Convertida em estilo de vida, a corrida conquista cada vez mais mulheres

Fotos: Felipe Carneiro/Agência RBS
Fotos: Felipe Carneiro/Agência RBS

Nos anos 1980 a febre eram os vídeos em VHS com Jane Fonda ensinando o passo a passo da ginástica aeróbica enquanto na década seguinte as academias lotadas de aparelhos tecnológicos se instalaram tanto nas esquinas quanto nos condomínios. Os anos 2000 têm como uma das características o fortalecimento da prática de esportes ao ar livre.

A corrida de rua, impulsionada pela caminhada, é hoje uma das atividades esportivas mais praticadas pelos brasileiros. Há dois anos uma pesquisa realizada pela Sociedade Brasileira de Cardiologia indicou que apesar de metade da população ( 49,2%) não se exercitar, houve um aumento na adesão nos últimos anos. Corrida ou caminhada foram apontadas por 28% dos pesquisados, à frente do queridinho futebol ( 13%) e da musculação (6%).

– Antes, a corrida era até um esporte marginalizado e agora virou cool. Hoje, praticamente todo mundo tem alguém no círculo social que pratica a corrida – defende Rodrigo Baltazar, atleta ex-representante de Floripa nos Jogos Abertos de Santa Catarina, praticante de triatlon e atualmente comandante da assessoria esportiva Newpace.

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Essa mudança ficou visível nos últimos anos. Tanto que é comum vermos em parques, ruas e avenidas – independentemente da vista paradisíaca da Beira-Mar Norte ou da Lagoa da Conceição – grupos organizados em treinos para as mais diferentes provas. Referência por anos, a famosa São Silvestre, em São Paulo, por exemplo, ganhou concorrentes em vários cantos do país. E para todos os tipos de corredores. Rodrigo tem cerca de 150 alunos, dos iniciantes aos iniciados, e as mulheres respondem pela metade deste público. Em alguns casos elas são maioria, têm entre 30 e 40 anos e são profissionais das áreas de engenharia, TI e publicidade.

– Os homens procuram a corrida para aliviar a tensão, liberar a ansiedade. Já as mulheres são voltadas para a estética, para emagrecer – comenta Rodrigo.

Com os primeiros objetivos alcançados, os corredores precisam de metas para seguir circulando por aí. Principalmente nos dias que se seguem, com vento, chuva e frio. Está aí o poder das assessorias esportivas, que acompanharam o crescimento no número de novos atletas e ganharam até mesmo representatividade com a criação da Associação dos Treinadores de Corrida de Santa Catarina (ATC).

– O que faz uma pessoa acordar cedo, com frio, e sair de casa para correr? O primeiro passo é ter uma meta, seja para correr 20 minutos por dia ou participar de uma maratona, além de estar motivado e sendo acompanhado. Sem contar o convívio – defende Rodrigo.

Este convívio é um dos atrativos para grande parte dos praticantes, somado aos benefícios físicos de movimentar vários grupos musculares. Vindos de diferentes profissões, com metas díspares, os grupos de corrida se tornaram uma base de encontro para turmas que não se formariam de outra maneira. Além das corridas, eles participam de festas, aniversários, jantares e viajam juntos para as provas. Até casamento já surgiu a partir de um despretensioso treino.

Mais do que um exercício físico

Professora e também corredora, Jane Petry da Rosa defendeu em seu mestrado no fim do ano passado na UFSC a relação das corridas de rua com os eventos, o consumo, a educação e sua influência na sociabilidade.

– Descobri com os relatos das pessoas as razões que envolvem a sociabilidade: ter companhia para correr, conhecer pessoas, divertir- se e fazer amigos. Para a maior parte dos corredores a corrida é mais do que uma atividade física, é uma forma de promover encontros.

Em seus estudos, a professora de Florianópolis abordou outras ramificações que envolvem o esporte. O consumo é uma delas.
Revistas especializadas, provas para todos os níveis, roupas, acessórios e, principalmente, tênis são alguns pontos deste mercado envolvendo a corrida de rua.

– Temos inúmeros tipos de tênis, inclusive específicos para as mulheres. Eles são produzidos de acordo com a pisada, a questão anatômica, o quadril, a posição dos joelhos – esclarece Rodrigo, fazendo questão de lembrar que a peça mais cara nem sempre é a ideal.
Mas é possível correr usando cerca de R$ 5 mil em roupas e acessórios.

Entre tantos autores abordados pela professora Jane em sua tese, está o japonês Haruki Murakami, um dos nomes mais incensados da literatura mundial atual. No livro Do Que Eu Falo Quando Eu Falo de Corrida, publicado em 2010, ele revela como começou a correr, em 1982, depois de vender seu bar de jazz em Tóquio e se dedicar à escrita, mesmo período em que começa a correr para manter a forma. Num dos trechos, Murakami define o sentimento desses atletas:

– As pessoas às vezes zombam de quem corre todo dia, alegando que é uma tentativa desesperada de viver mais. Mas não acho que esse seja o motivo pelo qual a maioria corre. A maioria dos corredores corre não porque queira viver mais, mas porque quer viver a vida ao máximo. Se você quer desfrutar os anos, é muito melhor vivê- los com objetivos claros e plenamente vivo do que numa bruma, e acredito que correr ajude a fazer isso – discorre na página 73 do livro.

Tribo da endorfina

Aos 12 anos, Andrea Teixeira (ao centro, na foto acima) participava de um teste de esforço na escola quando uma professora disse que ela levava jeito para a corrida. A partir deste momento, a florianopolitana sempre esteve ligada ao esporte. Escolheu Educação Física para cursar, se formou, bateu alguns recordes na faculdade – segundo ela até hoje imbatíveis – e se tornou a primeira mulher na Capital a criar uma assessoria esportiva.

