Classificar uma relação amendronta e pode complicar as coisas

Nosso colunista comenta o medo generalizado da palavra "namoro" e a necessidade de um par

Foto: Divulgação

Ainda lembro da rotina: eu saia de casa antes do almoço para encontrar aquela colega de faculdade com quem estava ficando havia algumas semanas depois do estágio. Nada demais, tudo demais. Nos dávamos muito bem, conversávamos bastante, gostávamos do beijo um do outro. Eu ia até o Centro da cidade, esperava por ela, passávamos algum tempo juntos e logo íamos cada um pra lado: ela pra casa, eu para a faculdade. Essa rotina se manteve saudável até que eu, ávido por romance e romantismo, encuquei de perguntar: e aí, o que a gente é?

E ela não queria responder. Ou sequer pensar nisso. Tinha acabado de sair de um relacionamento, de fim conturbado, “estamos tão bem assim, precisamos mesmo de uma classificação?”. Naquela época eu precisava, sim, e me senti mais à vontade quando engatamos um namoro. Mas – tirando o foco da minha história – quantas pessoas você conhece que renegam o quanto podem qualquer tipo de classificação?
Muitas, vamos combinar. Os motivos que levam a isso são igualmente muitos, claro. Uns porque não querem de fato assumir relacionamento algum, outros porque não sentem que aquele envolvimento peça mais do que já tem, mais outros porque não sabem mesmo como dar o passo seguinte. Qual foi a última vez que você ouviu um
“Quer namorar comigo?”, por exemplo?

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A própria palavra “namoro”, ou a ideia de um relacionamento, já é capaz de colocar algumas orelhas de pé. Mas porque tanto receio? Talvez – e só talvez – esse receio exista porque as pessoas já estão tão saturadas de darem com a cara na parede e já alimentaram tantos critérios e sintonias que precisam ser cumpridas, que assumir um “namoro” é tarefa hercúlea. Lembro vagamente da cena de um filme dos anos 80/90 (perdão pela falta de referências…) em que um sujeito havia desenvolvido um questionário de muitas perguntas para eliminar possíveis – mas equivocadas – pretendentes. Convenhamos, quem não faz o mesmo, ainda que em menor escala e sem submeter o outro a uma sabatina?

Nessa pilha de tentar determinar quem vai ser seu próximo par romântico fixo (e falhar miseravelmente), um erro muito comum que se comete é assumir para o novo pretendente as rotinas que você tinha com seu último parceiro. Tenho uma amiga que frisava isso a cada novo namoro. “Não olha pra mim com os olhos que tu olhava pra tua ex-namorada, nós somos diferentes”. Se tu não for daquelas pessoas que dão um jeito de sempre namorar o mesmo tipo, com o mesmo cabelo e as mesmas piadas, então isso soa como uma obviedade profunda. Mas que ainda assim precisa ser dita.

Há ainda um outro motivo, mais “complicado”. Durante muito, muito tempo, a norma amplamente vigente dizia que duas pessoas que se envolviam logo namorariam. Amizades coloridas não permaneciam como amizades por muito tempo. O próximo passo, o passo mais natural era, enfim, namorar. Havia a sensação de ter conhecido A pessoa certa. Dentre todas, aquela. Pensa bem como os seus pais lidam com a quantidade de gente com quem você se envolve. “Aquela garota é sua namorada?”. Até explicar…

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Hoje, temos a sensação de ter mais nuances a nossa disposição. Nada precisa estar gravado em pedra. Não precisa ser namorada para viajar junto, não precisa ser namorada para ir almoçar com a turma de amigos. As pessoas se envolvem – e emitem sinais confusos, claro – o tempo todo, com as mais diferentes profundidades. E, quando se sente que enfim é o momento de mudar o status no Facebook, a gente quer que a coisa seja de fato séria e relevante.

O problema é achar alguém que passe por todos os critérios. Ônus do bônus, como sempre.

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