Antirrestaurante Mesa de San Miguel: lugar inesperado que une a história dos pratos com boa gastronomia

*Especial Rejane Martins com fotos Diego Vara

Um santo, alguns amigos e muitas reminiscências inspiraram o nome. É mais fácil dizer o que o Mesa de San Miguel não é do que resumir o que ele é. Não é um restaurante. É uma casa que abriga vida, tempero e paixão. Um antirrestaurante, pois não funciona todos os dias, não tem garçons, nem taxas de serviços. É como ir comer na casa de um amigo, só que não. E este é o desafio tanto para quem vai quanto para quem recebe.

Seu endereço só é revelado para quem confirma a participação com pagamento antecipado. Cada encontro se realiza em sábados alternados e reúne entre 12 e 14 comensais. Em duas grandes mesas, eles compartilham o prazer de comer bem. O preço estabelecido (de R$ 150 a 200, variam conforme os ingredientes e a complexidade do preparo de cada receita) mal cobre as despesas operacionais e os ingredientes de primeira. E nem de longe consegue pagar os valores emocionais que integram cada uma das receitas. O que vale mesmo é a paixão.

:: Lugar bucólico vizinho de Porto Alegre, Itapuã vive momento de redescoberta
:: A jornada de Ogen Shak, que fugiu a pé do Tibete e reconstruiu a vida em Três Coroas, no RS

O antirrestaurante Mesa de San Miguel é um desses locais inesperados e improváveis. Entrar em seu ambiente é passar para uma outra dimensão, como na ficção científica. Embora, ali, tudo exale a mais pura realidade, fica difícil acreditar que estamos em Porto Alegre.

Aberto há pouco mais de um ano, o espaço quebra qualquer expectativa. Os que chegam pela primeira vez, invariavelmente acreditam ter ido ao lugar errado e até mesmo cogitam ter entrado em uma fria. Tal sensação dura pouco e se esvai assim que as portas se abrem e mostram um cenário composto por história, memória, arte e prazer. As paredes de tijolos à vista servem de suporte para fotos, quadros, objetos, utensílios e livros, muitos livros. São suvenires de viagens, aventuras e vivências que inundam o ambiente aquecido por uma lareira rústica.

Antirrestaurante 6

Jantares – e às vezes almoços – com menus étnicos são elaborados a partir das pesquisas do mestre da casa Luiz Roberto Pecoits Targa que executa os pratos apoiado nos talentos e na parceria de Aline Bonnamain e Everaldo Gonzaga Cassiano. Economista aposentado, ex-professor, Targa comanda a cozinha como um mago às voltas com suas poções mágicas. Sua rotina é o aprendizado, fruto de muita leitura, pesquisa e experimentação.

— Comida tem de ser honesta, boa matéria-prima, sabor de verdade. Sem mistificação resume o cozinheiro.

Ele justifica a busca de pratos étnicos e de confecção antiga pelo sabor, pela originalidade. — Meu interesse é pela cozinha étnica e pela cozinha histórica. Estudo muito isso tudo. Sei dos limites da recriação desses sabores, mas é legal buscar aproximações.

Targa começou cedo a “comer bem”. Graças aos dotes da mãe, comer em casa era sempre mais prazeroso do que nos restaurantes. Quando a comida chinesa apareceu em Porto Alegre, o gourmet precoce começou a se interessar por aquilo que sua mãe não fazia. Primeiro veio a paella, depois a comida francesa e a descoberta de Robert Courtine, escritor, editor e crítico de gastronomia francês.

— Durante muitos anos fiz as receitas de seus livros. Até hoje, quando quero um tira-teima sobre uma receita, é em seus textos que busco socorro. 

Avesso a modismos, Luiz Targa oferece a seus convidados aquilo que ele próprio valoriza: comida de verdade. — Como o que é bom, mesmo quando contemporâneo, mas não é qualquer fumaça ou espuma que me convence.

Antirrestaurante 17

Em sua estoica brigada, Aline Bonnamain traz no nome o DNA gastronômico impresso pelos avós, proprietários do lendário Sans Souci, restaurante que marcou época na zona sul de Porto Alegre das décadas de 50 a 80. Garota de sorte, Aline é neta do francês Fernand Bonnamain, que veio de Champagne, e aqui conheceu a russa Josepha Soska, com quem se casou e criou o Sans Souci. Mestre na arte da charcuterie, Bonnamain fazia salames, patês e doces que marcaram época como pudim de queijo, torta de coco, torta de abacaxi com coco e mousse de maracujá. Josepha reinava no fogão, assinando as memoráveis receitas de brochete de rim, estrogonofe, vatapá, coq au vin, camarão a termidor, namorado e linguado ao bechamel. (Um minuto de silêncio e uma furtiva lágrima não seriam exagerados neste ponto do texto. Quem teve o privilégio de comer no Sans Souci sabe o que é saudade gastronômica).

Ainda menina, Aline conviveu com eles, aprendeu, experimentou e dominou. Um abuso só! E não bastasse isso, ela ainda absorveu com a avó materna Edy Riche os segredos da culinária portuguesa. Tudo assim, ao natural, como quem aprende a falar. Total abuso de poder. — Aline é uma cozinheira universal, não sei o que ela não sabe fazer — desmancha-se Targa ao falar da parceira de forno e fogão, que ele conheceu durante curso no Senac-RS em 2012.

Origem, talento e juventude concentrados em Aline traduziram-se em ingredientes essenciais para encorajar o nosso bravo herói a efetivar a ideia, inicialmente semeada por sua vizinha uruguaia Susana Cazarré: montar um restaurante em sua própria casa. Um restaurante, não, um antirrestaurante.

