Mapeando POA: projeto de quatro gurias mostra o que há de legal para se fazer em Porto Alegre

Foto: Ricardo Lage/Divulgação
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Caue Fonseca

Ao explicar a motivação por trás do projeto Mapeando POA, as quatro criadoras mudam a formulação das respostas, mas muito pouco o conteúdo. A justificativa sai quase em jogral.

– Quando comuniquei que estava voltando de São Paulo para Porto Alegre, em maio passado, as pessoas daqui pareciam não entender. Me chamou muito a atenção a resistência em se enxergar como uma cidade legal – declara a pesquisadora formada em Jornalismo Amora Marzulo.
– Nossa! Só faltou me darem os pêsames – conta a redatora Raquel Chamis, formada em Direito, que fez o mesmo percurso São Paulo-Rio Grande do Sul.
– A gente se colocou em um lugar de fala muito complicado. O gaúcho passou a acreditar que outro lugar sempre funciona melhor – opina a professora formada em Moda Renata Fratton, de volta a Porto Alegre depois de passagens por Paris e Rio de Janeiro.
– Todo mundo reagiu de forma muito negativa à minha mudança do Rio para cá. Encontrei uma Porto Alegre muito diferente daquela que eu havia deixado em 2011, mas igualmente pulsante – avalia Fê Carvalho Leite, pesquisadora formada em Relações Públicas e a principal responsável por unir o grupo de formações e interesses diversos, mas com ideias parecidas.

Após desfazerem as malas, nesse ano, as quatro relutaram em absorver as vibrações ruins na atmosfera da cidade. Resolveram bater de frente com o discurso pessimista que beirava, em determinados momentos, à mais pura mentira. A primeira máxima que o grupo se dispôs a derrubar, por exemplo, foi a de que “Porto Alegre não tem nada”.

Foto: Reprodução/Facebook

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– Por um lado, é natural pensar assim. Quando se está há algum tempo em uma cidade, perdemos esse caráter explorador. Esse olhar de turista que aponta coisas boas nos lugares que você nunca valorizou. Nossa ideia era aproveitar que estávamos todas de volta à cidade e exercitar esse olhar, o que eu já vinha ensaiando quando voltava de tempos em tempos para visitar. Daí surgiu essa ideia de fazer uma cartografia – conta Raquel.

Ao acessar o mapeandopoa.com.br quem ainda é cético sobre a quantidade de iniciativas e eventos legais da cidade tem a opção de baixar gratuitamente uma prova de que estão errados: um documento em PDF de 55 páginas com uma lista de 153 recomendações de lugares, cursos ou eventos para curtir, trabalhar aprender ou visitar.

Cadastrando-se no site, você recebe ainda uma newsletter com a programação cultural do final de semana e da semana seguinte, enviada sempre às quintas-feiras. O foco é privilegiar eventos com preços acessíveis e em lugares abertos ao público.

Se por um lado as idealizadores reconhecem que Porto Alegre vive um momento complicado em termos de segurança e outros serviços públicos, mapear a capital gaúcha as fez perceber que há uma quantidade enorme de pessoas tentando melhorar a cidade por iniciativa própria. Um dos objetivos delas é fazer com que o Mapeando POA se torne uma rede para que iniciativas se somem e, assim, se multipliquem em vez de se dividir:

– Quando retornamos, pedimos aos amigos que nos marcassem em eventos pelo Facebook, para descobrir coisas novas. Brincávamos, em um sábado à tarde, que naquele dia só se dividindo em duas para poder estar em todos os cinco eventos legais simultâneos. Será que precisavam ser os cinco no mesmo dia? Se eles soubessem uns dos outros, não poderiam ao menos se dividir entre manhã e tarde?– questiona Renata.

Amora faz coro:
– É um pouco do perfil do porto-alegrense não dialogar muito. Faltava comunicação entre as pessoas de iniciativas que possam ser complementares. Também por isso o site está trazendo reportagens enfatizando as pessoas por trás dos projetos. Para que, em um segundo momento, crie-se uma rede em que elas se conectem.

Foto: Reprodução/Facebook

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Outra característica que dificulta uma melhor relação entre os cidadãos e a cidade, segundo Fê Carvalho, é que Porto Alegre não tem uma identidade tão forte quanto outras metrópoles. Não é a cidade dos negócios, como São Paulo, das praias, como Rio de Janeiro, ou dos bares, como Belo Horizonte. Isso acarreta dois problemas. Mais difusos em seus interesses, os porto-alegrenses custam a perceber quando são vanguarda e até mesmo quando se tornam polo em determinados segmentos, como ocorreu recentemente com as cervejarias artesanais e, agora, com a profusão de marcas de moda sustentável. O segundo problema é identificado por Amora:

– Às vezes, essa impressão de que nada acontece vem de as pessoas frequentarem sempre os mesmos lugares. Temos esse cacoete de organizar a cidade em cenas. Mas em Porto Alegre elas migram e demoram de sete a 10 anos para se estabelecer em um lugar. Se a Cidade Baixa ou o Moinhos de Vento não têm a cena boêmia de outros tempos, talvez seja porque esse público migrou para o eixo Castro Alves-Miguel Tostes, no Rio Branco, ou para o Quarto Distrito, no Floresta – compara a pesquisadora.

Fê Carvalho resume:

– Se dizem que não tem, muitas vezes é porque não procuram. E, para procurar, é preciso o porto-alegrense sair à rua, desbravar, descobrir novos cantos da cidade dele. Se o problema é medo, tenho uma convicção: quanto mais a gente sai na rua, menos perigosa ela fica.

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