Blogs de gastronomia: quem são as mulheres que compartilham suas descobertas culinárias na internet

Por Juliana Palma, Destemperados

Não é de hoje que os blogs de culinária, a exemplo daqueles que falam de maquiagem e beleza, fazem sucesso. Com a popularização da gastronomia, porém – principalmente por meio dos vídeos de receitas e reality shows frequentes na televisão –, o tema passa a atingir seguidores que não querem mais ver somente fotos de comidas, mas também aprender o passo a passo de cada prato.

No comando de cada blog, mulheres normais – e também homens, em menor escala – que começaram a cozinhar por acaso e que aprenderam as receitas pouco a pouco. As publicações são resultado da vontade de registrar cada dica e truque e, ao mesmo tempo, compartilhar os pratos com quem queira fazer em casa ou simplesmente acompanhar o conteúdo postado.

– Me descobri uma inquieta na cozinha, sempre buscava uma receita nova – relembra Maria Capai, do blog DigaMaria (digamaria.com). – Fazia o prato, mas quando queria lembrar da receita, não lembrava mais. Resolvi então buscar um caderno de receitas, mas a solução foi criar um blog, que além de registrar o que eu fazia, garantia interação dos leitores.

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O que o público consumidor desse tipo de conteúdo procura, no entanto, é a curadoria por trás de receitas feitas por pessoas comuns, que não têm um conhecimento tão profissional sobre o assunto e que testam os pratos e compartilham aquilo que gostam.

– Quero oferecer uma cozinha acessível – explica Raquel Arellano, do blog Gordelícias – Não vou fazer o “cordeiro ao molho não sei das quantas” porque não como isso. É um blog meu, para mim e para as pessoas que se identificam comigo, com receitas que fiz e que tenho certeza de que ficaram saborosas.

Abaixo, acompanhe as histórias de três blogueiras.

(Foto: Júlio Cordeiro)

(Foto: Júlio Cordeiro)

PAIXÃO POR DOCES

O Mundo na Cozinha começou em 2012, depois que Bárbara Pustai (foto acima), 25 anos, foi desafiada por uma amiga a criar um blog. Ela, que já se interessava há algum tempo por gastronomia, levou a brincadeira a sério, fez o curso de cozinheiro do Senac-RS e aprofundou seus conhecimentos antes de colocar o projeto em prática.

Natural de Porto Alegre, Bárbara teve principalmente a influência da mãe, que cozinhava em casa e preparava os lanches que ela e o irmão levavam para a escola. Foi aos sete anos que preparou seu primeiro bolo, gostou do que fez e a partir daí não parou mais de se aproximar da cozinha. Sua paixão declarada? Doces.

– Eles têm uma coisa de precisão. Por mais singelo que seja, o bolo necessita de uma certa precisão de técnica e ingredientes para ficar pronto. Como sou metódica, me identifiquei – conta.

Em sua casa, Bárbara já vai para a cozinha com a receita em mente e com o plano de escrever para o blog. Sua principal preocupação, entretanto, além de agradar os leitores, é manter-se fiel às suas convicções na cozinha.

– Produzo receitas que gosto de preparar e que sei que vão ficar boas. Seria uma traição compartilhar pratos só porque estão na moda – acredita ela. – Como gosto muito de fazer doces, já criei uma relação de amor e ódio lá em casa, porque sempre tem sobremesa para todas as refeições.

Com 30 mil acessos por mês e 20 mil seguidores no Instagram, Bárbara divide seu tempo entre O Mundo na Cozinha e a gestão das redes sociais de algumas marcas. Para ela, trabalhar somente com o blog ainda é um projeto distante.
– Tenho planos para uma expansão em vídeo de uma categoria que tenho no blog em que entrevisto pessoas de outros países e peço que elas me desafiem a cozinhar um prato típico de sua terra – avisa. – Mas sobreviver do blog acho difícil. Até porque a maioria das marcas, hoje em dia, prefere fechar parcerias a fechar negócio. Isso é injusto com os blogueiros de gastronomia e faz com que nosso trabalho não seja respeitado.

Apesar de certas dificuldades com a demanda da produção de conteúdo, o retorno dos leitores compensa qualquer esforço, segundo ela.

– Recebo muitos e-mails de adolescentes que estão se encantando com o universo da gastronomia, perguntam sobre cursos profissionalizantes. Isso me incentiva a ir além – comenta.

