Conheça o coletivo que busca dar visibilidade às mulheres negras no cinema do Rio Grande do Sul e do Brasil

Por Rossana Silva,
Especial

Em setembro do ano passado, no final da primeira edição do Cineclube Adélia Sampaio, organizado pelas Criadoras Negras em Porto Alegre, uma garota da plateia disse às integrantes do coletivo, emocionada:

– Vocês ainda não têm noção da importância do que estão fazendo.

E elas não tinham mesmo. Nas poltronas, lágrimas e abraços demonstravam que, naquela noite, a maior parte do público, formado especialmente por mulheres negras, experimentava a sensação de se enxergar em uma tela de cinema. Os curta-metragens exibidos, Kbela, da diretora Yasmin Thayná, e Elekô, do coletivo carioca Mulheres de Pedra, passam longe de estereótipos e colocam a mulher negra como protagonista. Um tipo de obra ainda difícil de ser encontrada nos cinemas – apesar da safra recente de filmes do Oscar, como Estrelas Além do Tempo. É essa realidade que as Criadoras Negras, coletivo formado por nove mulheres moradoras de Porto Alegre e de Caxias do Sul, propõe-se a modificar. Mais do que conquistar espaço na tela, elas reivindicam autonomia para contar histórias a partir de suas próprias vivências. As gravações de Trânsito, sua primeira obra audiovisual, devem começar em maio.

– Não existem narrativas sobre mulheres negras. Sempre somos a amiga, a empregada. Na melhor das hipóteses, seremos a personagem engraçada de um filme. Nunca estamos protagonizando. Decidimos estar por trás das câmeras também para que o que está na frente das câmeras mude – explica a atriz Kaya Rodrigues, 31 anos, uma das Criadoras Negras.

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O curta-metragem de ficção aborda a vida das mulheres negras no Rio Grande do Sul e está sendo viabilizado por meio do edital Financiarte. A ideia surgiu do olhar forasteiro da carioca Monique Rocco. Ao se mudar do Rio para Caxias do Sul, em março de 2015, a produtora visual sentiu a necessidade de criar uma obra que contribuísse a um debate que, na região, ainda considera atrasado, o da representatividade negra.

– No Rio, propusemos muitas coisas por meio da potência artística e criativa. Ao transbordar os processos dolorosos em arte, conseguimos parir coisas importantes para o mundo – afirma Monique, idealizadora do coletivo.

No último fim de semana, elas fizeram em Porto Alegre uma das últimas reuniões para a finalização do roteiro, escrito em conjunto entre todas as Criadoras. As gravações serão realizadas em Caxias do Sul e Porto Alegre, as duas sedes do coletivo. Do elenco à técnica, a equipe é composta integralmente por mulheres, a maior parte negra, incluindo colaboradoras além do coletivo. O desafio é levar, para as telas, as diferenças e as riquezas que expressem a pluralidade da mulher negra no Rio Grande do Sul.

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– Não vamos colocar uma personagem em uma situação de subalternidade, pois isso reforça o estereótipo. Para além do filme, tem sido um processo de perceber como as mulheres negras andam na rua, como as senhoras se vestem, como a gente se comporta – conta a historiadora Iliriana Rodrigues, enquanto as companheiras observam e sorriem a cada negra que transita pela Rua da República, em Porto Alegre, o local da entrevista.

– Nós nos reconhecemos pelo olhar – explica Vanessa Garroni, que atua como gestora de varejo.

Todos os semblantes se alegraram ao avistar a psicóloga Fernanda Francisca da Silva, que alertou as Criadoras sobre a importância do trabalho desenvolvido pelo coletivo. Em setembro, Fernanda viveu uma experiência transformadora ao chegar por acaso no Cineclube das Criadoras Negras.

– Vi corpos como o meu, cores como a minha, mulheres que poderiam ser minhas tias, avó, mãe… E não em um ou outro papel, mas em todos. Não de uma maneira caricata, forçada ou de uma cultura distante. Fiquei emocionada, tocada, entregue – relembra a psicóloga.

Uma prova de que a reunião das Criadoras Negras extrapola o audiovisual. O grupo é um espaço no qual mulheres criativas de diferentes áreas se inspiram e celebram as conquistas umas das outras. Com integrantes com atuações variadas como educação, comunicação e produção de moda, o coletivo por si só reúne uma pluralidade de vivências como as que elas desejam ver transposta às telas.

