Ano do Sim! Em seu primeiro livro, criadora de “Grey’s Anatomy” conta como dizer “sim” mudou sua vida

Henry Alford
New York Times

É uma característica da maioria dos adultos se tornar, cada vez mais, uma versão destilada de si mesmo, conforme segue feito um bando de zumbis rumo à meia-idade. O que uma vez germinou ou floresceu, agora se cristaliza ou se fossiliza. No ano passado, comecei a bordar enquanto bebia gim-tônica; hoje, nada prende minha atenção mais do que “The Great British Baking Show” e suas explicações de como preparar pudins diferentes.

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Até o dia de Ação de Graças de 2013, Shonda Rhimes, criadora de “Grey’s Anatomy” e “Scandal” e produtora executiva de “How to Get Away With Murder”, vivia uma rotina semelhante, mas, durante o almoço, a irmã lhe disse: “Você nunca diz sim”. Isso levou essa viciada em trabalho de 43 anos, mãe solteira de três filhos e cujo medo do palco a fez recusar muitos pedidos de aparições públicas, a passar um ano dizendo sim a novas oportunidades. No final de seu livro de memórias, “Year of Yes: How to Dance It Out, Stand in the Sun and Be Your Own Person” (O Ano do Sim: como passar por ele com simplicidade, assumir seu poder e ser você mesma, em tradução livre), Shonda havia perdido mais de 45 kg, feito um discurso em Dartmouth, aparecido no “Jimmy Kimmel Live”, parado de trabalhar nos finais de semana e optado pela vida de escritora em vez de aceitar uma proposta de casamento.

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As protagonistas das séries de Shonda

Como disse a um amigo, eu estava ansioso por “um pouco do elemento Shonda na minha vida” e, recentemente, passei um mês tentando imitá-la. Comecei fazendo uma lista das atividades às quais aspirava, mas, como diz “Year of Yes”, isso causa medo ou nos tira “da zona de conforto”. Eu me perguntei então: será que, como a personagem Cristina Yang em “Grey’s Anatomy”, vou aprender a por tudo para fora através da dança ou, como a heroína de “Scandal”, Olivia Pope, vou aprender a “assumir meu poder”? Ou será que vou passar o resto da minha vida fazendo o trivial, guardando os tamancos de jardinagem Smith & Hawken na sacola?

Inspirado no livro de Shonda, que ainda não foi lançado no Brasil, o jornalista do New York Times resolveu dizer "sim" por um mês

Inspirado no livro de Shonda, que ainda não foi lançado no Brasil, o jornalista do New York Times resolveu dizer “sim” por um mês

Dois itens da minha lista eram desafios físicos; tinha razão para temê-los. Para minha dor no ombro, queria tentar uma mesa de inversão. No La Casa Spa & Wellness Center, na 20th Street, paguei US$60 para passar 20 minutos deitado no que parecia ser a tábua de passar mais elaborada do mundo e virar de cabeça para baixo, para, sem supervisão nem alças ou cinto, ficar pendurado pelos pés por 90 segundos. Passei a admirar mais os metatarsos de Bruce Wayne. No dia seguinte, meus ombros pareciam os mesmos, mas as pernas ardiam como um lago de fogo. Será que repetiria a dose? Como diria Shonda: “Amiga, por favor”.

Foi igualmente perturbador para meu pobre corpo, mas muito mais divertido e cósmico, assistir a uma aula de butô no centro da cidade com minha amiga Camilla. Uma forma de dança agitada que surgiu do Japão do pós-guerra (você deve ter visto no vídeo “Nothing Really Matters” da Madonna), o butô faz você concentrar todo seu peso e gravidade em uma parte do corpo para que o resto dele possa se mexer e chacoalhar. Camilla me contou que há alguns anos, ficou maravilhada com uma colega do curso dançando, “mas no fim das contas, ela estava tendo um ataque epiléptico”. Adorei a professora (uma francesa magra e intensa chamada Vangeline), além do exercício em que fingimos não ter rosto, mas, no dia seguinte: lago de fogo nº 2.