(Arquivo pessoal)

Foto: Arquivo pessoal

Receitas de Maria

Maria Capai (foto acima), 39 anos, criou o blog DigaMaria em 2009, quando, recém-casada, trabalhava de casa e pouquíssimos blogs compartilhavam conteúdo de receitas. Ela, que se via cozinhando muito mais do que estava acostumada, encontrou no blog uma maneira de guardar as receitas que fazia e de compartilhá-las com quem quisesse ler. Aos poucos, a publicação online começou a ganhar seguidores e um cunho mais comercial.

– Não era minha área, mas comecei a apostar no blog, e agora minha vida profissional está nele e nas vertentes que nasceram dele – explica Maria. – Já produzi fotos de pratos para dois livros de culinária, restaurantes também me contratam para fazer esse tipo de trabalho, além de produzir conteúdo relacionado a gastronomia para outros veículos.

Desde o começo do site, ela reúne referências de nomes como Jamie Oliver e Nigella Lawson. Diz ter um processo de produção bastante caótico, sem uma programação certa, apesar de publicar de uma a duas receitas por semana, que garantem pelo menos 60 mil acessos por mês.

– Hoje eu trabalho com aquilo que me desperta desejo no momento, isso faz com que eu trabalhe cada vez mais com alimentos sazonais. O que está abundante no período é o que me desperta mais atenção – avalia Maria. – O DigaMaria é muito um espelho do que é a minha vida.

Dividindo receitas diretamente de sua casa em Ubatuba, no litoral de São Paulo, Maria tem horta, árvores frutíferas como bananeira e mamoeiro, além de uma pequena criação de galinhas. Seu próximo projeto, em vídeo, tratará de fazer uma reconexão das pessoas com o alimento, explicando as origens de cada um. Tudo isso para dividir seus conhecimentos com os leitores e receber deles um feedback que ela considera essencial.

– O que acontece muito, e eu adoro, é quando os leitores me contam as adaptações que fizeram em alguma receita. Incentivo muito que façam e que me contem, dividindo comigo e com as outras pessoas que acompanham o blog – comemora.

(Foto: Carolina Vianna)

(Foto: Carolina Vianna)

Mudança de perfil

Raquel Arellano (foto acima), 34 anos, idealizou o Gordelícias em 2010, junto com uma colega de estágio, para, a princípio, dividir conteúdos que descobria sobre gastronomia no Rio de Janeiro.

– A gente não cozinhava, mas ficávamos o dia inteiro falando de comida e viajando nas possibilidades de almoço e lanches da tarde com doces que não tínhamos ao nosso alcance – rememora Raquel. – Criamos o blog para registrar tudo que encontrávamos, nós duas e uma amiga de São Paulo, sem muita pretensão. Era apenas um blog sobre comida.

O que começou como brincadeira tomou uma proporção que nem Raquel imaginava. Hoje já são 300 mil acessos mensais. Com o tempo, as duas amigas saíram, outras entraram, mas atualmente é ela quem comanda todo o conteúdo. O blog passou por uma reestruturação e conta hoje somente com receitas que foram testadas.

– Começamos apenas compartilhando o que a gente encontrava por aí, mas aos poucos fomos nos animando a fazer receitas. As pessoas começaram a gostar e a espalhar para os amigos – diz Raquel. – Com o crescimento, passei a me preocupar com um conteúdo mais autoral, criado e pensado por mim. Eu não cozinhava tanto, principalmente porque minha avó monopolizava a cozinha, mas comecei a mudar meu perfil principalmente para buscar assuntos novos e temas para o blog.

O que era um hobby virou parte do trabalho. Formada em Marketing, Raquel trabalha na área de marketing digital e considera o Gordelícias um cliente de sua empresa.

– São pelo menos duas horas somente para escrever um post ou uma manhã inteira para editar um vídeo, por exemplo – alerta. – Demanda muito tempo. Principalmente quando se quer analisar o tipo de público que se tem, adaptar o conteúdo para cada um deles. Não compartilho uma receita apenas: coloco ali toda a minha relação com a comida.

Quando questionada se seria possível largar tudo e viver só do blog, Raquel é enfática ao afirmar que é coisa para poucos.

– Sendo honesta, é muito difícil viver só de blog. Há sites grandes que vivem disso, mas tiveram que ralar muito para chegar lá – avalia. – Hoje em dia, tem gente que chega a trocar post por um saco de bala, e isso acabou acostumando mal as assessorias de imprensa. Nós criamos um conteúdo trabalhoso, com curadoria, investimos horas produzindo e fotografando. É um trabalho que precisa ser valorizado.

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