Entrevista: conheça a vida e a obra de Cíntia Moscovich, patrona da Feira do Livro 2016

Foto: Anderson Fetter/Agência RBS
Foto: Anderson Fetter/Agência RBS

Por Carlos André Moreira (carlos.moreira@zerohora.com.br)

É bem conhecido o conselho que cada patrono da Feira do Livro dá a seu sucessor: tenha preparo físico e sapatos confortáveis, porque se caminha muito pela Praça da Alfândega. Cíntia Moscovich sabe disso (“Não parece, mas eu faço ginástica, estou fortalecendo as pernas”, diz, com uma risada). Ela pretende, contudo, não apenas andar pela Feira, mas sentar-se na Feira. Um dos projetos da patrona do evento deste ano é organizar uma metapraça, digamos assim, uma praça dentro da Praça da Alfândega, para que os frequentadores possam levar cadeiras de praia, sentar, tomar chimarrão e conversar sobre suas descobertas nas bancas.

– É um pouco a volta a algo que existia quando o Sergio Faraco ficava perto de um bueiro, quando os autógrafos eram no centro da praça, e o pessoal se juntava em volta dele, conversando, ele contando histórias. Eu adoraria que a gente pudesse reviver esse tempo, o encontro dos escritores e leitores na praça, conversando sobre literatura – diz.

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Aos 58 anos, Cíntia se diz pega de surpresa pela eleição, principalmente pelo que representa, a passagem do tempo. A vaga aspiração de se tornar patrona no futuro chegou, e o futuro com ela. Cíntia é portoalegrense e tem uma longa relação com a Feira, primeiramente como frequentadora, levada pelos pais, Geni e Elias, em companhia dos irmãos, Henrique e Jairo. Depois, como estudante no Colégio
Israelita e de Jornalismo da PUCRS, ativista de esquerda e militante comunista, garimpando livros nos saldos. E finalmente como escritora publicada, a partir de 1995, em sessões de autógrafos ou programações paralelas.

A ideia de resgatar como patrona as rodas de conversa na praça é também um aceno a algo que está na origem da narradora que Cíntia se tornou. Como ela recorda na entrevista a seguir, seus avós, imigrantes judeus russos, faziam do hábito de contar histórias uma arte. À qual ela deu continuidade na trajetória que a levará à Feira, de 28 de outubro a 15 de novembro. Talvez você a encontre por lá.

Qual a sensação de ser patrona da Feira do Livro?

É um troço meio irreal. Volta e meia, eu me lembro da coisa e me surpreendo. Porque, para mim, era algo distante, longínquo. Sempre pensei assim: tenho ainda muito chão, muita estrada, quem sabe um dia. Uma daquelas fantasias que tu só imaginas e não sabe direito o que fazer com ela. E aí tu te surpreende quando acontece.

Você se achava jovem demais para ser patrona?

Sim. Não, agora não. É que o tempo passou muito rápido, não me dei conta. Eu pensava no patronato para “quando eu crescesse”, mas eu cresci, me tornei uma senhora de quase 60 anos. E acho que essa é uma marca. Quando tu viras patrona de alguma coisa, é um sinal de que o tempo passou e que tu até podes representar os outros mais jovens.

Quais são suas lembranças mais antigas da feira?

Meus pais sempre quiseram que lêssemos, então íamos todo ano à Feira. Uma lembrança que tenho é a de ver o Mario Quintana sentadinho num dos bancos da praça. Outra é de uma barraquinha voltada para a Rua da Praia, e estava exposto ali um livro chamado De onde vêm os bebês. Aquilo foi uma revelação. Pedi para o pai e a mãe, e eles compraram meio contrariados, porque explicava tudo bem direitinho, até com desenhos.

Fale um pouco da sua infância.

Até os meus 15 anos moramos na Ramiro Barcelos, em frente ao Hospital de Clínicas, onde tinha um valão. O Clínicas não tinha estacionamento, não tinha nada, o prédio estava recém sendo levantado. A gente brincava na área do prédio. Eu me criei na Redenção. Ali era o meu pátio, andava de bicicleta, jogava futebol. Aquele ainda era um bairro étnico, digamos assim, o Bom Fim judaico, a rua tomada do cheiro de muitos restaurantes, armazéns.

Foto: Anderson Fetter/Agência RBS

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E o impulso de ser escritora?

Sou neta de imigrantes, e a grande diversão dos velhos era contar as histórias: como era na Rússia, como era no navio, o que aconteceu quando chegaram aqui. Talvez isso tenha despertado em mim o gosto pela ficção. Queria ser escritora, mas não sabia como. Escrevia poesia, uma coisa muito ruim. Fiz a oficina do (escritor Luiz Antonio de) Assis Brasil, e logo nos primeiros exercícios ele fazia comentários muito entusiasmados. Até que um dia, no segundo semestre, ele entrou na sala, apontou pra mim e sussurrou: “Tu é uma escritora”. E naquele momento eu tive muito medo. É uma coisa muito paradoxal, ver que algo que eu queria poderia mesmo ser verdade. Só comecei a escrever prosa de ficção sabendo o que eu queria depois da oficina do Assis, a partir de 1995/1996. No fim de 1996, lancei meu primeiro livro, O reino das cebolas, que concorreu num edital do Fumproarte.

Muitos escritores são céticos. Qual sua relação com a fé judaica?

