Com novas autoras, literatura erótica ganha força em blogs e redes sociais e faz (re)nascer o desejo de ler sobre sexo

Foto: Júlio Cordeiro
Foto: Júlio Cordeiro

Sabrina, Julia, Bianca… Batizadas com nomes femininos, as coleções de livros que traziam romances açucarados nos idos anos 1970 conquistaram mulheres com tramas quase inocentes. Em meio a encontros e desencontros de mocinhos perfeitos e donzelas casadoiras, cenas (geralmente) tímidas de sexo apareciam para apimentar as histórias de amor água com açúcar. Um contraste com as narrativas sem pudores de uma escritora do mesmo período, Cassandra Rios (1932 – 2002). Conhecida como “Safo dos Perdizes”, ela foi a primeira autora brasileira a atingir a marca de 1 milhão de livros vendidos – e escrevendo sobre sexo em plena ditadura militar, vale frisar.

Mais de quatro décadas depois, o tabu de que a literatura erótica (e a pornografia como um todo) não é consumida pelo público feminino ficou para trás. Histórias carregadas de ousadia e sensualidade viraram, sim, coisa de mulher – como atesta o estrondoso sucesso da série Cinquenta Tons de Cinza. Escrita pela britânica E. L. James, a trilogia arrecadou mais de US$ 500 milhões somente no mercado editorial, ultrapassando as 150 milhões de cópias vendidas. Prova irrefutável de que elas querem mesmo, ler sobre sexo.

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Além do apelo comercial inegável de Cinquenta Tons, a história de Anastasia Steele e Christian Grey tem tudo a ver com o novo perfil de consumo erótico por elas: tudo se dá na internet. Assim como E. L. James, que deu início à saga com uma fan fiction criada a partir do sucesso Crepúsculo (e publicada online), é em fóruns, sites e grupos de discussão nas redes sociais que cada vez mais mulheres têm se sentido à vontade para consumir esse tipo de ficção. E muitas também têm se arriscado a escrever as próprias histórias apimentadas e compartilhar com outras fãs do gênero em comunidades virtuais. Para a escritora e filósofa Carol Teixeira, trata-se de mais um reflexo do momento de debate envolvendo as questões das mulheres, que ganha força desde 2012 – o chamado novo feminismo.

– Acho ótimo ver mais mulheres ocupando esse terreno da literatura erótica. É um movimento natural dessa tomada de posse do corpo que o feminismo tem trazido – diz a autora de livros como Bitch (2016) e Verdades e Mentiras (2006). – Um dos mitos do patriarcado é que mulheres gostam menos de sexo do que os homens, e, por muito tempo, elas acreditaram nisso a ponto de realmente consumir menos literatura erótica e também evitar escrever de forma mais explicitamente sexual. Natural que todo esse empoderamento que, felizmente vemos hoje em dia, reverbere para esse maior interesse no tema.

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Uma das maiores provas do sucesso da literatura erótica – sobretudo, escrita por mulheres – vem da versão brasileira da Amazon. É por lá que escritoras como a carioca Nana Pauvolih, uma verdadeira celebridade entre as fãs do gênero, comanda seu reinado. Entre livros impressos e, claro, e-books, Nana já vendeu mais de 200 mil cópias – marca invejável para o mercado brasileiro. No top 10 dos livros eróticos mais vendidos da Amazon, estão dois títulos seus: Redenção de Um Cafajeste (2015) e Tudo por Ele (2013). Outro nome brasileiro (ou melhor, de brasileira) que chama a atenção no ranking é o de Elizabeth Bezerra, com nada menos do que quatro livros entre os 10 mais vendidos. No Google, há pouquíssimas reportagens e entrevistas com a escritora para além das publicações de nicho. Mas as comunidades de leitoras e os números de vendas não mentem: o protagonismo das escritoras de obras eróticas apenas reflete o interesse crescente no gênero. Delas para elas.