– É um lugar tanto de engajamento quanto de compartilhamento das nossas inquietações pessoais sobre a vida, sobre identidade étnica, sexualidade, cultura, corpo, as inquietações de uma e de outra. Assim se deu a vontade de estar em coletivo – afirma Monique Rocco.

Depois que a última cena de Trânsito estiver finalizada – o que deve ocorrer em janeiro de 2018 -, a ideia é expandir a atuação do coletivo para além do audiovisual, contemplando as áreas de atuação das Criadoras além do cinema, e abrir espaço para novas integrantes. A ideia do grupo é incentivar que outras mulheres se descubram criadoras e produtoras artísticas.

– Hoje, temos a necessidade de falar de nós. Mas nem sempre precisamos falar de nós mesmas. Por que uma mulher negra diretora não pode fazer um romance? Por que uma mulher negra não pode falar de um outro tema? Esse lugar que sempre nos colocam não precisamos ocupar exatamente como entendem que a gente deva. Podemos fazer o que quisermos, exatamente como uma pessoa branca – conclui Vanessa Garroni.

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Por mais Adélias

Uma das iniciativas do coletivo, as projeções de cinema do Cineclube Adélia Sampaio homenageiam a primeira mulher negra brasileira a dirigir um longa-metragem, Amor Maldito, de 1984. A obra foi exibida em um dos cineclubes, com a presença da cineasta mineira. Nos próximos meses, serão
promovidas novas sessões para resgatar a história de mulheres negras no audiovisual, algo que vem se fortalecendo nos últimos anos, mas ainda esbarra em dificuldades de distribuição fora da internet.

– Há uma cena muito forte de mulheres negras produzindo cinema, de diretoras como Yasmin Thayná, do Rio, e Larissa Fulana de Tal (nome artístico da cineasta), da Bahia. A Viviane Ferreira produziu O Dia de Jerusa, um curta que foi pra Cannes, mas não entrou em cartaz em nenhum lugar aqui. Precisamos continuar o Cineblube para que o público veja o que já existe. Nossa ideia é mostrar essa história e aprender com essas narrativas que estão circulando, mas não chegam até as pessoas – diz Iliriana.
Acompanhe as datas das próximas sessões na página das Criadoras Negras: facebook.com/criadorasnegrasrs.

Mineira foi a primeira cineasta negra a dirigir um longametragem no Brasil

Mineira foi a primeira cineasta negra a dirigir um longametragem no Brasil

Ares terapêuticos

Fernanda Francisca da Silva*

Fui ao cineclube promovido pelas Criadoras Negras a convite da minha irmã caçula, Maria Alice, sem muitas pretensões. Como era ligado à negritude, achei interessante, ainda que não tenha tanta curiosidade pelo audiovisual – sempre gostei mais de músicas e outras formas de arte. Cheguei à Usina do Gasômetro e já me senti diferente. Havia vários negros e negras conversando e aguardando a sessão.
Além de sermos maioria, havia uma mensagem nos cabelos soltos, nos cachos, nos turbantes, nas roupas. E, então, houve a apresentação dos filmes. Sentada ali naquela sala, vendo as projeções, percebi o quanto ver a mim e aos meus na tela grande me tocou. Porque isso nunca havia acontecido. Nunca vi nenhum filme em que fôssemos maioria sem se tratar especificamente sobre a escravização ou sobre algum país africano. E aqueles eram filmes de luta, informavam e traziam poesia. Negras e negros em lugares diferentes, fazendo coisas diferentes… Brasil. Compreendi que, para todos os presentes, muitos com lágrimas nos olhos como eu, aquela sessão teve ares terapêuticos. Tocou em recônditos de dor e deu novos significados. Falamos sobre autoestima, representatividade, possibilidades, trabalho, feminismo,
amor, beleza e seus padrões… Um grande grupo tratando de si, com respeito e compreensão da causa. Ninguém queria ir embora. Todos queriam falar. Foi lindo! E no fim, infelizmente, minha irmã nem foi.

*Psicóloga, ativista e integrante do Núcleo de Relações Raciais
do Conselho Regional de Psicologia do Rio Grande do Sul

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