Conheça os shapers de Santa Catarina que produzem pranchas para grandes nomes do surfe

Por Mariana de Moraes Sales, equipe Revista Catarina

O surfe não para de evoluir, dentro e fora da água. Com uma cultura sólida, progressiva e competitiva, a confecção de pranchas em Florianópolis tornou-se uma atividade recorrente. Com surfistas cada vez mais inovadores e ousados em suas manobras, há também maior exigência na qualidade das pranchas. Além disso, por conta da exposição do esporte na mídia com grandes nomes como Gabriel Medina, primeiro campeão brasileiro mundial de surfe da ASP World Tour de 2014 e o mais jovem brasileiro a ingressar no seleto ASP World Tour (WCT), o mercado cresce e incentiva novos investidores no setor.

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O circuito nacional também voltou aos holofotes e a expectativa é excelente para os atletas profissionais e a nova geração que pretende fazer carreira no esporte. A influência vem da atual geração brasileira que está no circuito mundial disputando de igual para igual o título com os melhores surfistas do mundo, veteranos no esporte.

Formado em Ciências Biológicas, Felipe Siebert, 37 anos, está à frente da Siebert Woodcraft Surfboards, empresa sediada em Florianópolis, que desenvolve, desde 2006, pranchas de surfe ocas, construídas em madeira. Esteticamente diferenciadas, as chamadas hollow wooden surfboards têm forte relação com o surgimento do surfe pelas pranchas de madeira e a evolução desse esporte nas décadas de 1950 e 1960. Focada no desenvolvimento de produtos alternativos, a Siebert Woodcraft tem como proposta trazer essa atmosfera que caracterizou a origem do surfe e do skate.

Quando pequeno, Felipe olhava o pai e o avô realizando alguns reparos em casa, como consertos de portas e janelas. Observador, foi aprendendo alguns detalhes do trabalho com madeira na infância. O interesse pela confecção das pranchas teve início quando Felipe resolveu comprar um modelo de madeira Balsa. Com valores altos e distantes de suas possibilidades, resolveu pesquisar como fazer a sua sozinho. Imergiu no tema, descobriu grandes fabricantes internacionais, como Tom Wegener, na Austrália, e a Grain Surfboards, em Maine, nos Estados Unidos. Inspirado em grandes referências, Siebert passou a desenvolver seu produto.

Segundo Felipe, os pranchões de madeira não são superiores nem inferiores, e sim adaptativos. As diferenças técnicas dos longboards clássicos oferecidos pela marca são mínimas. O ponto de destaque está no estilo de surfar. Por ter maiores dimensões, a prancha que leva assinatura de Siebert oferece consequentemente maior segurança.

– Eu, por ter me acostumado a surfar com um longboard de madeira de 11 quilos, quando surfo com uma prancha convencional com 8 quilos tenho dificuldade, pois me acostumei com a estabilidade das minhas pranchas – conta Felipe.

Historicamente, o surfe chegou e teve seu desenvolvimento maior na época em que predominavam as pranchinhas. Era um momento em que o longboard clássico estava totalmente esquecido, como continuou até poucos anos atrás.
Felipe conta que em Santa Catarina ainda há receio em tentar novas possibilidades, e o surfista que usa uma prancha diferente está com idade avançada, acima do peso ou até mesmo não sabe praticar o esporte de modo efetivo. Há necessidade de mudança neste panorama, tendo em vista que o mundo das pranchas tem grande amplitude, não ficando limitado aos extremos como o longboard clássico ou pranchas progressivas.

– O tipo de onda direciona bastante o tipo de prancha. Uma onda curta e cavada com certeza favorece o surfe de pranchinha, como uma onda pequena e longa favorece o surfe de longboard. Não vejo porque uma mesma pessoa não pode usufruir tanto de uma quanto de outra – aponta Felipe.

