Autora do best-seller “A Mágica da Arrumação” defende a organização doméstica como benefício para corpo e alma

Marie Kondo é uma celebridade internacional. Uma guru quando o assunto é organização. Figurinha constante na lista de mais vendidos do New York Times e da Amazon, a japonesinha mignon, meio envergonhada, de voz quase infantil que não sabe falar uma palavra em inglês, comemora um feito inversamente proporcional ao seu estilo: mais de dois milhões de livros comercializados ao redor do mundo. O principal deles, “A Mágica da Arrumação”, lançado recentemente no Brasil pela editora Sextante, transformou KonMari (como ela é chamada) em estrela absoluta no Japão e celebridade em ascensão nos Estados Unidos, Europa e agora na América do Sul.

– Arrumar a casa não tem nada de prosaico. É uma decisão capaz de revolucionar nosso estilo de vida e mudar nosso modo de pensar. Ao organizar seus pertences, a pessoa reencontra seu foco e faz as pazes com ela mesma – diz ela.

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Com um método simples e eficaz, Marie mostra que ter uma casa bem arrumada influencia positivamente em todos os aspectos da vida – inclusive o trabalho e as relações familiares. Em vez de basear-se em critérios vagos, como “jogue fora tudo o que você não usa há um ano”, o método KonMari é fundamentado no sentimento da pessoa por cada objeto que possui. O ponto principal da técnica é o descarte. Para decidir o que manter e o que jogar fora, você deve segurar os itens um a um e perguntar a si mesmo: “Isso me traz alegria?”. Só deve mantê-lo se a resposta for “sim”.

MARIE KONDO

O grande trunfo de Marie Kondo é associar sentimento às coisas

Em “A Mágica da Arrumação”, ela oferece pílulas rápidas como “livros que você pretende ler um dia” equivale a “livros que você nunca vai ler” e “desfaça-se dos manuais de instrução, pois eles não servem para nada”. O grande trunfo de Marie Kondo é associar sentimento às coisas, vender de forma inspiradora a ideia de que organização faz bem para o corpo e a alma.

– O espaço onde você mora afeta seu corpo – argumenta.

Marie Kondo é obcecada pelo assunto desde os cinco anos. Enquanto as amigas brincavam no parque, ela preferia organizar os livros na estante. A partir dos 15, já estudava seriamente métodos de organização de ambientes. Iniciou a carreira como consultora particular. Hoje vive com a agenda lotada. Viaja os cinco continentes arrumando casas e escritórios de clientes e dando conselhos práticos para aqueles que querem acabar com a bagunça mas não sabem por onde começar. Inspirada pela doutrina oriental do feng shui, garante que exercitar o desapego e a organização traz a felicidade.

– Dediquei quase 80% da minha vida a este assunto, portanto sei que organizar a casa é transformador.

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“A casa arrumada contribui para um ambiente calmo”

Por que é importante aprender sobre arrumação e por que não sabemos fazer isso por simples intuição?
Marie Kondo – É possível que algumas pessoas tenham essa capacidade natural, mas minha experiência mostra que a maioria não sabe colocar ordem nas coisas. Então, precisam aprender, trabalhar e se esforçar para desenvolver os hábitos corretos. Enquanto uma pessoa não conseguir incorporar esse hábito e desenvolvê-lo ao longo de um determinado tempo, não compreenderá plenamente os benefícios e as vantagens de ser organizada. Ser organizado é tanto um hábito quanto uma habilidade.

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No Brasil, as pessoas altamente organizados são muitas vezes vistas como “obsessivas”. Você acha que a maneira como a pessoa lida com a organização, tanto da casa quanto da mente, está relacionada com a cultura de cada país?
Marie Kondo – Certamente, algumas pessoas são mais obsessivas com a organização _ e esta característica, quando muito intensa, pode levá-las a querer forçar outras pessoas a mudar seus hábitos. Cada cultura tem sua sociedade específica, mas a maioria das pessoas, independentemente do país, não tem o hábito da arrumação e da organização desenvolvido. Precisam aprender. Acredito que é possível ser organizado e “normal”.

Por que temos ligações emocionais com objetos?
Marie Kondo – Muita gente relaciona objetos com pessoas ou lugares onde os receberam. Isso cria uma ligação emocional _ e é muito normal. Mas eu gostaria de perguntar a essas pessoas se este determinado objeto realmente lhes proporciona alegria ainda hoje. Se não, o melhor a fazer é agradecer ao objeto o importante papel que desempenhou em sua vida e livrar-se dele. Quando você agradece a um objeto, reduz muito a culpa que sente por desfazer-se dele. Experimente! Além disso, sempre peço aos meus leitores que compreendam que a alegria em torno de um presente é mais frequentemente sentida por quem dá do que por quem recebe. O objetivo de um presente se cumpre na hora em que o recebemos. Quando você começa a pensar em presentes dessa forma, fica muito mais fácil se livrar daquilo que não faz sentido em sua vida.

