Lição da viagem ao Marrocos: bonito é olhar para dentro

Não é qualquer porta. Tem dimensões enormes, cores intensas, adornos bem trabalhados e até um trecho do alcorão lapidado. O interessante é que se destaca em meio a uma muralha ocre, sisuda, com torres ainda mais altas para dificultar o espiar dos curiosos. Assim é a arquitetura marroquina: fachadas que não entregam o que há do lado de lá, mas portas bem cuidadas para bem receber quem realmente merece ingressar.

marrocos

As paredes são grossas. Não importa se você estiver em meio à medina de Fez, com suas 9 mil ruas encruzilhadas e comércio que ferve: no pátio aberto, que fica no centro da casa rodeado por muros e corredores que levam aos aposentos, terá silêncio e uma fonte para se lavar e tirar as impurezas que vieram do lado exterior.

marrocos deserto do saara

Por ser o espaço mais importante da casa, há sempre dois “corredores surpresa”, um à direita e outro à esquerda, que blindam a visão de quem chega e não é convidado a passar da entrada. Azami, o guia que acompanhou o grupo da Agência Diário de Bordo ao longo de uma viagem desbravando Marrocos de norte a sul, revelou o lema do povo: para nós, o bonito é olhar para dentro.

Veja nosso vídeo em Casablanca, Rabat, Chefchaouen e Méknes:  

Bateu o pé para que conseguíssemos entrar em uma das prefeituras de Casablanca onde o guarda não se mostrava flexível. Já estávamos torcendo o nariz, afinal, era incompreensível aquele anseio todo por visitar um prédio do governo acinzentado e protegido por grades de ferro. Mas, ao atravessar o portão, um ambiente rico se revelou, cheio de detalhes, acessórios e traços que traduziam a história do local, antes a morada de um rei.

marrocos ida e volta

Na sua simplicidade – não confundir com simplório –, nosso instrutor explicou o que lhe parecia óbvio: a casa da gente é onde deveríamos passar a grande parte do nosso tempo, por isso, precisa ser o mais belo e confortável lugar para se estar. Além disso, a fachada deve ser uma redoma para o que temos de mais precioso: nossa família.

Isso me fez refletir sobre toda essa vontade de se expor. Sobre gente que joga a residência atrás de hectares de grama verde, jardins floridos e grades baixas. Que faz questão de colorir bem os muros e esquece de tirar o mofo dos cantos das paredes da sala de estar. Que investe todas as economias em paisagismo e não salva algum para tentar consertar a pia que pinga insistentemente na suíte e prejudica o sono à noite. Essa gente, normalmente, não considera necessário cultivar um tempo dentro de casa. Fica claustrofóbico, precisa logo colocar o pé para fora e buscar ar. Acha o sofá desconfortável, mas tem preguiça de trocá-lo. E fica perambulando pela rua até o relógio cansar, todos se retirarem, e não haver mais desculpas para evitar o retorno.

pandolfi

Azami contou que, na cultura marroquina, quando se vai às compras, cobre-se a cesta com os itens adquiridos. Ninguém precisa saber quantos quilos ou qual tipo de carne você terá para o almoço, ou quantos metros de tecido será utilizado no próximo cáftan, por exemplo. A ideia é manter os bisbilhoteiros longe e afastar o mau-olhado. Todos mantêm os hamsas – ou mão de Fátima – bem à vista, na entrada das lojas ou das residências, contra a inveja. Engraçado é que, por estas bandas, é bem provável que se compre um quilo de filé mignon para forrar a cesta estrategicamente por cima e esconder a carne de segunda que está dando o volume embaixo. Seguindo pelo caminho oposto, a ideia é mostrar, compartilhar, impulsionar, publicar. E de tanto focar na fachada, vai-se camuflando os problemas de verdade que criam raízes no pátio interno.

Aliás, foi deixando o ninho dos meus pais, há quatros anos, que descobri que eu só teria vontade de voltar para casa no final dos meus dias, se me parecesse confortável. Para tanto, eu teria que lavar a louça, tirar o lixo e abastecer a geladeira. Exige um certo esforço, é verdade, mas só assim eu me sentiria livre para passar a convidar outras pessoas.

fernanda pandolfi

Veja nosso vídeo em Fez, Deserte do Saara e Marrakech: 

É mais ou menos por aí que caminha a filosofia marroquina. Cuidar do que é seu, em primeiro lugar, longe de ostentação. Além de valorizar as portas de entrada, zelar pelos acessos, deixá-los sempre atraentes, mas cadeados e guardados, sendo seletivo quanto a quem entregar a senha. Com isso, fecha-se uma equação básica de arquitetura funcional: a fachada é apenas para proteção, o acesso é imponente, mas sem arrogância, precisa se manter convidativo, sendo elemento fundamental da construção, e o interior é de uma beleza genuína, que de tão orgânica, transforma-se em sinônimo de paz. Depois disto, pode entrar, a casa é sua.

*A jornalista viajou a convite da Agência Diário de Bordo

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