(Juliette Borda/The New York Times)

(Juliette Borda/The New York Times)

Não deve ser surpresa eu ter gostado de fingir que não tinha rosto, já que a maior parte da minha lista do “Sim” tinha a ver com ansiedades em relação às outras pessoas, particularmente as conhecidas. Primeiro, quis jantar sozinho em um restaurante onde havia uma grande possibilidade de encontrar pessoas conhecidas. Na trattoria do West Village, a Via Carota, em plena quinta-feira, me disseram que teria que esperar 45 minutos por uma mesa ou ficar em uma pequenininha na chapelaria da entrada. Noventa segundos depois, eu estava sentado sozinho debaixo de um monte de sobretudos pendurados em uma parede que era vigiada por 10 ou mais pessoas que esperavam por mesas. E o pior de tudo, o polvo que pedi acabou sendo um único tentáculo, latejante, grande, perverso.

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#LonelyManEatsLargeLeginCoatroom. (homem solitário come uma perna grande na chapelaria)

Conforme prosseguia o projeto do “Sim”, às vezes passava pela minha cabeça que a abordagem de Shonda era mais adequada para os inseguros. Eu, por outro lado, sou bastante confiante, mas às vezes desmotivado. Meus demônios pessoais são uma capa nova para o sofá que quero comprar há quatro anos, minha produção literária inacabada e minhas amizades desperdiçadas. No entanto, essas coisas não me assustam; elas simplesmente se aglutinam no banho quente da negligência benigna. Mas, por fim, decidi que desafiar o medo pode ser melhor do que uma lista tradicional de tarefas. A capa do sofá que já havia sido reestofado no passado não exigia outra ação semelhante, enquanto que, por exemplo, a ousadia necessária para jantar sozinho, talvez. E, como Shonda diria, é “estiloso”.

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Houve algum “Sim” que não consegui completar? Claro. No geral, foram os desafios que vieram de fora, não aqueles que me impus. Ao sair para trabalhar uma dia, eu queria, mas não me despedi do meu namorado com um beijo na frente dos trabalhadores que consertavam nossas janelas. Percebi que qualquer embaraço social que isso gerasse recairia sobre Greg e não sobre mim, e não seria justo. Quando Greg e eu encontramos dois amigos para jantar no Sessanta Ristorante uma noite, vi o editor-chefe de uma revista para a qual eu havia escrito e resolvi que queria falar com ele, mas isso incomodaria as pessoas da minha mesa e o editor.

Então, as possibilidades que me foram jogadas pelo destino, e não as que me impus, estavam ligadas às minhas realizações mais queridas e mais complicadas. No dia de Ação de Graças, Greg e eu fomos para Connecticut, para a casa do meu irmão Fred e sua esposa, Jocelyn. Mais ou menos uma hora após a refeição, meu irmão, obcecado por música, me deu um violão e me encorajou a tocar e cantar na frente dos outros convidados, quem estavam lavando louça. Já fiz isso umas nove vezes na minha vida; as músicas que toco e canto quase se parecem com as originais, coisa que deixa até os cavalos assustados, mas de repente, Fred e eu cantávamos “What’ll I Do”, de Irving Berlin, e “Swimming Song”, de Loudon Wainwright III. Havia me esquecido de como é bom falar com meu irmão em sua língua franca.

(Juliette Borda/The New York Times)

(Juliette Borda/The New York Times)

Uma hora depois, Fred me perguntou se eu gostaria de herdar o enorme aparador de mogno que está na família há três gerações, quando ele e minha cunhada venderem a casa no ano que vem. Aquele que não cabe no meu apartamento; aquele que tem uma perna quebrada e que ninguém da família quer; aquele que vai incorrer em uma taxa de armazenamento de US$700 por ano ou em uma relação complicada com um amigo que vai tomar a coisa como um empréstimo

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