– Saí da faculdade e fui trabalhar em uma academia na Lagoa (da Conceição). Era uma escola de natação e montei um pequeno grupo de meninas que também gostavam de correr. Era apenas um hobby, todos os sábados treinávamos, eu fazia as planilhas – relembra.

Esse “hobby” ganhou ares profissionais quando Andrea inscreveu o grupo na Volta à Ilha que, até então, não tinha nem a categoria feminina.

– A primeira vez foi por experiência, mas as meninas começaram a me pagar, vislumbrei que poderíamos chamar também os namorados e maridos. Foi aí, em 2004, que eu criei a assessoria Tribo do Esporte.

Nos últimos 10 anos, Andrea viu a corrida arrebatar fãs de todas as idades, a se popularizar. O mercado para este público, em todos os sentidos, teve um crescimento respeitável.

– A maioria das pessoas busca só condicionamento físico, mas depois quer fazer uma prova, começa com cinco quilômetros – comenta sobre o perfil de quem descobre o prazer de correr.

Daquele pequeno grupo de meninas até hoje as mulheres seguem procurando acompanhamento, seja somente por estética ou saúde.
Aquelas que entraram na menopausa, por exemplo, estão entre elas.

– Elas entram querendo perder peso em função da menopausa. São pessoas que têm outro objetivo de vida, já estão quase se aposentando. A gente começa com uma caminhada orientada, muitas vezes são pessoas que nunca fizeram uma atividade. Mas se o objetivo é caminhar uma hora, em três meses elas começam a trotar e a desejar outras metas – esclarece.

Ainda sobre o perfil de suas alunas, completa:

– Os homens são mais competitivos e as mulheres são mais flexíveis. Elas levam para o lado da saúde, são mais leves, já os homens querem fazer o melhor tempo, competir com os colegas. Elas levam uma vida tão corrida, com o trabalho, as crianças, querem relaxar.
Neste sentido, elas se exigem menos – encerra.

Das passarelas para as pistas

Quando venceu o concurso de modelos da Ford em 1998, a blumenauense Amanda Miranda (acima), 30 anos, não imaginava os caminhos que a profissão a levaria a percorrer. Para as campanhas e capas de revistas – foi Trip Girl em 2011 –, viajou pelo mundo. E apostou na corrida como forma para manter o corpo em dia. Nas ruas de Paris ou em São Paulo.

– O esporte sempre existiu na minha vida. Desde pequena fazia balé, por exemplo, incentivada pela família. Depois, como estava viajando para vários lugares, a corrida se tornou prática. Além de melhorar o corpo, também revitaliza a mente – comenta.

Diante dos holofotes, Amanda começou a sentir falta de um pouco mais de conteúdo. Paralelo à carreira, cursou Nutrição na capital paulista, onde morou por 15 anos antes de retornar a Santa Catarina e instalar seu consultório em Floripa.

– Hoje atendo muitas pessoas que estão preocupadas não só com a beleza, mas com a saúde do corpo também, principalmente corredores. Como eu pratico, fica mais fácil. É necessário entender o que precisamos antes, durante e após as provas.

Mas Amanda não ficou só na corrida. Durante uma aula de natação a professora a incentivou a encarar o triatlon como uma nova alternativa esportiva. O exaustivo trio segue como uma de suas prioridades. Focada na alimentação, ela desenvolveu ainda uma linha de alimentos funcionais, incluindo o badalado suco verde, que são entregues em casa ou no local que a pessoa desejar.

“Meio Forrest Gump”

Durante muito tempo, a mineira Elma Oliveira (acima) deu braçadas intermináveis nas aulas de natação. Cansou, achava um esporte solitário, precisava de uma novidade. 

Em 2007, depois de uma separação conjugal, já moradora de Florianópolis, começou a correr, “meio Forrest Gump”, como ela gosta de lembrar. Assim como o personagem de Tom Hanks no longa dos anos 1990, Elma não parou mais. E foi pelo convite de uma amiga que encontrou uma assessoria esportiva.

– Eu ficava correndo ao lado, fazendo o meu treino e o dela. Aí, ela me chamou – comenta.

Com o acompanhamento dos profissionais, a bancária de 48 anos se aprofundou no tema. Começou com uma prova de cinco quilômetros e logo depois estava na famosa Volta à Ilha. Chegou a ultrapassar os limites do corpo, treinando todos os dias, participando de várias provas, incansável. Ganhou algumas lesões, tão comuns no esporte. E o melhor, ganhou também consciência de até onde pode chegar.

– Foram seis meses parada. Hoje estou com um professor que segura minha onda, eu quero fazer várias provas, mas ele me manda escolher.

Para se manter em perfeita sintonia com o esporte que escolheu, frequenta religiosamente as aulas de musculação, uma sessão semanal de fisioterapia e as consultas com uma nutricionista. São medidas imprescindíveis para quem corre. Ela também não abre mão de uma cervejinha de vez em quando.

Estudante de Biologia da UFSC, Elma destaca o lado social do esporte. As oportunidades de entrosamento com pessoas de diferentes profissões fazem parte do roteiro:

– Na corrida você encontra gente de todas as profissões, todo mundo é igual. Aí, você descobre que o corredor é médico e consulta com ele. Eu tenho uma turma bem legal – comemora.

É com este grupo que costuma viajar para disputar as provas. Já passaram pelos Estados Unidos, Argentina e Chile. Com tantos anos de experiência fica mais fácil apontar a prova predileta.

– Ah, eu gostei da Wings For Life World Run, realizada em maio em Floripa e em vários lugares do mundo. Depois de meia hora da largada, um carro vai atrás dos corredores e quando um atleta é ultrapassado pelo veículo, a corrida termina pra ele – finaliza.

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