O shaper Felipe Siebert produz pranchas ocas construídas em madeira. Foto: Marcos Villas Boas/Especial

O shaper Felipe Siebert produz pranchas ocas construídas em madeira. Foto: Marcos Villas Boas/Especial

Perspectiva de mercado

Hoje Felipe Siebert vende cerca de 10 exemplares por mês. Economicamente, as pranchas de madeira são 30% mais caras, e mesmo assim, a confecção no Estado ainda está com melhor custo do que fora do País. Na Austrália e nos Estados Unidos, uma prancha de madeira custa o dobro de uma convencional. A prancha vendida por aproximadamente R$ 2,75 mil reais na Siebert Surboards, no exterior custa R$ 7,5 mil reais. Nos próximos anos, o empresário visa expandir a marca, possibilitando que outro público possa consumir seu produto.

A marca está dentro de um nicho do nicho. O longboard é um nicho bem específico, e como se isso já não bastasse, a Siebert desenvolve longboards de madeira, puxando para o extremo do clássico no surfe. As pranchas construídas são equivalentes a carros antigos, bem antigos. Assim, as criações são réplicas de pranchas históricas, com mínimas modificações funcionais nos shapes. Esse tipo de prancha e, principalmente, esse tipo de surfe tem crescido nos últimos anos, tendo como marco inicial um campeonato mundial de longboard conquistado por Joel Tudor, surfista extremamente clássico. Esse movimento teve início na Califórnia e se expandiu pelo mundo, criando uma nova onda:

– Por aqui, infelizmente, ainda somos um pouco teimosos. Eu estudo muito o que acontece fora do Brasil, onde os grandes surfistas fazem questão de surfar bem com qualquer tipo de prancha. Mas por aqui a própria imprensa em geral coloca o surfe como se existisse só as competições – enfatiza o shaper.

Sobre a parte empresarial, o maior desafio é ser multitarefas. Assim como muitos no ramo do surfe, Felipe conta com uma pequena equipe, onde se vê atuando no setor administrativo e mercadológico, além do desenvolvimento do produto, marketing e pós-venda. Hoje, o time é composto por cinco pessoas, entre elas, seus familiares. Seu irmão Fábio, formado em Design auxilia nas vendas e cuida da estruturação da marca. Foi ele quem criou website, loja virtual e segue na edição de fotografias e vídeos. Para Felipe, seu próximo grande desafio é criar produtos fora do padrão e achar pessoas que consigam perceber o valor das suas criações.

Rafael Simões iniciou no meio como surfista, aos 14 anos. Fotos Divulgação

Rafael Simões iniciou no meio como surfista, aos 14 anos. Fotos Divulgação

Determinado, o empresário Rafael Simões, 41 anos, acorda todos os dias às 7h e coloca a produção da fábrica, em Florianópolis, para funcionar. Atualmente com 11 colaboradores, a empresa Skull Surf Boards, que surgiu em 1995, segue com o intuito de produzir pranchas de extrema qualidade, tendo como grande diferencial trabalhar e lucrar sem deixar de lado a preservação do meio ambiente.

O catarinense começou a surfar aos 14 anos por intermédio de alguns amigos da escola. Logo estava participando de inúmeras competições e se familiarizando com o universo dos shapers. A partir do momento em que sua carreira não caminhava de modo promissor, Rafael buscou na fabricação de pranchas uma forma de seguir trabalhando com o que ama, o surfe.

Rafael iniciou suas atividades em um momento em que a marca catarinense Tropical Brasil desenvolvia um case de sucesso. Avelino Bastos, empreendedor e criador da marca, foi a maior inspiração. O mercado estava aquecido, e mesmo com diversos players, Rafael resolveu investir na área.

A aposta no ramo também foi baseada no cenário local. Em virtude da quantidade de praias e das condições favoráveis ao esporte, Santa Catarina apresenta uma cultura extremamente forte no surfe. O que comprova isso é a quantidade de surfistas profissionais que escolhem o Estado, entre tantos outros lugares, para residir, como por exemplo o surfista Fabio Gouveia. O surfe amador estadual tem grande importância para o Brasil, atraindo a cada dia, mais competidores. Vale destacar que o circuito catarinense de surfe é um dos melhores do Brasil.

