Do jornalismo às panelas! Como a mudança profissional revelou uma vida realizada à chef Biba Retamozo

(Félix Zucco/Agência RBS)
(Félix Zucco/Agência RBS)

Ela trocou as notícias pelas panelas, os furos de reportagem por açúcar e fermento, os índices de audiência por frutas e chocolates. E não poderia estar mais feliz com isso. Aos 35 anos, a chef Biba Retamozo celebra a guinada na vida profissional, que ocorreu por acaso e tornou seu dia a dia muito mais alegre, produtivo e feliz.

Há cinco anos, Biba abriu a Maria Bolachinha, empresa que batizou em homenagem à sogra, cujo apelido é Vó Bolachinha pela habilidade com as panelas, especialmente os doces. O local é mais ou menos uma extensão da própria chef, já que funciona em sua própria residência, um casarão dos anos 1950 no bairro Auxiliadora, em Porto Alegre, com espaço amplo para a cozinha e para receber grupos pequenos de clientes. O projeto é a soma do desejo de profissionalização com uma visão muito particular sobre o ato de cozinhar e comer, compartilhado por Biba e seu marido, o sommelier Rafael Lorenzato – que também atuava como jornalista e deu uma guinada na carreira. Mas a coisa não começou assim, pensada nos mínimos detalhes. Pelo contrário. Tudo foi acontecendo sem muito planejamento e de forma espontânea.

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A graduação em Jornalismo pela PUCRS veio em 2003, quando Biba já trabalhava com o que sempre quisera, conteúdo para internet. Quando deixou a faculdade, fundou com amigos um portal para cobrir tudo o que fosse relacionado a cinema. Durante um tempo, ela fez de tudo: cobertura de eventos relacionados à sétima arte, edição, textos e análise de audiência. Ansiosa por novos desafios, ingressou no clicRBS para ser editora-assistente e ficar responsável pelos conteúdos que estariam em destaque na capa do portal. Precisou criar intimidade com todos os assuntos do jornalismo, de esportes a segurança pública, de celebridades ao noticiário internacional. Como é da natureza do trabalho jornalístico, os plantões poderiam ser parados ou emocionantes, conforme as notícias do dia. Mas uma coisa eles sempre tinham: gente com fome.

–Pouco tempo depois que entrei já fazia bolinhos caseiros em forma de cupcake para os lanches do plantão. Mas não eram esses cupcakes da moda, era bolo de vó feito em forma pequena. O pessoal gostava tanto que começou a encomendar doces e salgados para os plantões por um e-mail interno. Em pouco tempo, os colegas já estavam pedindo para levar para casa ou para festas e reuniões. E estavam pagando – relembra Biba.

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É na cozinha da própria residência, no bairro Auxiliadora, que Biba dá forma e sabor às deliciosas criações da sua Maria Bolachinha

Na época em que as redes sociais estavam recém nascendo no Brasil, os colegas da redação do clic criaram uma página para postar o cardápio do dia que Biba traria para o lanche. Ali também era o fórum perfeito para surgirem novos apreciadores, curiosos e clientes. A cada dia, mais gente conhecia e pedia os quitutes da jornalista.

Quanto mais bolinhos e salgados fazia para o seu próprio lanche e o dos colegas, mais se aproximava do hobby que adquiriu quando criança, mas que pensava ser somente uma diversão. Depois de um ano e meio cozinhando por brincadeira, as encomendas só aumentavam e os companheiros de trabalho começavam a encorajar uma mudança. Era a hora de decidir.

– Me dei conta de que eu me divertia e era mais feliz na cozinha do que no trabalho que eu estava fazendo. Então, resolvi transformar a minha paixão em profissão.