 

Com a palavra, as escritoras

Muito além das livrarias digitais, o fenômeno também aparece nas redes sociais. Há gurias escrevendo – e compartilhando – suas produções no Instagram, em blogs, no Tumblr e, principalmente, no Facebook. Por lá, em grupos como o Share Your Venus – que reúne quase mil mulheres e é restrito a elas –, leitoras e novas escritoras encontram espaço para falar de erotismo literário. Bia Rodrigues, criadora do fórum, representa bem o perfil dessa nova consumidora. A designer de 25 anos sempre flertou com a escrita nas horas vagas, mas confessa que tinha vergonha de se aventurar a tocar no assunto sexo.

– Sempre fui muito reprimida ao falar de sexualidade. Quando comecei a sair com meu atual parceiro, contei que havia começado a escrever contos eróticos e tive coragem de mostrar. Ele me elogiou e incentivou a continuar. E até me deu bronca por ter ficado com vergonha – conta.

Passada a timidez inicial, Bia resolveu mostrar os contos para uma amiga. O retorno positivo rendeu uma ideia: e se criasse um grupo para que ela e outras mulheres pudessem falar do assunto e revelar suas histórias sem pudores? Assim nasceu o Share Your Venus, em dezembro do ano passado.

– Para mim, o grupo foi uma forma de me libertar, de furar a bolha para falar de sexualidade. É como uma terapia. É um lugar em que me sinto segura, uma forma de expressão – conta a mineira. – Mas noto que ainda há um certo tabu, Há muitas curtidas, mas pouca interação. Muitas meninas pedem para postar de forma anônima, outras me mandam mensagem privada pedindo opiniões sobre os textos. Mas está crescendo.

Outra plataforma que vem conquistando leitoras e, claro, autoras de contos eróticos é o Medium. Criado pela dupla que deu início ao Twitter, o agregador de blogs reúne escritores amadores – ou nem tanto assim. Na essência, gente que escreve por prazer, e também leitores em busca de novas vozes. Como a de Seane Melo, uma das gurias por trás da iniciativa Mulheres que Escrevem, que visa debater questões e dar visibilidade para a ala feminina que se aventura no mundo das letras. Hoje, ela é um dos nomes em ascensão da nova geração de escritoras que falam de sexo sob uma ótica feminina e conquistam cada vez mais leitoras (e leitores). Mas antes de esmiuçar peripécias, medos e desejos de personagens como a “gente da gente” Vanessa, Seane precisou encarar os próprios pudores e assumir que gosta, sim, de tornar o sexo quase um personagem. As protagonistas, contudo, são elas. Sempre elas.

– Gosto de falar sobre sexo porque passei muito tempo sem poder falar. Quando a gente é adolescente, tem vergonha. Tinha várias questões sobre as quais não falava com as minhas amigas nem com ninguém. Mas superei isso – conta. – Inclusive, sempre que falo de sexo, descubro que várias outras pessoas estão pensando as mesmas coisas que eu. Acho que as pessoas precisam de alguém para falar. Encaro isso como uma pequena missão.

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Como muitas escritoras eróticas de sua geração, Seane enveredou nas letras por, simplesmente, gostar de ler. Na época do vestibular, acabou ingressando na faculdade de Jornalismo porque, bem, também queria escrever. E não necessariamente reportagens: o desejo da maranhense de 29 anos era ganhar a vida com a escrita, mas sua praia sempre foi a ficção. O erotismo entrou em cena aos poucos. Primeiro, pela curiosidade: ainda adolescente, Seane “roubou” do irmão mais velho o livro de Bruna Surfistinha, O Doce Veneno do Escorpião (2005), que trazia relatos da vida de Raquel Pacheco como garota de programa.

– Achava tudo muito forçado, não gostava. Mas comecei a ler livros eróticos depois disso – recorda.

Na faculdade, descobriu Pornopopeia, de Reinaldo Moraes, sua primeira grande referência em literatura erótica.

