Autora de “Comer, Rezar e Amar”, Elizabeth Gilbert convida a viver criativamente no livro “Grande Magia”

Um dia, uma desilusão amorosa levou Elizabeth Gilbert a largar tudo, percorrer três países, comer, rezar e amar e se tornar uma best-seller mundial. Entre a partida dos Estados Unidos e a fama mundial, Liz passou por bons e maus bocados, colecionou uma porção de (auto)descobertas e pôs em prática o mantra que orienta seu mais recente livro, Grande Magia: “viver uma vida mais motivada pela curiosidade do que pelo medo”.

Para a escritora americana, a ”grande magia” consiste em viver criativamente, sair do quadrado e investir em seus talentos e naquilo que lhe dá prazer – como aprender patinação artística aos 40 anos, por exemplo. Em 192 páginas, ela compartilha experiências e convida o leitor a se dar uma chance e ver aonde suas ideias podem levá-lo. No caso da escritora, pode ser tanto a um “sucesso insano”, como ela mesma descreve o fenômeno Comer, Rezar e Amar, como a um beco sem saída. Inspirada nos relatos do marido, o gaúcho de Redentora José Nunes, a quem ela chama de Felipe no relato de viagem que virou filme, Liz escreveu um romance que tem como pano de fundo a Transamazônica. A saga ambientada durante a construção da rodovia que cruza a Floresta Amazônica deveria resultar no romance Evelyn of the Amazon (Evelyn da Amazônia). Até a ideia perder o rumo e ceder lugar para outro livro, Comprometida, em que ela narra a jornada empreendida com José desde o dia em que ele foi deportado dos EUA até o casamento e a papelada da imigração darem fim a quase um ano de exílio.

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É preciso, ensina Liz, saber deixar a inspiração ir e vir. E se divertir no percurso. Da experiência de Evelyn, por exemplo, ficou um ano de aprendizado de português (que hoje ela admite confundir com italiano):

– Agora não consigo falar nenhum dos dois idiomas. Hora de voltar a estudar!

Na entrevista concedida por e-mail, Liz comenta o tempo que dedicamos ao próprio prazer e a descobrir talentos, o que a inspira hoje e como o megassucesso o Comer, Rezar e Amar afetou seu processo criativo. Já sobre o discreto marido brasileiro, que não fala com a imprensa, ela desconversa:

– José é muito reservado, então não posso compartilhar nada a esse respeito, exceto por dizer que vivemos juntos uma maravilhosa e feliz história de amor.

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Donna – Você escreveu Grande Magia para encorajar outras pessoas a descobrirem seus talentos escondidos, a fazer algo para seu próprio prazer. O que falta para isso? As pessoas têm menos tempo ou menos disponibilidade para se descobrir?
Elizabeth Gilbert – Acho que hoje as pessoas adoram falar sobre o fato de não terem tempo. Estamos todos em competição uns com os outros, para ver quem é o mais ocupado e o mais estressado. É assim que nós provamos para nós mesmos e para o mundo que nós estamos vivendo uma vida importante. Uma das minhas situações favoritas é quando as pessoas me dizem via Facebook: “Eu adoraria ter uma vida mais criativa, Liz, mas não tenho tempo livre”. Nesse ponto, tenho que gentilmente lembrá-los de que eles acabaram de escrever essas palavras no Facebook, que é um dos maiores sugadores de tempo do mundo. Se você tem tempo para estar no Facebook, falando como você não tem tempo, meu amigo, então você tem tempo livre. Acho que chega um ponto em que nós temos que nos responsabilizar por para onde está indo nosso tempo e nossa energia. Quando eu estava na casa dos 20 anos e reclamando que não tinha tempo, uma mulher mais velha e sábia me perguntou: “Do que você está disposta a abrir mão para ter a vida que você fica dizendo que deseja ter?”. Alguma coisa você deve deixar de lado. Você deve aprender a desligar a TV. Você deve aprender a desgrudar do iPhone. Você deve aprender a dizer não para coisas que não quer fazer, para poder dizer sim à voz que está chamando lá de seu interior. Tudo se resume a tomar decisões sobre o que importa.

Donna – Há países ou culturas mais criativos do que outros?
Liz – Sim. Países em que o perfeccionismo e a conformidade são valorizados não se mostram um chão fértil para vidas criativas. Felizmente, nem o Brasil nem os Estados Unidos estão entre eles!

Donna – Evelyn da Amazônia, a personagem do livro que você abandonou no meio, terá uma segunda chance?
Liz – Haha! Você é muito gentil em perguntar, mas não! Esse barco já zarpou.