Um critério que você ensina em seu livro é decidir o que deve e não deve ser descartado de acordo com o que fala ao coração. Só que as pessoas que acumulam uma grande quantidade de coisas, certamente vão usar a mesma tática para manter quase tudo. Como não cair nessa mesma armadilha?
Marie Kondo – É preciso segurar cada peça de roupa nas mãos. Quando tocamos uma roupa, o corpo reage – e reage de forma diferente de acordo com a peça. Pode parecer estranho até você experimentar. Quando você pratica o meu método por um tempo, você torna-se capaz de determinar o que realmente desperta alegria em você. Então, não vai mais se deixar ser enganada e manter coisas que não fazem mais sentido. Invariavelmente, não irá acumular muita coisa.

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Qual é a relação entre o nosso ambiente e nossas emoções? Você acredita que as casas têm energia?
Marie Kondo – A casa arrumada contribuiu para uma mente mais calma e organizada. Quando o ambiente ao redor é organizado, nossas mentes conseguem focar melhor vários aspectos de nossas vidas. Nos tornamos mais capazes para os desafios diários. Não sei se a própria casa tem energia, mas certamente o ambiente no interior de uma casa pode criar energia positiva ou negativa, sim.

Por que é importante ter gratidão para com os objetos que usamos?
Marie Kondo – Quando temos gratidão, nós valorizamos os objetos e usamos com mais cuidado e respeito. Então, a vida útil deles é maior, já que são capazes de nos proporcionar prazer e, assim, fazer com que não tenhamos vontade de descartá-los e trocá-los por outro, o que influencia também na nossa economia. Devemos sempre agradecer também aos objetos que usamos, mas que vamos nos desfazer. Isso evita culpas e preocupações e ajuda para que a gente concentre energia naquilo que realmente desperta alegria e sentido em nossas vidas.

Curto e grosso: os 10 mandamentos da expert

1. Arrume tudo de uma vez

Organizar a casa é promover uma revisão do estilo de vida e do nosso jeito de pensar. Isso requer uma ruptura radical. Acreditar que se pode arrumar uma gaveta por vez, empurrando o restante da tarefa com a barriga, é uma armadilha que leva à frustração.

2. O primeiro passo é descartar

As pessoas guardam coisas na ilusão de que serão usadas um dia ou por preguiça de avaliar se são relevantes. Reúna todos os itens parecidos, como roupas e livros, e faça uma limpeza sem dó: não raro, 60% daquilo que acumulamos é inútil

3. Jogue fora tudo que não traz alegria

Só vale a pena guardar aquilo que realmente for usado ou tem um valor sentimental de fato. Sabe aquela blusa que você ganhou, mas não gosta muito e só mantém no guarda-roupa por pudor em se desfazer? Perca o temor: é já para o lixo (ou a doação).

4. Separe as coisas por categoria

Um erro comum é distribuir itens do mesmo tipo _ como roupas, livros ou papéis _ por vários cômodos e armários. Organizar tudo por categoria permite ter uma noção global dos pertences e evita o surgimento de novos focos de bagunça.

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5. Dê visibilidade às coisas

Empilhar roupas e livros é arrumar sem critério: com o tempo, muitos itens sem utilidade acabam esquecidos no fundo das gavetas e estantes. Organize com a lógica de uma biblioteca, fazendo com que todos os pertences fiquem acessíveis e à vista.

6. Deixe itens sentimentais por último

Começar a arrumação por fotos de família e souvenires amplia a chance de insucesso: as pessoas gastam tempo em considerações emotivas e perdem o foco do essencial. Ataque primeiro os pepinos mais óbvios e volumosos, como as roupas.

7. Evite a intromissão dos parentes

A presença de mães, avós e irmãos pode ter um impacto psicológico negativo nessas horas: na cabeça deles, pode parecer inadmissível ver você jogando certos itens fora. Muitas vezes, a solidão é a melhor aliada na hora de arrumar a casa.

8. Prefira o silêncio

Arrumar a casa é, em certa medida, um exercício de revisão interior. Televisão ligada, música alta e conversa fiada abalam a concentração necessária para a tarefa. Marie Kondo recomenda, no máximo, ouvir música instrumental amena – e em baixo volume.

9. Não compre produtos especiais para organização

É enganoso achar que a bagunça acabará apenas colocando tudo dentro de caixas divisórias e afins. Se sua casa é desarrumada, esses produtos supostamente milagrosos não serão apenas inúteis: vão se somar à bagunça.

10. No dia a dia, siga um ritual para lidar com os objetos

Ao chegar em casa, por mais cansado que você esteja, resista à tentação de ir largando as roupas pelo chão e de entulhar o sofá com bolsas e outros itens. Só relaxe depois de colocar cada coisa em seu devido lugar.

Sobre o livro

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A Mágica da Arrumação, de Marie Kondo.
Editora Sextante.
160 páginas.
Preço: R$ 24,90
E-book: R$ 16,99

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