– Fiquei apaixonada! Achava de uma qualidade literária incrível. Era um caminho sem volta – conta. – Mas pensava que nunca ia escrever do mesmo jeito que caras como ele, então não tentava escrever sobre erotismo.

Seus primeiros textos versavam sobre as idas e vindas de relacionamentos – com uma pitada de experiências próprias, vez ou outra. Aos poucos, começou a colocar cenas de sexo nas narrativas.

– Mas, para mim, aquilo não era erótico. Pensava que estava contando uma história que tinha sexo. Escrevi muitos textos assim até que me falaram: “Cara, gosto do teu erotismo”. Só pensei: “O quê?” – lembra, aos risos. – Pensei que poderia tentar fazer aquilo de verdade, escrever contos em que o sexo fosse o personagem principal. Mas, no início, achava feio e falso.

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Demorou, mas Seane finalmente encontrou seu tom: histórias de mulheres como ela, como as amigas, como eu e você. Que encontram um cara no bar, ficam na dúvida se vai rolar ou não. Que se questionam se devem ir para a casa de um dos dois no primeiro encontro. E que pensam muito, até mais do que deveriam, durante o sexo. São histórias menos explícitas gratuitamente do que o erotismo tradicional – não espere por caracteres e mais caracteres de cenas minuciosamente descritivas de sexo. Mas conte com muita sensualidade e situações picantes que vão fazer com que você se identifique e coloque a imaginação em ação. Sim, sacanagem não falta – e, nesse quesito, não deixa absolutamente nada a dever para o que é escrito por eles.

– Comecei a fazer erotismo quando descobri que havia uma voz possível para mim enquanto mulher. Tinha uma experiência de leitura do erótico escrito por homens. Sabia qual tipo de mulher eles escreviam, uma mulher que aparecia do nada sempre disposta a transar. É legal de ler, é excitante, mas eu percebia que, se eu fosse escrever, nunca descreveria aquela mulher daquele jeito – explica. – Tento escrever algo que se encaixe na minha vida, para não me sentir mal nem o meu leitor, para não parecer que nossa vida sexual é ruim. Tentei usar isso a nosso favor. Vou escrever essa personagem que quer uma vida sexual boa, mas nunca está “lá”, sempre está um pouco insatisfeita com alguma coisa, apesar de gostar. Tento buscar uma sensibilidade e um ponto de vista feminino.

Se a sacada de Seane é dar vida a mulheres com encucações comuns, a gaúcha Natália Nodari busca escrever sobre temas que não são costumeiramente associados a mulheres – mais uma prova de que, sim, até para literatura os estereótipos persistem. Assim nasceu Osegundocu, página do Facebook que abriga seus textos desde 2015.

– Com 18 anos, queria ler coisas que soassem mais agressivas e violentas, justamente por esse estereótipo de que as mulheres precisam escrever coisas mais suaves, menos escatológicas. Minha vontade era ver coisas em uma perspectiva não exatamente feminina, mas atual – conta. – Não acho que exista diferença de temática (entre o erotismo escrito por homens), por exemplo. Procuro não criar uma distinção grande. Mas entendo que seja empoderador falar que é feito por mulheres para que (essa produção) seja vista. Usamos o rótulo para sublinhar que mais mulheres estão escrevendo agora.

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Fugir do que se espera das mulheres e falar de temas menos abordados por elas fez com que Natália enfrentasse um perrengue logo que a fanpage foi ao ar.

– Tenho uma história que envolve até a Polícia Federal – conta Natália, quando a repórter pergunta sobre o feedback das leitoras.

Para surpresa da guria, a confusão nasceu justamente de quem se espera um pouco mais de esclarecimento: os colegas da faculdade de Letras onde ela estudava.

– Eles criaram uma página fake dizendo que eu estava assumindo crimes virtuais, relacionando meu nome e o do meu site ao endereço de crimes virtuais da PF. Publicaram em grupos de WhatsApp. As pessoas não tinham muito critério e me denunciaram. Recebi até ameaças de morte. Fiquei assustada e fui à Delegacia da Mulher para esclarecer tudo.