Donna – Além da Transamazônica em plena floresta, o que mais no Brasil inspira você?
Liz – Feijoada, caipirinhas, samba (até aqui ela responde em português), “The Beautiful Game” (futebol), e meu maravilhoso marido brasileiro, todos me inspiram.

Donna – E o que a tem inspirado você no momento?
Liz – Estou interessada na Nova York dos anos 1940, então tenho pesquisado muito sobre esse período na esperança de começar a escrever um novo livro em breve.

Donna – Você conta que muitas pessoas já lhe disseram terem vivido as mesmas experiências relatadas em Comer, Rezar e Amar. Mas você não apenas viveu: escreveu sua história.
Liz – Sabia que iria escrever sobre minha jornada desde o início dessa experiência. Naquela altura da vida, já tinha publicado três livros e estava trabalhando como jornalista, então, já era uma escritora. Também sabia que a viagem significaria mais para mim se eu pudesse escrever a respeito durante o processo. Para mim, escrever é como eu elaboro o que penso sobre a vida e o que estou sentindo. Só consigo ver minha vida claramente pelo ato da escrita.

Donna – De que forma um enorme sucesso como Comer, Rezar e Amar afeta as expectativas de um escritor e seu processo criativo? Como você lidou com isso nos livros que se seguiram?
Liz – O problema não foi lidar com minhas próprias expectativas: o problema foi lidar com as expectativas dos outros! Comer, Rezar e Amar foi um louco tsunami – um fenômeno único na vida –, e eu sabia que nunca conseguiria repetir um sucesso como aquele. Mas estava OK para mim. Eu ainda amava escrever e sigo amando até hoje – então, tenho outras razões para fazer o meu trabalho. Mas talvez outras pessoas esperassem que eu, de alguma forma, pudesse escrever aquele livro de novo. E, aquilo, temo que não possa entregar. Tudo que eu posso fazer é o que sempre fiz: seguir minha curiosidade, seguir minha paixão e fazer o que me excita. Todos nós precisamos de uma razão para levantar de manhã, e escrever tem sido a minha. Enquanto eu tiver isso, o desfecho não é tão importante.

Donna – Passados alguns anos, como você dimensiona o efeito desse tsunami em sua vida?
Liz – O maior impacto foi o da jornada em si. Naquele ano de viagem, fiz as pazes comigo mesma e fiz amizade comigo e voltei para casa uma pessoa diferente e muito mais calma. Posso dizer, sem hesitação, que posso dividir a minha vida em antes e depois desta jornada Comer, Rezar e Amar – e tudo que veio depois tem sido muito bom, muito rico e muito verdadeiro. Acho que foi o ano em que eu realmente encontrei minha identidade e deixei para trás falsas identidades que nunca eram para ter sido minhas em primeiro lugar. Você não pode pôr um preço no benefício de uma experiência como esta. Quanto ao sucesso do livro, minha parte preferida é ver o impacto que teve na vida de tantas mulheres: empoderou tantas mulheres a tomar controle de suas próprias vidas – deixar maus relacionamentos, deixar empregos ruins, mudar-se para outra cidade e celebrar sua autonomia. Nunca me canso de ouvir essas histórias.

Donna – Além da escrita, que outros talentos você tem?
Liz – Sou um monstro no karaokê. Não estou dizendo que tenho talento para isso, estou apenas falando que sou um monstro.

 

Trecho de “Grande Magia”

O que é viver criativamente, por Elizabeth Gilbert

Esta, acredito, é a pergunta central da qual depende toda a vida criativa: você tem coragem de trazer à tona os tesouros que estão escondidos dentro de você?

Olhe, não sei o que está escondido dentro de você. Não tenho como saber. Talvez você mesmo mal saiba, embora eu suspeite que tenha tido vislumbres. Não conheço suas capacidades, suas aspirações, seus desejos, seus talentos secretos. Mas há certamente algo maravilhoso guardado dentro de você. Digo isso com total confiança, pois acredito que somos repositórios ambulantes de tesouros escondidos. Acredito que essa seja uma das peças mais antigas e generosas que o universo vem pregando em nós, seres humanos, tanto para sua própria diversão, quanto para a nossa: ele enterra estranhas joias bem no fundo de todos nós, depois se afasta e fica observando para ver se conseguimos encontrá-las.

A caça para encontrar esse tesouro: isso é viver criativamente.

A coragem, para início de conversa, de se lançar nessa caça: isso é o que separa uma existência mundana de uma existência mais mágica.

Os resultados dessa caça, muitas vezes surpreendentes: é isso que chamo de Grande Magia.

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“Grande Magia”
Objetiva, 192 páginas,
R$ 29,90

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