que vinha realizando no Brasil, queria passar um tempo em um ashram. Busquei auxílio de pessoas que entendiam do negócio e fui parar no sul da Índia, em Madurai, para um retiro espiritual de 15 dias. Foi uma das experiências mais inesquecíveis da viagem. Depois, encontrei um grupo de mulheres – que saiu do Brasil para me encontrar lá – para percorrer o Golden Triangle, ou seja, os lugares mais conhecidos do país. Foi um mês de aprendizado intenso. Costumo dizer que a Índia não é para qualquer um, mas como disse um indiano que conheci por lá: “precisa ter cabeça aberta para vir para cá, o coração a gente se responsabiliza de abrir”.

india

Qual o país que tu me gostou?

Gente, não me façam essa pergunta – é a que vocês mais fazem. É difícil demais! Mas, vamos lá, vou escolher um em cada continente tá? Canadá, Noruega, Tanzânia, Índia e Nova Zelândia.

Fernanda Pandolfi/Arquivo pessoal

Fernanda Pandolfi/Arquivo pessoal

Tem algum país que tu não voltaria?

Nenhum país que me oferecessem uma passagem eu recusaria, entende? Todos tiveram seu devido valor e encantamento. No entanto, o Vietnã, eu fiz de cabo a roca, de norte a sul, de moto, de barco, a pé, de sleeping bus, de carro e acho que já vi o suficiente. Eu estava em um momento difícil ao longo da minha parada no país dos vietcongues e, por ser um lugar com uma história pesada, não consgui tornar mais leve. Acho que já dei o check por lá. Mas, vamos lá: é lindo e vale muito a visita. Não me arrependo de forma alguma.

Qual o lugar mais paradisíaco pelo qual tu passou?

Sendo bem clichê: Maldivas. Fiji também foi maravilhoso, mas as Maldivas têm um contexto de areia branca e mar azul que não vi em nenhum outro lugar pelo qual passei. É um verdadeiro paraíso, sim.

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O que esperava satisfazer na tua vida com a Volta ao Mundo? Correspondeu?

Sendo sincera, quando saí para rodar este mundão eu estava focada em um projeto profissional. No entanto, descobri que estava muito mais atrás do meu ano sabático e em busca dos meus valores do que qualquer prova de texto ou vídeo. Lá pelas tantas, em alguma curva, me encontrei, me embrulhei na mala e me trouxe de volta. O trabalho foi árduo, teve seus altos e baixos, mas valeu cada segundo. Cada alto e cada baixo. Como repito com frequência: nunca teria a ousadia de indicar um ano sabático para qualquer pessoa. Exige dinheiro, tempo e organização – fatores que nem sempre estão ao nosso alcance. Mas, indico autoconhecimento. Busca pessoal. Livros, terapia, cursos, viagens, os recursos são diversos. Ainda nesta semana eu terminei de ler A Coragem de Ser Imperfeito, da francesa Brené Brown, e fiquei com uma frase martelando aqui: “Viver é experimentar incertezas, riscos e se expor emocionalmente. A vulnerabilidade não é uma medida de fraqueza, mas a melhor medição de coragem”.

Aos velhos guerreiros de estrada: obrigada, por me acompanharem nestes dois anos. Aos novos: sejam bem-vindos, apertem os cintos e vamos juntos. Sigam por perto, questionando, impulsionado e compartilhando, vocês são a fonte da minha energia renovável.

Aproveito para deixar um convite: na próxima quarta-feira, 15 de agosto, dia oficial do nosso aniversário, estarei no Gramado Winter Season, em Gramado, participando do evento Mesa de Cinema – Comer, Rezar, Amar. A ideia é falar sobre a viagem e dividir a mesa de jantar com vocês. Espero todos.

OBS: Deixo aqui a promessa, em escrito, de lançar o livro com todas as proezas de viagem o quanto antes. Se a gente não joga para o universo, não realiza, certo?

Fernanda Pandolfi/Arquivo pessoal

Fernanda Pandolfi/Arquivo pessoal

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