Natália afirma que, assim que foi atendida por uma policial, a questão prontamente se resolveu: entenderam que se tratava, sim, de literatura, e só.

– Mas a policial que me leu disse: “Isso é coisa que não deveria ser escrita por uma mulher” – recorda.
Havia quem se surpreendesse ao saber que, sim, era uma mulher que escrevia os textos que angariavam milhares de likes na página d’Osegundocu, hoje com mais de 56 mil seguidores.

– No primeiro ano, eu não assinava. Recebia vários comentários de homens que diziam: “Cara, gostei do teu texto” – lembra, entre risos. – Quando as leitoras descobriam que eu era uma mulher, ficavam empolgadas.

Para a escritora de 25 anos, que hoje mora em Portugal, onde cursa mestrado em Letras na Universidade de Coimbra, talvez o maior trunfo de haver mais mulheres escrevendo sobre erotismo é desmitificar a ideia de que mulher não pode falar de sexo. E, claro, estimular que outras gurias se aventurem também.

– Essas mulheres que estão consumindo mais (literatura erótica) agora se sentem mais encorajadas a serem donas do próprio desejo. A escrita feita por mulheres acaba sendo diferente no sentido de que, independentemente do teor do conto, quando a gente lê que foi escrito por mulher, isso autoriza outras mulheres a perceberem que elas também podem se imaginar nesses contextos.

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Versos apimentados

Nem só de contos e romances se faz a literatura erótica. A produção crescente do gênero encontra espaço inclusive na poesia, com nomes em ascensão como Bruna Escaleira. Aos 29 anos, a paulistana já publicou dois livros – entranhamento, de 2014, e Algo a Declarar, em 2016 –, e estuda literatura erótica no mestrado que cursa na USP. A afinidade da poeta com a temática pode ser resumida em uma frase de Octávio Paz, que costuma citar: “A relação entre erotismo e poesia é tal que se pode dizer, sem afetação, que o primeiro é uma poética corporal e a segunda uma erótica verbal”.

– O erotismo é meio misterioso, e a poesia também, ambos têm múltiplas interpretações. Acho que toda poesia é erótica – explica.

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Foi no final da faculdade que Bruna descobriu, quase por acaso, o gosto pelo erotismo. Assim como as contistas Seane Melo e Natália Nodari, queria falar sobre sexualidade, mas aquela pontinha de vergonha contribuía para que deixasse seus versos em segredo. Até que descobriu outras amigas que também escreviam sobre sexo – e guardavam tudo a sete chaves. Resolveram se reunir para compartilhar os escritos, em uma versão ao vivo do que são os grupos como o Share Your Venus. Ganhou até nome: Circular de Poesia Livre.

– Percebemos que era algo muito forte, poderoso e libertador. Começamos a incentivar umas às outras – relata. – Nos demos conta de que todas haviam lido muito mais homens do que mulheres na vida. Decidimos que seria um grupo somente de mulheres para ler, estudar e produzir.

Dos encontros literários nasceu o Sarau das Mulheres Livres, que reunia convidadas para apresentar produções próprias ou poesias escolhidas de outras autoras consagradas. Surgiu até um livro, que agrega o trabalho de 10 integrantes do grupo e aguarda para ser publicado. Mais do que poemas, fez nascer a vontade de transformar em palavras desejos e questionamentos comuns a elas – e também a eles.

– É quase uma forma de terapia. Não no sentido de ser um bálsamo (para aliviar), mas, sim, um jeito de arrancar coisas intrincadas – afirma Bruna. – A literatura erótica sempre existiu, e sempre houve mulheres escrevendo, mas elas não apareciam. Hoje, há mais visibilidade. E existe esse caráter transgressor, essa ânsia por libertação. Pode ser que (esse talento apareça) até naquela vizinha que tem uma escrita incrível.

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