Com dois shows em POA no fíndi, Letrux pede por mais mulheres na música

Foto: Rodrigo Bastos, Divulgação
Foto: Rodrigo Bastos, Divulgação

Intensa, livre e sem papas na língua – se é que algum dia teve, Letícia Novaes se desprende de qualquer amarra em sua versão solo. Mais dançante do que nunca e com uma boa pitada de brilho & sintetizadores, ela agora encarna Letrux. É a persona escolhida para a nova fase pós Letuce, dueto musical que teve ao lado do ex-namorado, Lucas Vasconcellos, até 2016.

Com letras em inglês e português, canta o desamor  (e as novas aventuras) no disco Letrux em Noite de Climão, cuja turnê desembarca em Porto Alegre neste final de semana. No papo a seguir, a cantora carioca reflete sobre o momento das mulheres e compartilha suas expectativas para os shows no Agulha,  o primeiro deles com ingressos esgotados.

Você desembarca na Capital para dois shows. O que teus fãs podem esperar?
No primeiro show (desta turnê), as pessoas já cantavam mais alto do que eu. Foi uma coisa muito louca. Parecia que era final de temporada. Estou muito feliz de fazer dois shows, porque geralmente a gente vai para uma cidade e no outro dia cedo vai embora. Duas noites dá uma sensação de continuidade, de algo menos efêmero. Estou ansiosa! Já fui a Porto Alegre em 2013, para um festival de literatura com a galera do zine que eu participava na época, o Ornitorrinco, e também fiz um pocket show com a Letuce. Mas nunca fui com banda completa. Conheço a cidade, achei tudo lindo e maravilhoso!


Seu disco-solo foi considerado o melhor do ano pelo júri do Multishow. Como é para você ter levado esse prêmio para casa?

Foi uma surpresa, juro! Eu realmente não esperava. Estava também o disco do Rincon Sapiência, muito bem falado, e simplesmente Chico Buarque. Não tinha como esperar, de maneira alguma. Mas fiquei muito feliz, porque foi um disco feito com carinho, tesão, minuciosidade… A gente elaborou, ao mesmo tempo em que deixou a espontaneidade falar. Teve trabalho, mas também deixamos as coisas acontecerem.

Como é ser uma mulher fazendo música na cena independente hoje?
É complicado, porque você ainda ouve rádio e as músicas que tocam datam de 20, 30 anos atrás. Ou voltadas para nicho, como axé, funk, sertanejo. É engraçado como existe uma relutância muito forte com a nova MPB. Outro dia, o Arthur Nogueira, um compositor do Pará, escreveu um texto maravilhoso que dizia: “Fico pensando que se aqueles discos lançados nos anos 80 fossem lançados hoje em dia seriam tipo a gente, músicos independentes que lutam”. E eles fizeram o maior sucesso por conta das gravadoras. Dizem que a gente não estoura por causa da nossa música, mas não acho mesmo que seja isso. Acho que falta incentivo cultural, de educação. Gosto de várias coisas que são populares, sou uma pessoa até bem eclética musicalmente, mas falta outra coisa. Temos algumas resistências, mas é difícil. Falando da mulher, já avançamos vários passos, mas ainda falta. São poucas mulheres instrumentistas, e isso está mudando. Sempre fomos um país de cantoras, e agora temos compositoras. É maravilhoso! Que venham mais ainda. Mas, na parte técnica, ainda é um mercado muito machista. Tomara que evolua cada vez mais.


O que mudou no seu processo criativo em trabalho solo? Prioriza ou dá espaço para algo que não fazia antes?

Como eu dividia tudo com o Lucas, eram coisas que ele precisava concordar. Hoje em dia, por mais que eu respeite muito a opinião da minha banda, querendo ou não, sigo também meu instinto. É um lugar em que dou a palavra final. Talvez não precise mais fazer tanta defesa de ideias. Mas amo ter banda, amo esse contato com os músicos. E na minha banda tenho duas mulheres, acho importante.

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Para a nova geração, ver mulheres em um palco deve ser algo incrível, não é?
Elas ficam animadas! Comentam, veem a importância da representatividade. Sempre tive isso. Quando eu ia a um show e via uma mulher, pensava: “É possível! Amanhã pode ser eu”. É doido o quanto isso tem importância e tem poder. Quando elas nos veem no show, gera uma curiosidade de talvez ter aula de guitarra, ou pegar meu caderninho e compor uma canção.

E por que você acha que existem tão poucas mulheres instrumentistas?
Quando eu tinha 19 anos, fui comprar um violão. Lembro que entrei na loja e me senti péssima, porque não fui bem atendida. Por mais que eu fosse uma cliente, o machismo falou mais alto que o capitalismo. Pensavam que eu não sabia o que estava fazendo. Não sei se é o motivo, mas é um ambiente difícil, de provocação o tempo inteiro. De ter que provar que você sabe tocar. É complicado. Nessa parte instrumental, as mulheres ficam com mais receio de, mais uma vez, sofrer um ataque machista. Também falta uma política de educação nas escolas voltada à música. Eu tive a sorte de ter aulas de música no colégio até os 13, 14 anos, e era muito legal. E minha professora de música era uma mulher. Se as meninas tivessem aulas de música no colégio, e tivessem um incentivo educacional e cultural, isso despertaria uma curiosidade.


Seu CD solo é uma porrada pós-amor, sincero demais e que faz quem ouve quase como seu cúmplice. O que quis passar com esse disco?

Fui muito fiel aos meus sentimentos e minha emoção. Não pensava muito nas consequências. Ou que naquela letra as pessoas fossem me interpretar assim ou assado. Meio que não tive filtros. Não pensei no que iam pensar. Baixei minha guarda legal e enfrentei minha solidão, minha paixão. Acho que abracei minha alma, meu coração e meu estômago. E pensei que é agora ou nunca. E fico feliz que tenha batido tanto nas pessoas. Fico encantada quando as pessoas cantam mais alto do que eu nos shows.

Com as reações ao assassinato da vereadora Marielle, no Rio, e todo o debate que as mulheres têm protagonizado, como você vê o momento feminino hoje?
Fico profundamente triste. A Marielle tinha muito mais a fazer, votei nela, era minha vizinha. Essas mentiras e calúnias que vêm depois é justamente porque as pessoas não aceitam o fato de que ela era uma pessoa fenomenal e que estava lutando por minorias. Tem muita gente falando besteira, e, foi mal, não vou respeitar essas opiniões. Isso mostra o quanto o Brasil ainda é um país extremamente machista. A cada 11 minutos, uma mulher é violentada. São dados assustadores. Eu levanto a bandeira mesmo. Na minha família, quando um tio ou um primo manda alguma mensagem, não fico calada. Ficando calada, você acaba colaborando. Se entro no táxi e o cara fala uma frase, eu falo. Dá medo. E sei que, em situações em que dá medo, às vezes a gente tem que ficar calada e baixar a cabeça. Mas, quando dá para falar alguma coisa para o cara, acho importante se posicionar.

 

Letrux canta no Projeto Concha

• Neste sábado (às 23h) e neste domingo (às 21h). Os ingressos para o show de sábado já estão esgotados.
• No Agulha (Rua Conselheiro Camargo, 300), em Porto Alegre
• Ingressos: R$ 50 (meia-entrada solidária, com doação de 1kg de alimento) a R$ 100, à venda no Sympla. Na hora, custa R$ 120.

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