Quando jovem, não acreditava em Deus. No colégio Israelita, era comunista, criticava os valores “burgueses” da família. Na nossa casa, ninguém era muito praticante da fé, mas, quando meu pai morreu, com apenas 56 anos, a maneira de eu me salvar daquela perda foi acreditar que Deus existe e que levou meu pai. E Deus passou a existir porque quero ver meu pai de novo. Sei que é uma base frágil, mas quero acreditar. Mesmo no judaísmo, minha participação tem mais a ver com comunidade do que com religião. Não sou muito ligada aos rituais a não ser como um modo de reunir a família, as pessoas que são importantes para mim. Mas tem uma coisa engraçada. Na sexta-feira, acendo as velas do Shabat. Porque tem uma coisa absolutamente transcendente em acender as velas para o Shabat. Tu sabes que todas as mulheres (judias) no teu fuso horário estão fazendo o mesmo.

E como você conheceu seu marido, Luiz Paulo Faccioli?

Ele era bancário e estudava processamento de dados, e era colega de uma amiga minha de infância. E ele sempre tocou música, e ia se apresentar no MUSIPUC (festival universitário de música popular que ocorreu entre 1971 e 1978). E ela sempre falava de mim para ele e dele pra mim. Fui ao MUSIPUC, em que ele defendeu uma canção, lá a gente se conheceu. Foi uma coisa avassaladora. Casamos súper
rápido, porque ele ia assumir a gerência da Caixa Econômica Federal e se mudar para Dois Irmãos. Era 1983, eu tinha uns 25 anos, e, a essa altura, meu pai já tinha morrido. Não sei se a gente teria casado se ele estivesse vivo.

Por quê? Por ele não ser judeu?

Tenho a impressão de que meu pai não teria aprovado, ele não era religioso, mas achava que havia uma necessidade de continuidade. A mãe não gostou muito a princípio, meus irmãos preferiram não se meter, trataram ele com alguma frieza para ver se adiantava, não adiantou. E no dia seguinte ao casamento, toda a comunidade já o havia abraçado.

Foto: Anderson Fetter/Agência RBS

Foto: Anderson Fetter/Agência RBS

Quando você foi anunciada patrona, algumas pessoas comentaram o que uma patrona que processou uma creche devido ao barulho faria na área infantil. O que pensa disso?

Acho que quem comenta isso está mal informado. O que aconteceu foi que entrei na Justiça contra o barulho, não contra as crianças, e a coisa toda foi mal conduzida. Eram 80 crianças berrando praticamente dentro da minha casa (onde a escritora trabalha).

Mas crianças não são naturalmente barulhentas?

Claro. As crianças fazem barulho, é natural que façam. Aconteceu de eu ir falar com a diretora e a direção do União, o clube que colocou a creche aqui ao lado, para propor um acordo, e eles não quiseram me ouvir. Eu queria um escalonamento: a creche faria a recreação de tal a tal horário, e eu me adaptaria. Fui à sede falar com toda a diretoria. O diretor do clube veio aqui, e a primeira coisa que ele disse ao entrar na minha casa foi “Nossa, que lindo terreno, daria um estacionamento maravilhoso para nós”. Outra hora, ele voltou e disse que a diretora não gostava de mim. Completou: “Eles não querem acordo. Mas tenho outra proposta. Por quanto a senhora me vende esta casa?”. E uma vez por semana depois disso alguém batia aqui querendo comprar a casa. No fim, o conselho deliberativo do clube considerou que a escola era deficitária e fechou-a. E um detalhe: enquanto isso, eu estava me tratando de um câncer. Aí veio outra escola. Chamei a diretora e perguntei: vamos fazer um acordo? Ela disse: “Vamos ver, comigo vai ser diferente”. E cada vez que havia barulho, eu ia lá até que ela disse: “Vá procurar a Justiça”. Eu fui. No julgamento, veio à tona que a creche estava sem alvará – foi notificada e autuada, conseguiu um alvará provisório. Fui atrás da situação do imóvel e descobri que o habite-se do edifício é de 1937, residencial, nunca houve alvará comercial. A juíza deferiu a continuidade das atividades, mas a procuradoria municipal entrou contra a escola por não ter o habite-se, e agora está correndo o prazo para defesa.

Mas isso de algum modo grudou em sua imagem.

Porque as pessoas não sabem de toda a história. Claro que fico chateada. Se as pessoas se inteirassem da situação antes de opinar, não reagiriam de forma tão agressiva. Sempre lutei pelas coisas na minha vida. Esta é a minha casa, vivo aqui há quase 30 anos. E se a Câmara diz que eu sou a patrona da Feira, é porque estou no caminho certo. Estou na minha casa escrevendo, e é isto o que eu quero, quero ficar em paz. Se as pessoas me odeiam por isso, problema delas. Eu não tenho esse tipo de temperamento.

Três livros para conhecer Cíntia Moscovich

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Duas iguais (1998)
Primeira narrativa longa de Cíntia, a história de amor entre duas jovens é um romance construído com olhar afetuoso e uma prosa de um erotismo delicado.

 

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Arquitetura do arco-íris (2004)
Reunião de 10 contos em que personagens em impasse são confrontados com extremos de suas personalidades e de suas relações com os outros. O livro que é uma súmula das virtudes de Cíntia no conto: linguagem apurada e o mergulho aprofundado na psique dos personagens.

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Por que sou gorda, mamãe? (2006)
Uma escritora que engordou mais de 20 quilos em quatro anos vai buscar as razões de seu sobrepeso na relação tumultuada e competitiva com a mãe.

 

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