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Segundo Rafael, hoje, junto com o Rio de Janeiro, Florianópolis tornou-se um polo de fabricação de pranchas, fato que se deve à posição atual do esporte:

– O surfe está no seu melhor momento, e é uma pena que isso tenha acontecido na pior fase da economia brasileira. Com o título de Gabriel Medina as coisas melhoraram bastante, o mercado se tornou mais receptivo, ganhamos notoriedade mundial. Além disso, a mudança na produção tornou o processo mais rápido, os materiais evoluíram muito, temos máquinas de shape, as coisas estão mais industriais – relata Rafael.

Com a expansão da área e aumento da concorrência, a grande busca é pela inovação e diferencial. A Skull Surf Boards produz cerca de 150 itens por mês e tem em sua missão a preocupação com a sustentabilidade do meio ambiente.
A empresa tem o cuidado desde a simples separação e reciclagem do lixo comum até o recolhimento dos resíduos tóxicos do processo de fabricação. Em 2003 recebeu o Prêmio Meio Ambiente Max Hablitzel na categoria Indústria e Comércio.

Paulista radicado em Floripa, Marcelo Barreira recebe pedidos de todo o país. Fotos: Bruno Abreu/Especial

Paulista radicado em Floripa, Marcelo Barreira recebe pedidos de todo o país. Fotos: Bruno Abreu/Especial

Marcelo Barreira, 43 anos, natural de Santos, descobriu em Praia Grande, litoral paulista, sua expertise como shaper. A carreira iniciou em 1992, motivado pelo grande número de pranchas próprias que consertava.

Em Florianópolis sua carreira teve início um pouco mais tarde, em 1997. Inicialmente confeccionava pranchas para amadores e atletas profissionais, fato que o fez buscar ainda mais conhecimento em acabamentos, bordas e curvas. Sempre objetivando a perfeição, teve a experiência de três temporadas de trabalho na Europa onde conheceu grandes fábricas do segmento.

Diante da experiência internacional adquirida, sua visão o fez constatar que, além dos detalhes na construção de seus shapes, a matéria-prima é peça fundamental para um resultado final efetivo. Com esse cuidado, ele aumentou a performance dos atletas, a durabilidade do produto e a fidelidade dos clientes. Por ser de outro estado, o empresário batalhou muito para que os locais confiassem em seu trabalho. Para ele, um bom shaper deve desenvolver uma prancha mágica, perfeita, para ter a confiança plena do cliente.

– Você precisa passar muita credibilidade, e isso leva tempo. Em Florianópolis o mercado é disputado, os clientes são exigentes e a cidade vive surfe o tempo todo, então é preciso trabalhar sério e estar atualizado com os novos materiais para produzir a melhor prancha – enfatiza.

Durante quase 10 anos (de 2004 até 2014) Marcelo desenvolveu pranchas para grandes nomes do surfe nacional, como Ricardo dos Santos e Michael Rodrigues. O primeiro, por exemplo, conquistou resultados relevantes como o campeonato Pro Junior Billabong Chile 2008 e a Wins Wave Of The Winter 2012/2013.

Atualmente, sua equipe conta com o surfista profissional Luciano Brulher e Israel Rocha. Além deles, outros atletas profissionais usam as pranchas MB nas etapas dos Circuitos Catarinense e no Super Surf. Marcelo é sonhador e estimula novos talentos na sua área. Para ele, o principal ponto é acreditar no seu potencial, não deixando as críticas externas influenciarem em seu trabalho.

– O início é difícil, mas busque um objetivo e lute por ele todo dia, pois não é simples fazer uma prancha ou shapear, tem que se dedicar muito, abrir mão de algumas coisas para evoluir, crescer no mercado e ter reconhecimento. Tudo que é feito com sentimento vale muito a pena e o resultado é gratificante – conta.

Hoje a MB Surfboards, empresa de Marcelo, recebe pedidos de todo o Brasil, principalmente da Bahia, Santa Catarina e Paraná, produzindo em média 30 pranchas por mês.

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