Há também o apoio fundamental de Cassiano que, além de artista plástico – suas telas estão espalhadas pelos recantos da casa -, revela-se um pâtissier de talento inato. Comedido, atento e sempre solícito, ele reveza-se na recepção e no atendimento às mesas, brindando os convivas vez por outra com uma de suas preparações como o savarin, pain perdu de brioche ou bolo de nozes. E nunca faz feio. Suas delícias são gostosas e belas.

Como tudo começou

Depois de testes, experimentos, algum estresse e muitas aprovações, o trio respirou fundo, colocou-se à beira do fogão e, em 5 de janeiro de 2013, a casa abria suas portas pela primeira vez. Um menu extenso, composto por 12 pratos de diferentes épocas que estiveram presentes tanto nas mesas da aristocracia quanto nas mesas burguesas, camponesas e populares da França e da Itália, encantaram os felizardos presentes neste primeiro encontro. Volta e meia, os pratos reaparecem compondo novos menus. Um exemplo é a digestiva salada de frutas para Henri IV. Receita criada pelo médico do rei francês, em 1606, a salada é item quase obrigatório no Mesa de San de Miguel. O pain perdu de brioche com zabaione é outra aparição frequente entre as que brilharam na estreia.

Os encontros, ainda que absolutamente informais, seguem um ritual. Pontualidade é sempre bem-vinda e sutilmente exigida. Os convivas chegam no horário combinado (20h30min) e são recebidos com brinde de espumantes, patês ou manteigas temperadas, pães rústicos da casa ou alguma outra surpresinha. Em seguida, vem a salada do rei Henri IV e só então começa o jantar propriamente dito.

Cada menu é montado de acordo com a inspiração de Targa e sua incessante sede de saber.

 — Eu pesquiso e cozinho. Sou um enorme curioso para comer (e beber) tanto para o que fazem de estranho ou novo em qualquer canto como o que me tomba de interessante via livros.

Em julho, aproveitando a data nacional da França, os pratos rendem homenagem à culinária mais famosa do mundo. Para o dia 12, a versão do clássico cassoulet terá linguiça de Toulouse e salsichão de magret de canard (peito de pato). Dia 26, será a vez das Tripes à mode de Caen.

— Mesmo que eu ame o nosso mocotó e a nossa dobradinha, as tripas de Caen são insuperáveis! Não há batatas, não há feijão e sim cebolas e cenouras completamente afogadas e bêbadas de vinho branco (já que não temos boas cidras por aqui) — explica Luiz com entusiasmo capaz de quebrar qualquer preconceito alimentar.

Aliado à personalidade forte do anfitrião e seu amor pela comida, mais talento e dedicação da Aline e do Cassiano, é esse entusiasmo que torna tudo no Mesa de San Miguel tão envolvente e arrebatador. Um lugar que merece e impõe respeito com simplicidade, sabedoria e paixão. A receita é infalível e o prazer de comer bem está garantido.

Lembrança para a vida

*Por Mariana Kalil
Fui informada da existência do Mesa de San Miguel por uma newsletter via email. A palavra antirrestaurante me chamou imediatamente a atenção. Pedi mais detalhes para participar e fui informada que deveria fazer um depósito de R$ 180 por pessoa. A bebida era por minha conta. Feita a transferência bancária (é assim que funciona), recebi por e-mail as coordenadas de como chegar. Não sabia exatamente o que iria encontrar e o fato de ter sido a responsável por armar o programa com meu marido e mais um casal de amigos – me deixou um bocado apreensiva. Sobretudo quando o carro começou a subir o Morro São Caetano, a subir, a subir, a subir e a escuridão começou a tomar conta do percurso. Chegamos ao local indicado: uma casa de esquina com muro de pedra e sem campainha, no meio do quase nada, no alto de Porto Alegre. Tem certeza que é aqui, Mariana? perguntou meu marido. Não tenho certeza de nada respondi, disfarçando o quase pavor e a possibilidade de começar a achar que tudo aquilo não passava de uma emboscada. Estou achando que é um sequestro brincou meu marido, para piorar a situação.
Bati palmas na frente da casa e um rapaz se apresentou. Abriu a porta, deu as boas vindas e, então, fomos apresentados ao Mesa de San Miguel. As fotos dessa reportagem contribuem para explicar a sensação de fantasia a que fomos apresentados e o mundo maravilhoso de gastronomia e história que vivenciamos das 20h30min à meia-noite, sem ver o tempo passar.
Luiz é um exímio cozinheiro e contador de histórias. Cada prato, cada entradinha, cada molho, cada pãozinho vinha até a mesa com um enredo envolvente. Naquela noite de sábado, 31 de maio, fomos recepcionados com manteigas da casa (temperadas e divinas) com pão da Aline e brindes com espumante Cave Geisse. O menu se completou com a entrada: almôndegas gaúchas (feitas com farinha de milho, temperos, charque e bacalhau). O prato principal foi Picadinho à Maria Luiza, acompanhado de banana frita na manteiga, farofa de dendê com muita salsa, arroz branco e tomatinhos no vinagrete. A mesa de sobremesas? Um desaforo de fartura: amor em pedaços, pudim de chá, pudim de claras e pannacotta de iogurte com compota de frutas secas.
Se um dia, no final da vida, me perguntarem quais foram as experiências mais sublimes que tive ao longo da existência, direi com segurança que o jantar no Mesa de San Miguel está entre elas.

 

Agenda Antirrestaurante Mesa de San Miguel Porto Alegre

Leia mais
Comente

Hot no Donna