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Biba aprendeu a cozinhar com mais ou menos oito anos, observando a mãe e a avó. O pai, para encorajá-la, pagava para que ela fizesse o almoço da família em alguns dias, durante as férias da escola. O dinheiro era bom, mas a diversão por estar diante de panelas e fogão era ainda mais emocionante. O conhecimento adquirido com as cozinheiras da família, no entanto, não pareceu suficiente para segurar uma mudança de vida tão radical. Por isso, ao abandonar de vez o jornalismo para dedicar-se à gastronomia, decidiu se preparar. Primeiro, juntou dinheiro para que a guinada na vida não terminasse em fracasso financeiro. Depois, voltou a estudar: fez o curso de cozinha básica, no Senac, e logo emendou os cursos também de padaria e confeitaria. Com a formação concluída, foi trabalhar em restaurantes de Porto Alegre e de São Paulo para adquirir experiências.

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Quando se sentiu preparada, abriu a empresa que continuou funcionando somente por encomenda. Os doces, que são a grande paixão da chef, continuam sendo o principal produto até hoje, mas outras atividades foram se agregando com o tempo. Jantares para grupos, menus para eventos e mesas para festas como casamentos também viraram especialidades. Recentemente, Biba abriu a Casa das Bolachinhas, que é o espaço para o que ela mesma chama de “anticonfeitaria”: um local para reunir pequenos grupos de amigos e clientes para degustações e refeições harmonizadas. As noivas, por exemplo, têm um espaço reservado e confortável para degustar, junto com a família, as iguarias que poderão ser servidas em seu casamento, tudo muito tranquilo, acompanhado de uma taça de espumante. Ali, na cozinha ampla, ela também dá cursos para turmas pequenas. Os temas das aulas podem variar dos tradicionais brownies até fofuras como culinária leve e doces de primavera.

Agora, a cozinheira vive a expectativa de um novo desafio: transformar pelo menos um de seus produtos em item comercial, a ser vendido em empórios gastronômicos e até supermercados. A iguaria em questão não poderia ter mais identificação com o público gaúcho. Uma velha receita de doce de leite aprendida com a sogra é a escolhida para dar nova dimensão à marca Maria Bolachinha. Totalmente livre de corante, conservante ou qualquer aditivo químico – quem faz todo o trabalho de cor e sabor é mesmo o açúcar -, o doce é daqueles que somente as avós ou as bisavós sabiam fazer, perfeito para adornar uma receita gourmet ou simplesmente para passar sobre uma fatia de pão.

– Não vou deixar de trabalhar por encomenda e de fazer o que já faço. Este vai ser mais um passo – comenta.

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Lançar no mercado um doce de leite premium elaborado a partir de uma antiga receita de família, produzido de forma absolutamente artesanal, é uma das atitudes que revela a forma como Biba e o marido enxergam a gastronomia. Resgatar a cultura alimentar, ressignificar o ato de cozinhar e comer e valorizar a comida boa, saudável e sustentável é a paixão que move o casal na empreitada. Por isso, não cansam de pesquisar, de viajar e de trabalhar em busca deste ideal, que querem implementar na Maria Bolachinha.

Pensar a comida desse jeito foi uma das etapas da mudança de vida à qual Biba se submeteu quando decidiu largar o jornalismo para virar cozinheira. Arrependimento? Nenhum. Nas redações, aprendeu lições que são valorosas até hoje, como a forma de comunicar ao público a personalidade da sua empresa e a importância de se relacionar com a sociedade por meio dos produtos e serviços. Mas voltar atrás nunca foi uma opção. Até porque foi em nome da felicidade e da realização que tudo aconteceu.

Da mesma forma que Clariane Correa Retamozo passou a ser Biba, Biba deixou de ser editora para virar doceira. Aí está, segundo ela, a beleza da transformação.

– Foi dado a nossa geração o direito de mudar, de começar de novo, de se reinventar. Nossa vida profissional não precisa estar decidida quando saímos da faculdade. É claro que vamos enfrentar desafios ao encarar uma mudança, haverá dificuldades financeiras e dúvidas. Mas, se é o que queremos, temos que enfrentar – completa.

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